Engenheiro abriga em casa 75 sobreviventes do terremoto e luta para alimentá-los

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postado em 20/01/2010 08:12 / atualizado em 20/01/2010 16:54

O haitiano Patrick Bouchereau preferiu não esperar a ajuda chegar ao número 16 da Rua Jasmim, no bairro de Delmas 75 - região sudoeste de Porto Príncipe. Todos os dias, esse engenheiro civil de 60 anos dirige cerca de 20 minutos até um ponto de distribuição próximo ao aeroporto, onde retorna com um vasilhame grande cheio de água não potável e comida. Pelo menos 75 sobreviventes do terremoto da semana passada dependem da boa vontade de Patrick, que cedeu o quintal de sua casa para abrigá-los. No caminho, ele confirmou ao Correio, por telefone, que o desespero ainda ecoa pelas ruas da capital do Haiti. "Quase todo mundo perdeu alguém ou perdeu uma casa. As pessoas não sabem se suas casas não cairão e se podem entrar no interior delas", comentou. "Meu terreno é muito grande. Eu estou dormindo com eles do lado de fora. Estou fazendo o que posso para ajudá-los", acrescentou.

Arquivo Pessoal
Enquanto Patrick estende suas mãos para o próximo, braços e suor de socorristas tentam o que parece impossível, uma semana depois da catástrofe: salvar vidas. "Obrigada, Deus. Obrigada, Deus", balbuciou Ena Zini, com cerca de 70 anos, após ser puxada por uma equipe mexicana dos escombros da Catedral Sacre-Couer, o mesmo local onde morreu a médica e missionária brasileira Zilda Arns. Até o fechamento desta edição, o estado de saúde de Zini era considerado delicado e ela precisava de uma cirurgia. Segundo a rede de TV CNN, Maxime Janvier, filho de Zini, reconheceu a mãe pela foto no site da emissora. "Estávamos rezando muito para que isso ocorresse", disse ele.

Pierre Louis Ronny deve sua vida a saqueadores e bombeiros russos. Após passar sete dias soterrado, sem água e sem comida, foi resgatado ontem do prédio da empresa de telecomunicações Teleco Haitian, no centro de Porto Príncipe. Apesar de terem resistido por tanto tempo sob os escombros, Zini e Pierre agora precisam enfrentar outra dura realidade. Lotados, os hospitais tentam fazer o que podem pelos milhares de pacientes. No entanto, a catástrofe impede um tratamento digno. O empresário Thierry Bijou, 33 anos, morador de Pétion-Ville, visitou anteontem alguns hospitais. "Eles pareciam o inferno. Havia pessoas jogadas ao chão, com feridas abertas, e moscas por todos os lados", descreveu, em entrevista pela internet. O risco de doenças começa a deixar de ser medo para tornar-se uma realidade imediata. Os casos de tétano e gangrena se multiplicam, e os médicos também alertam para possíveis epidemias de sarampo, meningite e outras infecções.

Em entrevista ao Correio, por e-mail, a norte-americana Linda DeGutis - professora de cirurgia e medicina de emergência na Universidade de Yale - admitiu que as infecções de ferimentos são uma grande preocupação. "A gangrena, que é a morte do tecido, pode ocorrer se uma lesão for grave o bastante para causar infecções impressionantes ou se houver falta de suprimento sanguíneo na área", explicou. "Já o tétano pode atingir feridas expostas ao solo contaminado." Segundo Linda, outra ameaça bastante presente é o sarampo - o Haiti apresenta surtos e muitas pessoas não foram imunizadas. "Como os desabrigados estão em aglomerações, o risco de exposição a alguém com sarampo é maior. Isso também vale para outras doenças infecciosas", alertou. Linda acredita que os médicos em Porto Príncipe tentam oferecer o melhor atendimento possível, ante a falta de recursos. "Eles estão esperando por suprimentos, por mais médicos e enfermeiros. Os hospitais foram danificados ou destruídos, suprimentos se perderam, e o transporte de equipamentos é difícil", lembrou. Outra preocupação cada vez mais evidente é com a insegurança. Thierry Bijou disse ter ouvido tiros "a noite inteira", em Pétion-Ville. Por sua vez, Bouchereau relatou ter visto vários policiais nas ruas, ontem. "Perto de minha casa, não tenho sentido a presença de gangues. Meu irmão, que vive em Pétion-Ville, e um amigo de fora, os únicos da região que não tiveram suas casas arrombadas", acrescentou. O clima tenso em Delmas, bairro de Bouchereau, forçou o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) a suspender a distribuição de ajuda "não alimentar". "Apesar da difícil situação em Porto Príncipe, trataremos de reiniciar a distribuição de ajuda (não alimentar) nos próximos dias", informou o chefe das operações do CICV no local, Riccardo Conti, citado em comunicado da organização, com sede em Genebra. Relato do terror "Ao redor de minha casa, perdemos cerca de cinco pessoas, entre um total de 400. No entanto, perto da casa da minha mãe, morreram 25 de 50 estudantes. Ainda há muitos mortos sob as casas. No dia do terremoto, eu estava em frente ao hotel Quinan, onde minha mulher trabalha. Quando senti a terra tremer, virei o corpo e olhei para o hotel. Parecia um arvoredo balançando ao vento, mas estava intacto. 'A terra está tremendo! O que está acontecendo? O que está fazendo!', eu gritava. Quando tudo parou, vi que minha mulher estava a salvo. Pensei em ver como estavam umas pequenas casas atrás do hotel. Ao me dirigir até lá, ouvi gritos. Nenhuma casa ficou de pé".

 

Ouça podcast com Patrick Bouchereau, morador de Porto Príncipe (em espanhol) 

 

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