Empreendedorismo

Brasília é a 16ª cidade mais empreendedora do país

A juventude segue tendência mundial e aposta na inovação tecnológica para alcançar o sucesso e a liberdade financeira. Experiências com startups e coworking ajudam Brasília a buscar destaque no cenário nacional

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 01:40

"Deste Planalto Central, desta solidão que, em breve, se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável em seu grande destino”, bradou Juscelino Kubitschek em 1956. Quatro anos depois, o fadário de Brasília estava selado: como sede do poder político, esta seria a cidade dos concursos públicos distritais e federais. Contudo, ao passar dos anos, as gerações nascidas no Planalto Central vislumbraram oportunidades e apostaram em planos alternativos. Ávida por uma rotina com liberdade financeira, geográfica e temporal, a juventude brasiliense decidiu empreender.

 

Por meio de startups, home office e coworking, a opção ganha espaço. A capital federal ocupa a 16ª colocação entre 32 cidades empreendedoras do Brasil, objetos de estudo da Endeavor Brasil, publicado em novembro de 2016. A colocação deve-se aos avanços do próprio mercado e, principalmente, da tecnologia — hoje, sequer é necessário que os sócios das empresas estejam no mesmo lugar do mapa para desenvolver um projeto.

 

Passo a passo, com divisões de espaços, investimentos mútuos, incentivos ao ecossistema e trocas de experiências, o empreendedorismo brasiliense cresce sistematicamente. Aos poucos, a cidade dos concursos públicos torna-se a capital da pluralidade, a qual capacitará as gerações candangas a serem, cada vez mais, como o utopista e conquistador Juscelino Kubitschek.

 

Comodidade para estacionar o carro

 

O apoio de universidades de ensino e entidades do ramo, por meio de consultorias e investimentos financeiros, inclusive, é essencial aos empreendedores no momento inicial dos negócios. Graças a um empurrãozinho da incubadora de empresas do Centro Universitário Iesb, os sócios Ricardo Bernardes, Euler Santos e Ismael Mendonça conseguiram tirar a ideia do papel e transformá-la em um negócio com potencial lucrativo. “Nessa primeira fase, só precisamos utilizar o intelectual. Isso já é um incentivo”, frisa Bernardes.

 

Gabriela Studart/Esp. CB/D.A Press

 

Ele e os parceiros criaram o StreetPark.me, uma espécie de Uber dos flanelinhas. Com a plataforma digital, ao chegar à área central de Brasília, em ambientes abarrotados de veículos, como o Setor Comercial Sul, o motorista terá acesso ao perfil (nome, foto e localização) de, até o momento, 196 guardadores de carros ficha limpa e poderá escolher com quem deixar o automóvel. Somente flanelinhas cadastrados na Secretaria de Trabalho — sem ficha criminal — são aptos a integrar o software.

 

Outra facilidade pode poupar dor de cabeça aos condutores: o aplicativo mostra a localização exata do carro via satélite e emite informes ao motorista, caso as janelas ou as portas do carro tenham ficado abertas. O pagamento ao guardador é realizado de maneira digital. “Com o cartão credenciado, o cliente repassa à conta bancária virtual do flanelinha o valor acordado”, explica Bernardes.

 

A ideia de desenvolver o sistema operacional surgiu em fevereiro de 2016, após uma conversa entre Ricardo, empreendedor há 17 anos, e um guardador que prestava serviços à locadora de carros dele. À época, o flanelinha argumentou que, por diversas vezes, havia perdido a oportunidade de lavar carros ou receber gorjetas por não portar máquinas de cartão. “O brasiliense não anda mais com dinheiro na mão. O aplicativo facilita a transação entre motorista e guardador; garante a segurança do veículo, potencializa a economia local e combate o trabalho de profissionais irregulares”, esclarece o empresário.

 

Para fazer parte da plataforma digital, disponível para os modelos Android desde novembro de 2016, o guardador paga o valor de R$ 49,90. Em contrapartida, recebe um colete fornecido pela empresa. A startup dos três sócios lucra 16% sob os subsídios angariados pelos guardadores. A profissão é regulamentada por Lei Federal desde 1977.

 

Ajuda tecnológica na cozinha

 

Em outra vertente, para Diego Rhoger, 33 anos, os principais incentivos ao empreendedorismo são a possibilidade de trabalhar em casa, com modelo home office, e o fato de não ser necessário investir muito dinheiro a fim de montar um estabelecimento próprio. Insatisfeito com o cotidiano no escritório de advocacia do pai e avesso ao sistema de concurso público, após 10 anos de trabalho, ele deixou a carreira de direito e se voltou à gastronomia. Contudo, com o passar do tempo, a criação de receitas e o preparo de pratos não se mostraram suficientes aos anseios de Diego. Então, há pouco mais de dois anos, Diego decidiu ingressar no ramo de lifestyle business, com o site Academia Gastronômica.

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

 

Ainda assim, atualmente, o carro-chefe dele é o aplicativo Gastrobox, que pretende solucionar, a partir de meados de maio, um constante impasse da vida de amantes da cozinha: afinal, quem nunca se empolgou com uma receita e, de repente, não pôde terminá-la por falta de ingredientes?

 

Sob essa ótica, o modelo digital oferece um leque de receitas e, em vez de enviá-las prontas à casa do consumidor, expede ao cliente os ingredientes em porções, cortados, higienizados e embalados. O aplicativo é embasado por uma pesquisa da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios a pedido do empresário. Segundo o estudo, 25% dos adultos que cozinham todos os dias o fazem por lazer. “É um software para quem ama cozinhar, mas deseja economizar tempo durante o processo mais moroso. Com essa facilidade, os pratos ficam prontos em, no máximo, 20 minutos”, explica Roger.

 

Apesar de o aplicativo não estar disponível, é possível aderir ao pacote mensal na plataforma on-line gastrobox.com.br. O produto, no valor de R$ 80, dá direito a um prato, suficiente para saciar duas pessoas. Hoje, quem acessar o site poderá encomendar os ingredientes de quatro quitutes: lombo suíno com persillade e purê de couve flor; frango ao curry indiano com dhaal; filé ao molho de pimenta verde; e frango asiático com vegetais no vapor.

 

Suporte de R$ 100 mil

 

Apesar das benesses do segmento, a depender do projeto, inovar pode custar — e muito — ao bolso do empresário em momentos iniciais. Diante da barreira, as startups aceleradoras ganharam espaço. Os serviços são destinados aos desbravadores que idealizam boas ideias, mas não detêm o valor necessário ao lançamento do produto ou, até mesmo, à manutenção da proposta no mercado. Em troca da concessão de investimentos, as aceleradoras requerem a participação minoritária nos respectivos negócios.

 

Em Brasília, os sócios André Froes, André Faria e André Casimiro tocam uma empreitada nesse modelo. O trio comanda a Cotidiano, empresa que realiza aportes de até R$ 100 mil durante o primeiro ano das empresas. Em pouco mais de 12 meses, eles apostaram no futuro de 15 empreendimentos. “Não damos um empurrãozinho, colocamos as startups em um foguete”, brinca Froes. Os investimentos são viáveis graças a parcerias com universidades e entidades, como o Sebrae.

 

O retorno financeiro demora de cinco a 10 anos para saltar aos olhos, ponderam os empreendedores. Ainda assim, destaca-se que o molde potencializa as chances de acerto e dilui os riscos de erro devido à ramificação das aplicações da Cotidiano. As ideias agraciadas são selecionadas em dois ciclos por ano. Para participar, os interessados descrevem os projetos, enviam vídeos com curtas explicações e comparecem à entrevista presencial.

 

A iniciativa, pontua Froes, garante a sustentabilidade do ecossistema de empreendimentos candangos. “Quanto mais pessoas integram o mercado, maior fica a concorrência e melhor se mostra o serviço. Há movimentação na economia local, e o empreendedorismo é impulsionado. Todos saem ganhando”, acrescenta.

 

No último dia 17, a Cotidiano divulgou o nome das startups que receberão subsídios por meio do primeiro ciclo deste ano. Entre as vencedoras, estavam a Colmeia, plataforma de reforço escolar que conecta professores e alunos, e a Líbon, que realiza doações a organizações não governamentais cada vez que o usuário desbloqueia o telefone, desde que o cliente se disponha a assistir alguns anúncios ao longo do dia.

 

Ambiente compartilhado

 

A despeito do boom de startups, a abertura de empresas convencionais segue em alta. Um dos métodos adotados para não desembolsar grandes quantias com a abertura de escritórios ou estoques, por exemplo, é apostar no coworking, forma de gestão com o compartilhamento do ambiente profissional. A opção garante aos desbravadores do mercado a oportunidade de diminuir custos, maximizar lucros, estreitar laços com clientes e formar novas parcerias.

 

Sob este prisma, o The Brain, espaço de coworking dedicado ao mercado industrial, abriu as portas há dois meses. O espaço garante um paralelo entre descontração e sobriedade. Ao adentrar ao local, o cliente se depara, à direita, com um “pequeno pub” e, à esquerda, com mesas de jogos. O ambiente é utilizado em eventos de apresentação dos produtos. Entre eles, a cervejaria brasiliense Corina e o Picolé VaiBem. Mas, se a reunião necessitar de um tom formal, não há problema: os escritórios, com isolamento acústico, situados no térreo e no primeiro andar, estão disponíveis. Atrás do prédio principal, há, ainda, uma câmara fria e um estoque. Até o momento, o The Brain é integrado por 13 coworkers. A maioria, brasiliense.

 

“A economia colaborativa facilita a estruturação de novas empresas. Por exemplo: o investimento nesse espaço chegou a R$ 1,7 milhão. Em contrapartida, os meus parceiros, que têm escritório fixo aqui, desembolsam de R$ 1,2 mil a R$ 8 mil mensalmente”, pontua Otavio Theodoro, que comanda a empresa com cinco sócios: Cristiano Araújo, Thiago Riveiro, Jerzley Guedes, Rodolpho Martins e Helbio Nogueira.

 

Além da economia, da diluição de risco e da expansão da rede de contatos, a centralização dos segmentos indispensáveis ao funcionamento do negócio é um ponto forte do modelo de coworking. “Tínhamos um estoque na quadra 108 da Asa Norte que já estava ficando pequeno. Então, quando precisávamos checar os produtos, tínhamos de nos deslocar de um lado para o outro. Ter todos os setores em apenas um local otimiza o nosso trabalho”, acrescenta Samuel Kicis, sócio da Distribuidora Pulso, que tem sede no The Brain.

 

Transparência na revisão do carro

 

Os candangos Cícero Santos, Lemon Leite e Rodrigo Cursino adotaram o mundo como escritório. Com a conexão Brasília—São Paulo—Portugal, os empreendedores desenvolveram o aplicativo Revisado, que será lançado em 26 de abril. A plataforma digital promete desburocratizar a relação entre cliente e concessionárias de automóveis ou oficinas. Com o celular em mãos, o usuário solicitará o atendimento de um mecânico, que, caso necessário, seguirá ao ponto de encontro. Lá, após a avaliação do veículo, o profissional indicará as peças de reparo ou sugerirá o procedimento de conserto. A partir das sugestões, o freguês deverá descrevê-las no aplicativo e, instantaneamente, receberá as melhores ofertas do mercado.

 

Oitocentas lojas de autopeças e concessionárias se inscreveram e aguardam o lançamento do sistema operacional. Os mecânicos interessados em remeter o contato ao software deverão passar pelo crivo dos desenvolvedores. “Será necessária a comprovação da qualificação técnica e a disposição de referências de cinco empregadores. Se for autônomo, terá de repassar os números de vários clientes”, adianta Cícero. “O ponto principal, entretanto, é a questão da garantia de um serviço limpo. Há inúmeros relatos de clientes que foram ludibriados a comprar peças, por exemplo. Esse cenário vai mudar”, acrescenta. A proposta venceu o programa Impulso, promovido pela parceria firmada entre Sebrae, Centro Universitário de Brasília (UniCeub) e Brasal.

 

 

Dicionário do empreendedor

 

Startup — Modelo repetível e escalável. Ou seja, o negócio pode ser expandido sem que o modelo tenha de mudar. Normalmente, apresenta boa base tecnológica e conceitos inovadores.

Exemplo: Uber

 

Empresa convencional — Renova-se constantemente para vencer a concorrência do mercado. Dividem-se em quatro vertentes: micro, pequena, média e grande empresa.

Exemplo: distribuidoras de bebidas

 

Lifestyle business — Modelo de trabalho utilizado unicamente para o sustento do envolvido, sem objetivos lucrativos ou mercadológicos.

Exemplo: canais do YouTube

 

Coworking — Forma de gestão com o compartilhamento do ambiente profissional

 

Home office — Ambiente profissional sediado em casa.