Histórias, vivências e sonhos concretizados em uma cidade

Famílias que chegaram à capital federal ainda em construção criaram raízes no Planalto Central e continuam a história da cidade com as novas gerações

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 01:36

Hugo Gonçalves/Esp. CB/D.A Press
 

De todas as produções de Brasília, a mais icônica é a sua gente. Quando ainda era papel, os candangos possibilitaram que a cidade ganhasse formas. Quando era só barro e obras inacabadas, os pioneiros desbravaram o Cerrado. Quando cresceu, os brasilienses criaram uma identidade. Foi essa gente que deu vida a toda a diversidade de Brasília com histórias e vivências. Vinda de um sonho, a capital se concretizou e permitiu que diferentes gerações sonhassem e concretizassem anseios.

 

“A cidade era nossa”, lembra a cantora Muriel Tabb, 61 anos. Em março de 1960, aos 4 anos, ela aterrissou em um aeroporto – cuja estrutura era de madeira – com os irmãos e os pais.

O patriarca, Herald Tabb, era militar e foi transferido para a recém-inaugurada capital do país. A família se instalou na 208 Sul e, dali, Muriel viu Brasília crescer. “Acompanhamos a construção física da cidade. Ainda ouço o barulho das máquinas 24 horas por dia”, recorda. A terra vermelha é, para ela, o símbolo da capital.

 

Em meio à solidificação dos prédios e das estruturas urbanas, a família estabeleceu diferentes e duradouras relações com a cidade. A ponto de criar raízes aqui. O irmão de Muriel, Hélio Tabosa, despontou no esporte com a capoeira e formou grupos. Amantes da música, a cantora fez carreira na capital e foi, pelo caminho das notas musicais, que ela deixou e ainda deixa sua marca em vários espaços de Brasília. Também foi entre uma apresentação e outra que Muriel criou três brasilienses: Tico de Moraes, 36, Flavia de Moraes Dutra, 30, e Maria Vitória de Moraes Dutra, 27.

Lembranças

O barro da infância e da adolescência dos três não veio de uma cidade em construção, como da mãe, mas das brincadeiras no Parque da Cidade, por exemplo. Para eles, algo tipicamente brasiliense. “Lembro muito do foguetinho, do pedalinho e de sairmos para dar comida para as pombas na praça dos Três Poderes”, descreve Flavia.

 

A irmã acrescenta: “Algo muito marcante, para mim, foram os dias que íamos para a Escola Parque. Uma escola no meio da quadra, com amigos de diferentes realidades. Sempre achei isso muito interessante”, conta Maria Vitória.

 

Para Tico, as tardes embaixo do bloco tocando violão com os amigos tiveram impacto no que construiu anos depois. Em 2003, ele se profissionalizou como músico, apesar de ter concluído o curso de Relações Internacionais. Seguindo os passos de Muriel, começou a tocar por Brasília e, hoje, já leva o jazz brasiliense para fora do quadradinho.

 

“Tenho muito a agradecer à cidade. Brasília me abraçou. Quero continuar produzindo coisas aqui e levando para outros lugares”, conta. Afinal, a qualidade de vida do Planalto Central não tem igual, de acordo com o músico. Principalmente, para criar o mais novo brasiliense da família, Lucca, de 4 anos. “A capital favorece estabelecer uma família e ele adora a cidade. Todos os dias, nos pede para levá-lo ao Jardim Botânico”, comenta Tico.

 

Ao pensar na relação com a capital, Flavia lembra que passou por um momento de hostilidade, sobretudo, na infância. “Redescobri Brasília culturalmente a pouco tempo. Os jovens estão ocupando os espaços e ressignificando a cidade”, declara. Para ela, que já teve a oportunidade de viajar para diferentes lugares do mundo, mas escolheu a Octogonal para empreender, a capital é o lugar onde sua família se formou, onde está seu coração.

 

“Brasília é uma cidade muito nova. A veja como uma adolescente que não sabe ainda o que vai ser. Passou a infância e está meio perdida”, comenta aos risos. Maria Vitória compartilha a mesma visão. “Ela é cheia de possibilidades, a gente é reducionista. Tenho esperança de fôlego. Sou muito bairrista, do movimento que tenta fazer as coisas acontecerem aqui”, conta a jovem que trabalha com fotografia, teatro e música.

A saga dos Bezerra

 

 

A terra das oportunidades é sinônimo antigo para Brasília. Foi imbuído do desejo de crescer profissionalmente e, claro, aventurar-se, que José Bezerra de Oliveira, 73 anos, saiu do interior de Pernambuco, aos 16, para fazer uma nova vida. “Isso aqui era deserto na seca e lama na chuva”, descreve.

 

Ao todo, foram 34 anos de trabalho dedicados à capital do país. Ele trabalhou na construção da barragem do Paranoá, na Novacap e depois na Companhia Energética de Brasília (CEB).

Alguns anos depois, sentado em um bar no Paranoá, José avistou a jovem que viria a se tornar sua esposa. “Vou casar com aquela loirinha”, disse para um amigo. Em 1966, José se casou com Mariza Bezerra Pereira, hoje com 69 anos, na Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Lago Sul.

 

“Na época, era uma capela”, relembra Mariza. Com olhos emocionados e os corações cheios de lembranças, os dois reconhecem o valor que a capital federal teve em suas vidas. “Brasília foi muito boa para nós. Aqui, tive oportunidades melhores, estudei, formei três filhos. Lá (Pernambuco) não teria essa chance”, afirma José. “Tenho muitas saudades dos anos no Paranoá e no Núcleo Bandeirante, nos tempos nos barracos. Ganhava o pão de todo dia cantando no parquinho. Meus pais amavam isso aqui”, complementa Mariza.

 

Em Brasília, eles formaram uma grande família brasiliense. Aos domingos, por exemplo, a casa, em Taguatinga, está cheia e o silêncio não passa nem perto. São três filhos, cinco netos e um bisneto. “Fico admirado com o crescimento, a evolução, a beleza da cidade”, afirma José.