Sobreviventes do terremoto podem desenvolver grave depressão, dizem especialistas

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postado em 25/01/2010 08:41

A haitiana Geraldine Scown não suporta mais a pressão que a catástrofe impôs sobre ela e sobre milhões de pessoas. A assistente administrativa se prepara para abandonar Porto Príncipe, com o filho de 1 ano e 9 meses. Na sexta-feira, não conseguiu nenhum voo partindo da capital do Haiti e, por isso, decidiu esperar. Desde 12 de janeiro, dia do terremoto devastador, ela tem dormido muito mal. "Estou muito assustada. Sinto que estou tão cansada, mas não posso repousar, com medo de outro tremor", admitiu. Geraldine disse ao Correio que nunca se esquecerá do que enfrentou - o pânico durante o abalo, os dias de fome e de sede, a visão de milhares de mortos jogados nas ruas. "A cada cinco minutos eu me lembro de meu povo e não paro de me perguntar se isso não é um pesadelo", admitiu. "Tenho apenas 24 anos e carregarei esse trauma pelo resto da minha vida. Em cinco minutos, vi o inferno. Mortes, lágrimas, desabamentos, pessoas implorando por ajuda e eu não podia fazer nada." O "inferno" descrito por Geraldine deverá povoar a memória e o inconsciente de vários haitianos. Em entrevista ao Correio, a norte-americana Joan M. Cook - especialista do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Yale - explica que muitos sobreviventes experimentam reações de estresse "normais" logo após o desastre, inclusive choque, medo, tristeza, raiva, sentimentos de abandono e falta de esperança, confusão, dificuldade de concentração e insônia. "A maioria deles vai melhorar com o tempo, por causa da resistência inata ao ser humano", explica Joan. "No entanto, uma minoria importante não apresentará progresso." Normalmente, essa parcela desenvolve grave depressão e/ou transtorno de estresse pós-traumático (PTSD, pela sigla em inglês). Diretora do Programa de Trauma e Desastre do Centro Médico Dallas VA e professora de psiquiatria do Centro Médico da University of Texas Southwestern, Carol S. North estudou os efeitos do atentado à bomba em Oklahoma City sobre os socorristas e os sobreviventes. "Entre as vítimas do ataque terrorista, 34% desenvolveram PTSD e 23% tiveram depressão", observa. De acordo com ela, os sintomas da PTSD incluem memórias espontâneas e inoportunas do evento catastrófico e despenhadeiro. "O paciente se sente pulando de um despenhadeiro. Também apresenta excitabilidade, dificuldades para dormir e problemas de concentração", comenta Carol. A especialista explica que os sintomas costumam se apresentar logo nos primeiros dias após a exposição ao trauma, mas a desordem só pode ser diagnosticada um mês depois. Carol acredita ser normal que os haitianos levem consigo as memórias ruins do terremoto. O próprio tempo deverá reduzi-las de intensidade. "Ter memórias inoportunas não é, por si, um indicador de PTSD. É preciso que vários sintomas graves estejam combinados para o diagnóstico e é importante diferenciar sintomas individuais de doença psiquiátrica", aconselha. Por sua vez, Joan Cook estima que 50% da população do Haiti exposta diretamente ao tremor de 12 de janeiro poderá desenvolver, a curto prazo, uma aflição significativa. "Uma das variáveis mais fortes associadas à recuperação de um evento pós-traumático é o apoio social. Espero que eles recebam todo o apoio e a informação que precisarem", observa. As especialistas apostam que a falta de recursos e a pobreza vão interferir no modo como os haitianos responderão ao desastre. "A gravidade da exposição - ferimentos e ameaça de morte - é altamente ligada a problemas posteriores de saúde mental", diz Joan. Além disso, a separação de familiares, o pânico durante o terremoto e a perda da própria casa também inferem em resultados negativos, podendo ajudar no desencadeamento da PTSD. Tratamento A desordem psiquiátrica tem um lado cruel: quem vive em países subdesenvolvidos geralmente experimenta sintomas mais graves que indivíduos de nações ricas. A indicação terapêutica envolve medicamentos psicotrópicos e sessões psicoterápicas. "As pessoas que são profissionais da saúde mental podem ajudar seus entes queridos, fornecendo apoio emocional, auxiliando-os com necessidades físicas e conforto e sendo bons ouvintes, caso eles queiram falar sobre a experiência do desastre", recomenda Carol. Joan também cita o chamado Primeiro Socorro Psicológico (PFA, pela sigla em inglês), como uma técnica eficiente de tratamento. "O PFA envolve fazer com que os sobreviventes se sintam seguros e confortáveis, suprindo suas necessidades básicas, como água, comida, abrigo e roupas; aconselhá-los a exercerem algum tipo de rotina; e fornecer-lhes instruções sobre respostas normais ao estresse", enumera. Os passos finais incluem ajudá-los na localização e na obtenção de informações sobre seus entes queridos, além de estabelecer uma conexão com os serviços de assistência social. A reconstrução do Haiti provavelmente também envolverá reerguer mentes em ruínas.
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