Empreendedorismo

Jovens levam moda brasiliense para fora do DF

Das camisetas com símbolos brasilienses aos acessórios modernos e inusitados, jovens da cidade levam para fora do quadrado um jeito próprio de vestir, e Brasília marca presença no mundo da moda

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 01:35

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

 

Há 57 anos, desfilavam pelas avenidas da recém-inaugurada capital, candangos vestidos de algodão e brim, sacos nas costas, canivete e copo no cinto. O linho era para os ricos. Hoje, o desfile nas ruas de Brasília é diversificado, tem variados tecidos e muitas cores, além dos clássicos preto, branco e cinza. É cheio de acessórios e atende todos os gostos e estilos. Na etiqueta, uma produção feita por brasilienses empreendedores e criativos. Pessoas que extraíram ora um símbolo, ora um traço da capital, e os transformaram em fonte de inspiração.

 

Localizada no Conic, a Verdurão Camisetas decidiu, há mais de 10 anos, vestir e vender o estilo de vida brasiliense. O projeto surgiu com um caráter crítico e subversivo, mas, aos poucos, foi caminhando para a vertente Brasília estampada. São as gírias, as imagens, os monumentos, as poesias que nasceram na capital e caracterizam a cidade. “A coleção Eu falo brasiliês é uma das campeãs de venda”, conta o gerente Felipe Souza, 29 anos. O público é majoritariamente formado por pessoas de Brasília ou que moram na cidade e reconhecem seus símbolos. Os estrangeiros que passam pelo local precisam de uma assessoria particular para entender o universo brasiliense à venda.

 

A Verdurão Camisetas retrata a Brasília das largas avenidas, dos domingos no Eixão e do Cine Brasília. “O Pil, um dos donos, desenha grande parte das estampas. Em outros casos, convidamos designers, mas, muitas ideias vêm dos consumidores”, fala o gerente. A linha infantil de camisetas e bodies também foi outra demanda dos clientes da loja. Criada por dois brasilienses, basicamente toda a produção é feita na cidade. “A malha pedimos no Sul do país, mas as costureiras são do polo de modas do Guará e quem faz a serigrafia é daqui também.” Depois do sucesso da marca, Fernanda Maia e Luiz Henrique Soares, o Pil, abriram outros negócios, também ligados à moda: a Sete Palmos e a Negro Blue

 

 

Da primeira venda no porta-mala do carro, ficaram as lembranças e a nota fiscal da compra das malhas, emoldurada na parede de casa. Os sócios Thatiana Dunice Inneco, 39, e o marido, Raffael Innecco, 36, também avistaram no horizonte do Planalto Central uma possibilidade de empreender. Há seis anos, criaram a etiqueta BSB Memo. Uma loja que leva Brasília no nome e em todos os produtos, além de trazer a palavra memorabília — fato ou coisas que suscitam memórias. “É clichê, mas Brasília é um museu a céu aberto. Os elementos daqui chamam a atenção e são universais”, comenta Thatiana.

 

Tudo começou em um curso de empreendedorismo do Sebrae feito por Raffael. O casal criou 10 camisetas com desenhos da silhueta de monumentos de Brasília. Era apenas um teste. No entanto, o retorno foi maior do que o planejado. “Vimos uma oportunidade de mercado que fugisse do artesanato típico vendido na Torre de TV.” Das camisetas, saíram cadernos de anotação, copos estampados por cobogós, bonecos do Lucio Costa, Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer, canecas e xícaras de café, guarda-chuvas e outros produtos com a assinatura BSB Memo.

 

Fazer moda na capital do país tem se tornado atrativo. Os sócios Paulo Augusto Albuquerque, 22 anos, e Caio Monteiro, 25, afastaram-se das carreiras nas áreas de engenharia ambiental e administração, respectivamente, para criar a DOBE Brasil. A etiqueta é brasiliense, mas o desejo dos jovens é atender uma carência do mercado nacional. A marca presa por características como o básico, o elegante, o charmoso, o bonito, o peculiar e, principalmente, o confortável. Na paleta de cores, predominam branco, preto e cinza. É a configuração da tendência minimalista no meio do Planalto Central.

 

Os sócios apostam em uma Brasília longe dos clichês. “Os tons crus da escala de Niemeyer e a organização da cidade são as características que mais nos influencia”, comenta Paulo. Quando há uma estampa sobre a capital no meio da coleção, é sempre com um olhar diferente. “Usamos ângulos e geometrias do dia a dia brasiliense”, explica Caio. O primeiro conjunto de peças saiu em abril de 2015. De 250 peças na primeira coleção, saltou para 1.766 na oitava, a dupla inaugurou um espaço físico e foi além dos limites do quadradinho com as vendas on-line. As roupas são produzidas no polo de modas no Guará com malhas vindas do Sul do país. “Temos dificuldades com a mão de obra, o maquinário é ruim e o custo para a matéria-prima, alto”, avalia Paulo.

 

Dentro do setor de ideias, tecidos, criações e tendências, as possibilidades são inúmeras. Até misturar grandes nomes do rock com a modernidade brasiliense. A Muv Shoes levou essa proposta para a São Paulo Fashion Week deste ano. Convidada pelo Sebrae, a marca de tênis participou pela quarta vez do principal evento de moda do Brasil, sendo a única representante do DF. “Ali, fazemos ponte com fornecedores, ganhamos visibilidade, temos a oportunidade de ver os bastidores dos desfiles. Coloca a gente no circuito” conta Isabella Guimarães, 27 anos, diretora de marketing da marca. Sem falar no aumento das vendas pelo site da empresa.

 

A Muv Shoes surgiu há cinco anos, criada pelos sócios brasilienses Miguel Marinho, 30, Gabriel Lira, 29, e Vinicius Matteo, 29. Para Miguel, a marca amadureceu, assim como a cidade. Na primeira coleção, por exemplo, os tênis eram customizados com adesivos de artistas do Brasil todo e, entre as imagens, encontrava-se símbolos típicos da capital. Hoje, a pegada ganhou um caráter mais sofisticado, mantendo o tom modernista. “A inspiração vem do concreto minimalista e da arquitetura da capital. É um design made in Brasília com a produção de Franca (SP)”, explica Miguel.

 

Joias brasilienses

 

Se dona Sarah e Juscelino Kubitschek estivessem vivos, sem dúvidas, o presidente escolheria uma joia made in Brasília para presentear a esposa em uma data especial. Primeiro, pelo amor com que JK enxergava a capital idealizada por ele. Segundo, porque, aos 57 anos, os traços da cidade levaram a formação de um mercado diversificado e cheio de ousadia na área dos acessórios.

 

Do quadradinho, a designer Flavia Amadeu, 38, conseguiu ligar comunidades da Amazônia com a efervescência das tendências mundiais em Londres. Em 2004, firmou uma parceria de pesquisa com o laboratório de tecnologia química da Universidade de Brasília (UnB). O grupo desenvolvia uma borracha colorida vinda do Norte do país, mas não sabia o que fazer com o material. A brasiliense, então, criou joias orgânicas que valorizam a matéria-prima. “Só os brincos têm metal. O objetivo é usar a borracha como borracha”, conta.

 

A busca por novos materiais sempre foi algo presente no trabalho de Flavia e, associado a esse interesse, ela alia o design sustentável e o empreendedorismo social. Ela atua dentro de diferentes comunidades para formar fornecedores. Em 2011, por exemplo, passou uma temporada na Amazônia em contato direto com as pessoas que fabricavam a borracha nativa usada em suas peças. De lá, seguiu para um doutorado na Inglaterra, levando não só Brasília, mas também a Amazônia. As peças integraram campanhas de moda no Reino Unido, foram destaque no Museu de Design de Londres e expostas na Semana de Design de Milão.

 

“Quando escolhi trabalhar com a borracha, falei: vou ser especialista nisso. É muita paixão”, comenta aos risos. As coleções, no início, geraram um certo estranhamento por serem diferentes. “Mas também despertavam curiosidade e, aos poucos, tive aceitação”, conta. Um dos muitos planos da designer é montar um sistema de vendas on-line.

 

Em um curso paralelo à formação em desenho industrial na UnB, a designer Renata Barros, 27, descobriu-se apaixonada pelo trabalho com joias clássicas. Ao concluir a graduação, decidiu abrir a própria marca e fazer peças sob encomenda e personalizadas. Apesar de se inspirar em grande nomes, principalmente, na também brasiliense Carla Amorim, ela teve receio por acreditar que não encontraria na capital todo o material necessário. “Ao estabelecer uma rede de relacionamento, conheci profissionais qualificados, caprichosos e delicados.” Ela cria as peças e cinco ourives da capital transformam sonhos e desejos em peças exclusivas e cheias de emoção.

 

Para Renata, toda joia tem uma história e seu trabalho começa por conhecer o que está por trás da peça desejada. “Faço uma primeira reunião com o cliente para entender a demanda. Tem pessoas que passam anos imaginando um anel, um colar ou brinco. Ou aqueles que querem presentear alguém especial”, comenta. Em seguida, a designer cria com base no que descobriu. O ponto alto de tudo isso é o momento de aprovar a peça. Como diz o lema da marca, o momento especial só faz sentido se fizer sentir. “A joia tem que ficar a cara da pessoa, o cliente tem que se identificar. Trabalho com um produto que as pessoas se apegam e acabam passando de uma geração para outra”.