Haitianos denunciam desorganização na ajuda ao país

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postado em 19/01/2010 08:00

O empresário haitiano Thierry Bijou, morador do bairro de Pétion-Ville, testemunhou no domingo cenas que traduzem o caos humanitário enfrentado pela população de Porto Príncipe. “Eu vi várias amputações desnecessárias porque os médicos não tinham antibióticos. Isso mexeu muito comigo”, contou ao Correio, pela internet. No mesmo dia, ele decidiu visitar as cidades de Grang-Goave e de Léogane (oeste), também bastante afetadas pelo terremoto de 7 graus que espalhou a morte pela capital. No caminho entre Carrefour e Grand-Goave, ele presenciou outra imagem chocante. “Vi pessoas tentando escapar de Porto Príncipe, me pediram água. Uma senhora estava há dias sem comer ou beber. Alguém teve que cobrir os olhos dela, porque quase saltavam das órbitas”, comentou. Já se passou quase uma semana desde a catástrofe e, ainda que caixas lotadas de mantimentos sejam descarregadas no Aeroporto Internacional de Porto Príncipe, boa parte dos donativos não chega ao destino final.

“A ajuda internacional está aqui. Todos os países estão aqui. Eu sinto como se as grandes nações estivessem lutando sobre quem decide”, criticou Bijou. “Enquanto isso, as pessoas morrem.” O desespero dos haitianos transformou algumas áreas da capital em terra de ninguém e já coloca em perigo a vida dos próprios membros de organizações humanitárias e soldados estrangeiros. Segundo a agência de notícias France-Presse, um norte-americano morreu e três ficaram feridos em meio à gigantesca operação humanitária. A Marinha dos Estados Unidos não revelou as circunstâncias do incidente. Um porta-voz apenas declarou que os soldados estavam sendo evacuados por causa da insolação e de desidratação.

Ante as denúncias de lentidão na entrega dos mantimentos, o governo de René Préval anunciou que abrirá 280 centros de ajuda. No fim da noite de domingo, as autoridades haviam revelado que mais de 70 mil corpos já haviam sido enterrados em covas coletivas — a estimativa das forças norte-americanas é de que ao menos 200 mil pessoas morreram. O tremor também deixou 250 mil feridos e 1,5 milhão de desabrigados. O número de desaparecidos permanece incerto, mas a União Europeia admite que 1,2 mil de seus cidadãos não foram localizados. Outra face cruel da tragédia são as amputações. Desde sábado, cirurgiões franceses amputaram 28 pacientes, entre 30 operações, apenas no Hospital Geral de Porto Príncipe. O embaixador dos Estados Unidos no Haiti disse que a destruição no país “é como se uma bomba atômica tivesse explodido”.

O haitiano Weber Jose, 42, contou ter visto, na manhã de ontem, caminhões com caixas contendo gêneros alimentícios. “Acho que há alguma distribuição de comida, mas posso dizer que realmente ela não é tão organizada perfeitamente”, reclamou. “Por aqui, existe uma preocupação com a segurança, porque várias prisões em Porto Príncipe foram destruídas, e o povo está nervoso com o fato de os combustíveis e os alimentos serem escassos.” Ironicamente, o secretário de Estado da Agricultura do Haiti, Michael Chancy, admitiu que o país recebeu mais alimentos do que pode armazenar e distribuir. “Em princípio, temos comida suficiente, o problema é a recepção e o armazenamento”, afirmou. “Primeiro, é preciso garantir a ordem e, depois, distribuir.”

Comércio saqueado
A frustração e a raiva foram descarregadas ontem sobre a área comercial de Porto Príncipe, tomada por saqueadores. Pelo menos 10 deles invadiram uma loja de tecidos que ainda não havia sido roubada, uma raridade nos dias pós-terremoto. Segundo a AFP, três vigilantes particulares apontaram suas escopetas para os ladrões. “A gente vê as pessoas tentando roubar coisas. Ontem, alguém levou a bolsa da minha câmera, mas estava vazia”, relatou Bijou. Em outros pontos da cidade, saqueadores lutavam por produtos roubados. “Você precisa entender que mais de 3 mil detentos estão nas ruas”, lembrou o empresário. O também empresário haitiano Robert Kenol, 43, disse à reportagem acreditar que gangues estejam se aproveitando da situação para agir impunemente, mas reconheceu que o povo está desesperado. “A situação é difícil. Você tem uma maioria de boas pessoas que realmente precisam de comida e abrigo, mas também aqueles que são apenas maus”, comentou, pela internet.

Por e-mail, o norte-americano Jon Shaw, professor de psiquiatria e ciências comportamentais na Universidade de Miami, considera esperados os saques. “As leis da biologia são as lições fundamentais de história e competição por recursos em todas as espécies. Após um desastre como esse, não é de se surpreender que, com a diminuição dos recursos, haverá uma batalha pela sobrevivência que estará associada — em alguns casos — aos saques e à criminalidade”, explicou.

Envio de mais tropas

Depois de uma rápida passagem pelo Haiti, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, pediu ao Conselho de Segurança o envio de mais 3,5 mil militares ao país, que teve sua capital devastada por um terremoto. Aos altos representantes dos países-membros, Ban narrou o que viu em Porto Príncipe e pediu urgência nas ações para melhorar a segurança e a coordenação da ajuda internacional. O Conselho de Segurança se reuniu ontem, em Nova York, para discutir a possibilidade de mandar mais homens, mas uma decisão só deve ser anunciada hoje.

“As cenas de partir o coração que eu vi ontem (no domingo, no Haiti) nos compelem a agir rapidamente”, disse Ban. Segundo ele, são necessários mais 1,5 mil integrantes de forças policiais e 2 mil soldados para proteger os comboios de ajuda e os pontos de distribuição de mantimentos na cidade. “O mais importante agora é como coordenar de maneira efetiva e coerente toda a ajuda internacional, e fazer tudo sem que se desperdice tempo e ajuda”, destacou. Atualmente, a ONU possui 7 mil homens no Haiti, sendo 3 mil na capital devastada.

Um diplomata presente na reunião do conselho disse ao The Wall Street Journal que os representantes dos EUA já prepararam um rascunho de resolução autorizando o aumento dos “capacetes azuis” para ser votada na manhã de hoje. O chanceler brasileiro, Celso Amorim, reafirmou ontem que, “se for necessário”, o país enviará mais militares.

Ao sair do encontro em Nova York, Ban foi questionado pela imprensa sobre o excesso de controle exercido pelos norte-americanos, que chegaram a negar autorização para que aviões trazendo ajuda humanitária pousassem em Porto Príncipe. O secretário-geral reiterou que a ONU, e não os EUA, são responsáveis pela operação de ajuda. “A comunidade internacional confia às Nações Unidas a liderança na coordenação das ações no Haiti. Não há dúvida disso”, afirmou. Ontem, o secretário francês de Cooperação, Alain Joyandet, declarou que a ONU deve definir o papel de Washington no Haiti. “Trata-se de ajudar o Haiti, não de ocupá-lo. Para que o país possa retomar sua vida”, alfinetou.

A França tem, inclusive, tentado liderar os esforços em outra frente. A Conferência Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento do Haiti, ideia apresentada pelo presidente Nicolas Sarkozy, começou a tomar forma ontem, com um encontro preparatório em Santo Domingo, encabeçado pelo presidente haitiano, René Préval, e seu colega dominicano, Leonel Fernández. A conferência de fato ocorre na próxima segunda-feira, em Montreal, no Canadá.

Clinton
No início da tarde de ontem(hora local), o ex-presidente americano Bill Clinton chegou ao Haiti, como enviado especial da ONU. “Sinto como profunda obrigação para com o povo haitiano visitar o país e reunir-me com o presidente (René) Préval para assegurar que nossa resposta continue coordenada e efetiva”, afirmou, ao embarcar. Ao mesmo tempo, em Miami, o vice-presidente, Joe Biden, declarou que seu país mantém um forte compromisso a longo prazo para ajudar na recuperação do Haiti.
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