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Estádio onde a seleção brasileira fez o Jogo da Paz em 2004 vira hospital improvisado

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postado em 22/01/2010 08:08 / atualizado em 22/01/2010 16:27

» Renato Alves (textos)
» Breno Fortes (fotos)
Enviados especiais

Porto Príncipe — Cenário de uma das maiores alegrias do povo haitiano, o estádio Sylvio Cator, em Porto Príncipe, agora é símbolo da tragédia que já deixou pelo menos 75 mil mortos. No mesmo campo em que as estrelas da Seleção Brasileira de futebol deram um show em agosto de 2004, no chamadoJogo da Paz (1), milhares de pessoas buscam abrigo e ajuda desde o terremoto que arrasou a capital, Porto Príncipe, e quatro cidades haitianas, há 10 dias. Atrás das traves em que Ronaldinho Gaúcho e companhia fizeram parte dos seis gols da vitória contra a seleção local, vítimas retiradas dos escombros são operadas — sem anestesia.

Breno Fortes/CB/D.A Press
A estrutura de concreto, que comportava até 15 mil pessoas sentadas em suas arquibancadas, está condenada. Mesmo assim, o acesso ao estádio é livre. Gente entra e sai sem parar. Muitos, atrás de atendimento médico. Outros, levando ou trazendo comida e água. Dentro das quatro linhas do gramado, tendas feitas de lençóis e todos os tipos de panos servem de moradia aos desabrigados. Ao mesmo tempo em que os desabrigados fazem comida com o que têm, defecam, urinam ou tentam descansar, dezenas de médicos atendem os doentes. Boa parte dos agora pacientes morava nas casas e prédios de apartamentos ao redor do estádio, uma área central e muito populosa. Já os profissionais de saúde são voluntários (2) da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) e originários de várias partes do mundo.

Berros e palmas
Breno Fortes/CB/D.A Press
Nas três horas em que permaneceu no estádio, o Correio acompanhou 50 atendimentos — 10 deles, cirurgias. Durante todo o tempo, escutavam-se gemidos e berros de dor. A cada operação concluída com sucesso, porém, médicos e enfermeiros eram aplaudidos pela plateia ao redor das precárias tendas cobertas por lonas azuis da MSF. Familiares dos pacientes formavam a maior parte do “público”.

O caso que mais comoveu foi o de um bebê. Com queimaduras no rosto e em outras partes do corpo, chorava sem parar enquanto recebia os cuidados dos voluntários. A mãe, uma mulher de 32 anos, não parava de agradecer aos médicos, mesmo durante o atendimento à filha dela. “Obrigado, Senhor, por enviar esses homens bondosos, obrigado”, repetia, evidentemente comovida.

Na maca mais próxima da criança, uma mulher berrava, enquanto os doutores tentavam tirar pedaços de ferro do corpo dela. “Ela é minha vizinha e foi atingida por um pedaço de concreto da casa da outra vizinha”, contou Adele Chevalier, 42 anos, hoje desabrigada.

As equipes da Médicos Sem Fronteiras têm trabalhado com longas filas de pacientes, em 10 centros cirúrgicos. Diariamente, os voluntários fazem cerca de 130 operações. No Hospital Choscal, por exemplo, onde dois centros funcionam ininterruptamente há uma semana para dar conta dos casos mais graves, os pacientes estavam tão alarmados pelo tremor que, na quarta-feira, com um abalo de 5.9 de magnitude na escala Richter, mais uma vez tiveram de ser retirados do prédio e colocados em tendas montadas na parte de trás.

Já no Hospital Carrefour, na periferia da miserável Porto Príncipe, a equipe do MSF começou a oferecer apoio psicológico aos pacientes que tiveram os membros amputados. A fisioterapia em queimados começou em outro hospital e a diálise para vítimas da síndrome do esmagamento continua no Hospital Geral. Seis pacientes já foram tratados com diálise e a equipe usa um teste para identificar outros pacientes com ferimentos que precisem desse tipo de tratamento intensivo.

O MSF anunciou que aumentará a capacidade de atendimento até o início da próxima semana. Mais centros cirúrgicos estão sendo montados em Porto Príncipe e no oeste da ilha, nas cidades de Leogane e Grand-Goave. Um hospital inflável com dois centros cirúrgicos e 100 leitos está sendo erguido em um terreno na capital. A equipe de construção espera que ele esteja funcionando na manhã de hoje.

Faltam suprimentos
Apesar dos esforços, as enfermarias e salas de operação da organização de saúde no Haiti trabalham com uma carga muito pesada de casos e o pessoal médico está cada vez mais preocupado com os problemas de suprimentos que começam a ameaçar o bem estar dos pacientes. Remédios para tratamento cirúrgico e equipamentos como máquinas de diálise são urgentemente necessários, mas problemas de acesso para as cargas está causando atrasos na entrega.

O coordenador do trabalho do MSF no Hospital de Choscal, em Cite Soleil, a maior favela do Haiti, afirmou ontem que a posição lá e em outros locais é problemática. “É a parte mais difícil do nosso trabalho. Toda vez que saímos das salas de operação, vemos rostos nos implorando por cirurgias. E eles estão lá, na frente do hospital. É uma situação inaceitável”, lamentou. “O que nós estamos tentando fazer é expandir nossa capacidade de responder a esses pedidos. Mas nós precisamos que os suprimentos cheguem no aeroporto”, desabafou.

 

 

1 - Quando o país parou
Jogadores brasileiros foram enviados ao Haiti em agosto de 2004 com a missão de dar alegria, por um dia que fosse, a uma população tão sofrida. O país parou para ver Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, Julio Cesar, Juan, Gilberto Silva, Nilmar e outros desfilarem pela capital, Porto Príncipe, em tanques de guerra, acenando para uma multidão que corria atrás do comboio, não conseguindo esconder a emoção por poder ver de perto aqueles heróis dos campos de futebol, que enfrentaram a seleção hatiana.

2 - Gigante da assistência
Criada em 1971 por jovens médicos e jornalistas franceses, a Médicos sem Fronteiras — Médecins sans Frontières — (MSF) é uma organização internacional não governamental sem fins lucrativos que oferece assistência à saúde, em casos como conflitos armados, catástrofes naturais, epidemias, fome e exclusão social. É a maior organização não governamental de ajuda humanitária do mundo na área da saúde.

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