Sabores

Capital federal tem ao menos 2 mil produtores de cervejas

Quando o assunto é malte, lúpulo e leveduras, o brasiliense em nada deixa a desejar à produção cervejeira nacional. Rótulos locais se destacam em concursos nacionais

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 12:55

Ed Alves/CB/D.A Press

 

Brasília chega aos 57 anos repleta de notas e sabores. Se está amadurecendo ou fermentando, depende de quem conta a história. Fato é que algo mudou, e os filhos da cidade estão mais exigentes no que diz respeito ao paladar. De olho no mundo, a cultura cervejeira cresce a cada ano na capital. Estima-se-se que pelo menos 2 mil brasilienses se aventurem no território do malte, da cevada, do lúpulo, das leveduras e das especiarias para oferecer, de graça, cerva feita na cozinha, para amigos e parentes.

 

Entre 2015 e 2016, o número de produtores caseiros subiu cerca de 300%. Desse total, vários investem em rótulos próprios. São os ciganos, que dependem de fábricas de outras marcas para cozinhar receitas exclusivas. Os dados são da Associação dos Cervejeiros Artesanais do Distrito Federal (Acerva Candanga). Pequenas indústrias do ramo se espalham pelas satélites e pelo Entorno e amantes da bebida sonham, nas asas do Plano Piloto, com microcervejarias semelhantes às de Portland, nos Estados Unidos.

 

Destaques em diversos concursos confirmam o otimismo no cenário de cervejas artesanais da capital. No Rio de Janeiro, no Concurso Nacional das Acervas de 2016, que avaliou produtos não comercializáveis, brasilienses conquistaram uma medalha de ouro, duas de prata e quatro de bronze.

 

Entre as que alcançam o consumidor, aparece a Valkyrjia, criada pelos irmãos brasilienses Luís Henrique e Jorge Rafael Alves de Souza. A cerveja ganhou o 1º lugar no 10° Bier Hub Festival, no Estádio Nacional Mané Garrincha, em 11 de março. A dupla montou uma pequena fábrica em Cidade Ocidental (GO). A cigana Cerrado Beer, dos amigos André Braga e Denilson Postai, levou a prata em um concurso nacional, em Belo Horizonte (MG). Eles produzem a bebida na fábrica da Jim Beer, que funciona em Vicente Pires.

 

Outro rótulo produzido no DF é o da Máfia Beer, de São Sebastião. Um dos donos, Marco Aurélio de Faria Pereira, 33, se prepara para aumentar a capacidade produtiva para atender marcas ciganas. Nascido em Brasília, começou no ramo de restaurantes, mas fechou o estabelecimento para viajar. Em 2010, em Florianópolis (SC), descobriu que poderia fabricar cerveja em casa com qualidade superior à oferecida pelo mercado. De volta, fez experimentos com amigos. Ao perceber a aceitação do público em um evento promovido pelo clube de cervejas Oh my Beer, ele resolveu entrar de cabeça no ramo. “Em 2013, compramos parte do equipamento. Foram seis anos de estudo e trabalho até chegar aqui”, recorda.

 

A meta de Marco Aurélio é dar sustentabilidade para a produção de cerveja artesanal na região, gerando empregos, apoiando marcas menores e incentivando a produção caseira. “A gente ainda não consegue atender a toda a demanda. A procura é alta. Acredito que, em breve, Brasília vai começar a distribuir para o Brasil. Temos tudo para nos tornarmos um roteiro cervejeiro”, acredita.

 

Nas ruas

 

O catarinense Eduardo Golin, o paulistano Heitor Heffner, ambos radicados em Brasília, e mais um sócio tocam juntos a cervejaria startup cigana Corina. Além de vender cerveja de vários produtores da região, eles mantém uma horta experimental de lúpulo para a preparação caseira e produzem a própria bebida na fábrica da marca Klaro, em Goiânia (GO).

 

A ideia da empresa surgiu há cerca de quatro anos, quando os amigos viajaram para o Festival Brasileiro de Cerveja de Blumenau (SC). “Um grupo da cervejaria Bode Brawn estava com uma kombi. Era um veículo de marketing. Adaptamos a ideia para rodar em eventos de Brasília. A Corina nasceu para ocupar espaços públicos e dar às pessoas acesso à cerveja artesanal de produção local. Lançamos uma receita, que batizamos de Conic em homenagem a isso”, explica Eduardo.

 

Para os sócios, levar a bebida fabricada artesanalmente para as ruas é uma forma de fortalecer a cultura cervejeira em Brasília. Eles destacam, no entanto, que, apesar de em crescimento, o setor ainda é jovem na capital. “Precisamos privilegiar mais os nossos cervejeiros. Muitas vezes, é mais fácil a pessoa ficar conhecida fora antes de ganhar espaço aqui. Mas Brasília tem muito a ensinar com nosso modelo colaborativo de negócio. Todos se ajudam muito”, destaca. Todo sábado, a Corina oferece cervejas da torneira em um galpão no Setor de Oficinas Norte, com direito a música e food truck.

 

Sabor e orgulho

 

Gustavo Ramos, 32, e os amigos nunca tiveram pretensão de vender a própria cerveja, mas têm em comum com os outros produtores a paixão pela bebida. A história dele começa em 2009. “Eu e um amigo moramos em Londres. Gostávamos do tipo de cerveja que era feito lá. Não encontrávamos nada dessa qualidade aqui. Uma vez compramos uma lata de Guinness no mercado. Custava R$ 25. Tínhamos um contato no Rio Grande do Sul, que nos deu umas dicas (para produzir). Ainda não existia a Acerva nem o alemão por aqui”, conta, fazendo referência à Candango Bräu, loja de insumos para fabricação caseira da brasiliense Heide Seidler e do alemão Andreas Nagl. “Comprávamos sacas de 100kg e tínhamos que fazer uma brassagem gigantesca”, recorda.

 

À época, o grupo se reunia das 7h às 21h. Em 2013, porém, tudo ficou mais fácil. “Hoje, vamos ao alemão (no CA do Lago Norte), pedimos uma quantidade de malte triturado, temos várias opções de lúpulos. Em vez de comprar 100kg, eu vou com a receita e peço medidas exatas e escolho os fermentos e os lúpulos. Chegamos até a participar de um campeonato e ganhar medalha de bronze com uma IPA chamada de Siriripa. Agora, fazemos rótulos comemorativos para presentear amigos em festas. É um motivo para reunir a galera e ainda fica um gosto de orgulho”, diz Gustavo.

 

Brassagem com toque feminino

 

Em um meio essencialmente masculino, pelo menos três mulheres se destacam na produção cervejeira local. A empresária Heide Seidler é uma das proprietárias da Candango Bräu, loja de insumos que impulsionou a cultura de fabricação brasiliense. A aprendiz de mestre-cervejeira Carolina Barboza descobre o ofício ao lado do tio. E a cervejeira Tatiana Rotolo ajudou a fundar e foi a primeira presidente da Acerva Candanga.

 

Carlos Vieira/CB/D.A Press

Todas elas mostram que a arte de produzir a própria bebida é para todos. Heide nasceu em Brasília e morou na Alemanha, onde conheceu o marido, Andreas Nagl. Quando vieram para o DF, em 2003, abriram um negócio pequeno de importação de máquinas. Três anos depois, Andreas estava desesperado com as cervejas oferecidas no país. O casal, então, decidiu fabricar a própria bebida e, em 2010, abriram a Candango Bräu, no Centro de Atividades (CA) do Lago Norte. “A gente percebe que é um mundo muito masculino, mas há uma mudança forte. Cada vez mais mulheres fazendo a própria cerveja”, afirma.

 

Carolina se inspira no tio, Flávio Barboza, atual presidente da Acerva Candanga, para diversificar os sabores cervejeiros. “Da primeira, eu não gostei. Era uma IPA. Ele (tio) começou a me mostrar outros estilos e disse que queria muito que eu tivesse com ele em tudo, porque é muito importante o meu papel nesse ambiente. Hoje, eu gosto muito mais, mas prefiro as mais leves, menos amargas. Auxilio meu tio e farei um curso (de fabricação de cerveja artesanal) em breve. Se tiver dois barris feitos por mulheres, é muito”, observa.

 

Em dois anos de gestão na Acerva, Tatiana avalia que a quantidade de homens no mercado cervejeiro local aumentou muito. “Nunca vi problema em ser mulher e estar à frente. Éramos um grupo pequeno e havia outras mulheres que participavam. Com o tempo, virou um ambiente muito masculino. O pior são as pessoas que não acreditam na capacidade que temos de produzir, entender e beber cerveja. Fazer cerveja é coisa de quem gosta de fazer cerveja. Não tem sexo nem gênero.”

 

História

 

Não se sabe quando exatamente tudo começou, mas a cultura cervejeira em Brasília se fortaleceu em 2013. À época, a Acerva Candanga estima que 1,3 mil brasilienses produziam a própria cerveja em casa, com panelas, cifões e receitas e insumos adquiridos na internet. Naquele ano, com a fundação da associação, os pioneiros começaram a se reunir e a trocar conhecimento. Organizados, traziam  palestrantes para elevar a qualidade da bebida e profissionalizar os amantes da bebida.

 

O presidente da entidade, Flávio Barbosa, destaca que a Acerva reúne cervejeiros que produzem para si e para os amigos, sem finalidade comercial. “No meu caso, eu gastava muito com cerveja. A minha mulher deu a ideia de fazermos em casa para economizar”, sorri.

 

A criação da associação foi um dos principais marcos na consolidação da cultura de cervejeiros brasilienses, ao lado da criação da loja de insumos Candango Bräu. “Hoje, temos ao menos sete pessoas que dão cursos e treinam oficialmente novos cervejeiros. São pessoas que sabem que a cerveja feita em casa é mais gostosa. É igual a comparar um hambúrguer que você preparou com um congelado. Quando você toma a cerveja feita em casa, você vê que é diferente da do mercado. Não passou pela pasteurização. É fresca”, afirma Flávio.

Auditor fiscal federal agropecuário do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e mestre-cervejeiro formado pelo instituto VLB de Berlim, Carlos Müller destaca que o crescimento das cervejarias registradas em Brasília e o aumento do número de pessoas dedicadas à arte da cerveja artesanal caseira seguem tendência nacional. “O número de cervejarias registradas no Brasil aumentou consideravelmente nos últimos quatro anos. Somente em 2016 tivemos 148 novas cervejarias registradas no país. Nos primeiros dois meses de 2017, esses registros somam 27 novos produtores.Boa parte dessas empresas estão baseadas em pessoas que transformaram seu hobby, a diversão de fim de semana, em negócio”, explica.

 

Assista ao vídeo com produtores locais de cerveja

 

 

Confira alguns locais para se degustar cerveja em Brasília:

 

I Love Beer

Endereço: 210 Norte, Bloco B, Loja 53

Telefone: (61) 3033-6909

 

London Street

Endereço: 214 Norte, Bloco D

Telefone: (61) 9 9119-2482

 

Santuário

Endereço: 214 Norte, Bloco C, Loja 27

Asa Norte, Brasília

Telefone: (61) 3039-5667

 

Máfia Beer

Endereço: SOF Conjunto 11, Lote 26, São Sebastião

Telefone: (61) 3553-7252

 

Beco das Garrafas Cervejaria

Endereço: CLS 116, Bloco C, Loja 03

Telefone: (61) 3548-2002

 

Empório Iracema

Endereço: CLN 116, Bloco B, Loja 32

Telefone: (61) 3032-1826

 

Trow, Parrilla & Beer

Endereço: CA 7 do Lago Norte, Conjunto Q, lote 50 — Atrás do Shopping Iguatemi

Telefone: (61) 3542 -3772

 

Mestre-Cervejeiro.com

Endereço: Sudoeste, Quadra 301, Bloco C

Telefone: (61) 3021-6667

 

Sidi Beer

Endereço: Rua 31 Sul, 9 — 2, Águas Claras

Telefone: (61) 99868-0044

 

Camberra

Endereço: Sudoeste, Quadra 101, Bloco B, Loja 54

Telefone: (61) 3021-6500

 

Open Shop 21

Endereço: SHIS, QI 21, Conjunto 10, Lago Sul

Telefone: (61) 4102-1345