Só em Brasília mesmo

A terra do 'véi', 'oxe', 'treta' e outras mil gírias

Véi, tesourinha, cabulo, camelo e baú são algumas das expressões típicas da juventude brasiliense. O modo de falar de quem mora na capital é suprarregional, urbano e com grande influência da língua expressa, diz pesquisadora

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 01:42

Minervino Junior/CB/D.A Press


Baú, busão, tesourinha, véi, pardal, boto fé, cabuloso. A lista de expressões e gírias brasilienses é extensa e conta com uma inusitada dinamicidade. Se figuras como satélite, zebrinha ou pé de pano vão caindo deuso devagarinho, outras tantas entram rapidinho na cena da cidade. Chegam por meio de músicas, saltam dos aplicativos de celular e de grupos feministas e LGBTs ou surgem na internet e ganham o dia a dia da juventude do Distrito Federal. A lista, que se transforma e cresce a cada dia, é o reflexo de uma capital miscigenada, com gente vinda do Brasil inteiro. Não respeita fronteiras e se expande como as gerações de filhos nascidos na cidade. 

 

Gamense, Thiago Rodrigues Sousa, 20 anos, lembra do tradicional "véi" e do exagerado "cabuloso", como palavras marcantes de Brasília. “Brasília é um Brasil dentro do Brasil. Vejo inúmeras gírias brotando e se fixando aqui. 'Mano', 'mina', 'dar a Elza' (que significa roubar ou sumir). São expressões nascidas em tribos diferentes, Algumas são comuns a grupos feministas ou LGBTs, por exemplo”, comenta. Amiga de Thiago, a brasiliense Luana Raíssa Rodrigues, 22, concorda. “Uso muito 'tipo' e 'massa'. A região não é tão grande, então acho que as expressões não ficam restritas a periferias. Mas são diferentes das de Goiânia, por exemplo.

Lá eles usam ‘fritar’ para se divertir”, compara.

 

Os amigos Logan Dias, 19, também gamense, e Micael Amorim, 21, goiano de Cristalina mas morador do DF há 15 anos, destacam que, além das amizades, gírias e expressões também podem ser passadas pela família. “Na minha (família), usamos muito a expressão ‘custoso’. O pessoal do Gama usa muito o ‘tá de boa’, embora seja bem difundido no DF. Nasci aqui. Adoro Brasília e adoro o idioma e a intensidade da cidade”, declara Logan. “A gíria é uma forma de comunicação cultural. É interessante que, hoje, com a internet cada vez mais acessível, a quantidade de palavras e novas expressões crescem muito. Isso se soma à miscigenação da capital”, comenta Micale.

 

 

 

Adolescentes

 

Aos 15, Nathália Oliveira, moradora de São Sebastião, se considera uma especialista no assunto. “Gírias são palavras que você pode usar em determinados grupos. Elas facilitam a comunicação. Tem ‘parceiro’, ‘tá ligado’, ‘boto fé’ e ‘bicho’, por exemplo. Algumas têm significados que dependem do contexto e de como você está falando. Outras são bem claras, como ‘contatinho’”, lembra. Amigo de Nathália e moradora do Paranoá, Paulo Vitor Soares, 17, afirma que as gírias são de domínio dos adolescentes. “É natural. Nos dividimos em tribos e cada grupo tem seu jeito de falar”, ensina. Também integrante do grupo, Aylana Waleska da Silva, 15, mora em Riacho Fundo I, diz que a gírias estão ligadas à identidade de Brasília. “Nascemos aqui e temos nossos termos. Claro que algumas dessas palavras vieram de fora. Mas não fomos lá buscá-la.”

 

Minervino Junior/CB/D.A Press

 

Já Eduarda Rodrigues, 17, moradora da Asa Sul, e os amigos Rodrigo Queiroz dos Reis, de São Sebastião, e Wesley Pedrosa dos Santos, de Valparaíso (GO) acreditam ser impossível separar as gírias de Brasília da de outros estados. Isso por conta da mistura de pioneiros que fundaram a capital e, posteriormente, graças à internet. “‘Mano’ se tornou tradicional, uma coisa daqui. Mas sabemos que veio de outro local”, frisa a garota. “Um tio meu veio de fora e não entendia o que era ‘pardal’ Tive que alertá-lo”, narra Rodrigo. “Tem palavras comuns, mas que também usamos diferente. Em Brasília, chamamos sinal ou farol de semáforo, por exemplo”, completa Wesley.

 

Identidade própria

 

Rapper, ativista social e líder da banda Viela 17, Marcos Vinícios de Jesus Morais, o Japão, coloca a gíria como um código de comunicação. “As gírias são faladas no DF em todo o Brasil. São um código, e não significa que a pessoa que usa não teve educação. É apenas uma forma fácil e objetiva de se expressar. Existem gírias universais e gírias locais”, defende. “Na cena do hip-hop local, todo mundo fala ‘tamo junto’. Trouxemos da cena paulista o ‘mano’, mas a nossa é o ‘véi’. Isso nos fortalece regionalmente. Quando falamos com amigos de outro estado, muitas vezes eles não nos entendem. Se eu disser que vou dar uma volta de camelo, ninguém vai entender”, completa o rapper.

 

Nascido e criado em Ceilândia, Japão destaca, no entanto, que apesar de ter expressões marcantes, é difícil separar as gírias brasilienses das de outros estados. Principalmente do eixo Rio-São Paulo. “Somos uma cidade jovem, muita gente veio do Rio na inauguração, transferido da antiga capital. Então, temos termos que, com certeza, vieram de lá. ‘Pode crer’, ou ‘podiscrê’ vem da galera do soul music. Por outro lado, aqui, ‘véi’ é a rainha de todas as nossas gírias. Minha mulher é de São Paulo e tenho dois filhos e uma neta. Então vivemos uma mescla de gírias.”

 

PALAVRA DE ESPECIALISTA

 

Stella Maris Bortoni é professora e pesquisadora da Faculdade de Educação da UnB

A gíria costuma ser restrita ao espaço social e é efêmera no tempo. Normalmente, são palavras restritas a determinados grupos, e, por isso, tendem a se perder. Mas, se ela se consolida ganha status de neologismo. Os lexicógrafos, passam a registrá-la. Algumas (gírias), podem ser usadas de forma mais ampla, regionalmente. ‘Tesourinha’ é um exemplo. Para a pessoa entender, precisa morar no DF, ou passar um tempo aqui. É restrita em termos sociais e geográficos. Nem todos os termos usados na região vão sobreviver.

 

Parte das expressões e gírias que usamos nasceram na capital, e outras foram trazidas com grupos regionais. A palavra ‘camelo' não é exclusiva de Brasília. Pode ser que estivesse sendo muito usada na época que Renato Russo escreveu Eduardo e Mônica, e acabou sendo impulsionada localmente. O ‘véi’, é uma palavra complicada para fazermos uma observação definitiva, mas também pode ter vindo com jovens de outras regiões.

 

O sotaque de Brasília, por sua vez, não conserva traços típicos de outras regiões. É uma tendência nossa. Estamos inseridos em Goiás, e não conservamos e não adotamos traços goianos. Também fazemos fronteira com Minas, mas não reconhecemos o sotaque na nossa região. Nosso modo de falar é suprarregional, urbano e com grande influência da língua expressa. É claro que a capital está com 57 anos e nossos modos de falar vem se consolidando. Mas, a gíria é vocabulário, e não pronúncia.

 

GLOSSÁRIO

 

Baú Também conhecido como busão, é o ônibus do sistema público.

 

Bicho – Cara, véi, velho, mano, amigo. Mas, se for ‘o bicho’, que dizer que é fera, legal.

 

Boto fé – Tanto pode significar “acredito” quanto “apoio você”. Você pode apoiar ou concordar inteiramente com alguém, botando muita fé, por exemplo.

 

Boiar – não entender, não acompanhar, chegar no fim da piada e não compreender o motivo da risada.

 

Brother – Também pode ser simplificado para “brô”. Significa bicho, cara, velho, véi, amigo...

 

Cabuloso – Surpreendente, incrível, grandioso, assustador.

 

Camelo – Gíria de raiz carioca. Significa bicicleta, bike, magrela.

 

Canal – Meio para conseguir algo. Pode ser “o canal” para entrar naquela festa, por exemplo.

 

Caraca – Interjeição de surpresa. O mesmo que “nossa!”. Costuma preceder a palavra “véi”. Como em “caraca, véi!”.

 

Contatinho – Seu ou sua peguete. Ver peguete.

 

De boa – Evoluiu para “de boas”. Tranquilo. Também pode ser substituído pela versão mais recente, a “suave”.

 

Esquema – Pode ser a programação, mas também a trama. Uma cadeia de acontecimentos e significados que inclui alguém por quem se nutre afeto. Exemplo: “você pode ser um pedacinho do meu esquema”, explica a cantora Anitta.

 

É nóis – Somos nós, estamos juntos, estamos unidos, estamos em um mesmo esquema. Versão antiga: “tô contigo e não abro”.

 

Fera – Legal, massa, irado, cabuloso. Mas também pode ser usado no mesmo contexto que bicho, véi, brother, brô.

 

Irado – Maneiro, massa, legal, fera, muito bom, que supre as expectativas. Também pode ser usado como elogio a alguém, quando a pessoa é descolada, interessante.

 

Maneiro – “Massa”, ou “muito massa”. Legal pacas. Irado.

 

Moscando – A pessoa que mosca está “vacilando”, bobeando. Também pode ser substituído por “panguão”.

 

Moleque – O mesmo que bicho, véi ou brother.

 

Oxi ou oxe – Tem origem em estados do nordeste brasileiro. É uma interjeição de susto, dúvida ou indignação, dependendo do contexto e da entonação usada.

 

Pala – Tanto pode significar uma reação emocional adversa e inesperada, quanto rir de um fato cômico até perder o controle.

 

Palha ou páia – Pessoa ou objeto fuleiro, que não cumpre as expectativas, que decepciona ou contraria. Demonstrar um preconceito contra alguém é algo muito páia.

 

Papo reto – Quem manda um papo reto está sendo sincero, direto e verdadeiro, embora a expressão seja mais agressiva que a explicação possa sugerir. Provavelmente veio com os cariocas transferidos do Rio de Janeiro.

 

Parceiro ou parceira – Amigo ou amiga. Uma versão mais moderna do “bicho”.

 

Pardal - Não é o pássaro, mas sim o equipamento de fiscalização eletrônica que fica empoleirado nos postes para flagrar motoristas acima  do limite de velocidade.

 

Pé de pano – Tem vários significados, mas praticamente não se usa mais. Pode ser a pessoa que chega sem ser percebida. Também se refere àquele ou aquela que assume o papel de “outro” em um triângulo amoroso, e tem que fugir da casa do amante ou da amante sem ser notado.

 

Peguete – A pessoa com quem você ou outrem está mantendo um relacionamento, mas sem compromisso.

 

Pode crer – Nada de “pode acreditar”. Está mais para “concordo com você”, “falou tudo”, “temos a mesma opinião”, ou “você me convenceu”.

 

Reza – Nem sempre sagrado, mas, para muitos, religioso. A reza é o programa do dia ou do fim de semana. O que vai acontecer. Pode ser uma festa, um churrasco, uma ida ao parque ou uma balada.

 

Rolê – É o programa. Na casa de alguém, no bar, no parque da cidade. “O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Mônica queria ver o filme do Godard”, segundo Renato Russo.

 

Sacou – Entendeu? Morou? Acompanhou? Sacou? Acho que estou me repetindo...

 

Salve – Mandar um olá para todos os amigos. Pode ser por celular, no viva voz, pode ser em vídeo ou pode ser só uma passadinha rápida mesmo.

 

Satélite – Termo cada vez menos usado. Regiões administrativas do Distrito Federal. Cidades sem o status de município e que orbitavam economicamente o Plano Piloto. Locais como Taguatinga ou Ceilândia que, na verdade, não dependem mais da capital.

 

Suave – Tranquilo. Feito sem pressa. Também pode ser substituído por “sussa”.

 

Tá ligado – Está atento? Está sabendo? Está acompanhando? Também pode ser substituída por “tô ligado”, ou, “sim, estou atento”, “estou sabendo”.

 

Tamo junto – Outra maneira de dizer “é nóis”.

 

Tesourinha – Só se for pra cortar dos eixinhos W e L para o Eixão. Já estavam na cabeça de Lucio Costa quando ele desenhou o Plano Piloto. Causam confusão na cabeça de quem acabou de chegar, pois, para ir, é preciso voltar.

 

Tipo – Tipo assim, é tipo uma explicação. Mas também pode ser usado para descrever algo ou alguém, um tipo assim. É, ainda, uma interjeição explicativa usada para iniciar um exemplo. Tipo quando explicamos um verbete. Sacou?

 

Velho ou véi – Expressão tipicamente brasiliense, tal qual tesourinha, baú ou busão. Tem diversos significados e usos. Depende da entonação e da quantidade de “eeeees”. Pode ser um susto, uma surpresa, uma exclamação, uma pergunta, até um chamado. Quiçá, um pedido de socorro.

 

Zebrinha – Não, não é o animal, mas foi extinto. Os ônibus que circulavam nas asas Sul e Norte tinham esse nome pois eram listrados de vermelho e branco, mas não existem mais.