Cada vez mais coletivos assumem protagonismo artístico na cidade

Icônica, a identidade cultural de Brasília se reflete entre os moradores das 31 regiões administrativas do Distrito Federal

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 01:40

 Ed Alves/CB/D.A Press

 

Há 57 anos, os olhos do Brasil pousavam sobre o Planalto Central. Brasília ainda era uma maquete saindo da utopia para a realidade. Com o passar dos anos, os edifícios projetados por Oscar Niemeyer — construídos por 60 mil candangos — tornaram-se referências mundiais e renderam ao território brasiliense o reconhecimento como patrimônio cultural da humanidade.

 

Durante todo esse tempo, a vocação artística e o desejo de pertencimento à cidade só cresceram. Icônica, a identidade cultural de Brasília se reflete entre os moradores das 31 regiões administrativas do Distrito Federal, ou, como eles se autointitulam “as asas que sustentam o avião”. A capital está presente no empoderamento feminino e na poesia de São Sebastião; move-se com a dança no Recanto das Emas; deleita-se à musicalidade diversa de Taguatinga; encanta-se com a pluralidade de Ceilândia e emociona-se ao assistir os movimentos teatrais do Plano Piloto.

 

A contribuição material e imaterial das cidades do DF, aliás, é histórica. Da área onde, atualmente, localiza-se São Sebastião, saiam os tijolos necessários ao erguimento de Brasília. Com a desativação das olarias, porém, deu-se espaço à configuração do núcleo urbano na localidade.

 

O episódio é relembrado pelo poeta local, Vinícius Borba, no trabalho autoral Fora da ordem. “Essa quebra que resiste/ Esse povo lutador/ Que lutou independência/ Que constrói a capital/ Das areias dessa terra/ Barro, argila, fundador/ De tijolo, suor e vida/ São Sebas nossa querida/ Quebrada do Senhor”, descreve.

 

Para além de subsídios necessários à construção civil, “São Sebas” — por meio das atividades de coletivos — concedeu à capital federal inúmeras riquezas culturais. O coletivo Radicais S.A. garante essa intermediação desde 2003, tendo à frente o tradicional Sarau Radical. O evento mescla atrações musicais, vinhetas poéticas e curtas-metragens. Grandes nomes da literatura brasiliense já fortaleceram a cena, como Nicolas Behr e José Rezende Júnior.

 

“A gente constrói um novo tipo de educação: com a permeação da arte, potencializa-se o senso crítico. Acreditamos que isso seja a continuidade da história de Brasília — mas, pelo ponto de vista de quem está em São Sebastião, do outro lado da ponte”, aponta Vinícius Borba, fundador do grupo. Os saraus ocorrem com periodicidade mensal ao longo de cerca de 10 anos. Hoje, entretanto, acontecem em ocasiões pontuais.

 

“São Sebastião era muito invisibilizado. Essa característica mudou graças às iniciativas culturais, que deram um novo panorama sobre o que a quebrada faz e o que há de positivo aqui”, argumenta Borba.

 

“Em 2003, quando o coletivo iniciou os trabalhos, éramos inseridos nos noticiários como a “cidade da Papuda e da violência”; ou dos maiores índices de dengue. Os moradores sempre foram muito estigmatizados e, como consequência, tinham uma auto-estima baixa. Agora, vemos artistas tomando fôlego, ganhando espaço e sendo reconhecidos”, completa.

 

Frente feminina

 

Poucos quilômetros da residência de Vinícius Borba, na rua 30 do bairro Vila Nova, a imagem marcante da artista mexicana Frida Kahlo dá destaque ao portão da casa 121. Também pudera. Trata-se de um reduto feminista, referência cultural e de empoderamento em São Sebastião. Para consolidar o projeto, esforços máximos. Logo de início, devido à falta de apoio, o grupo de mulheres desembolsou o valor necessário ao pagamento do aluguel; buscou, no lixo, móveis ainda utilizáveis — como o fogão grafitado que ainda integra a cozinha do coletivo; e fechou parcerias com professores voluntários para a ministração de cursos.

 

“A utopia nos impulsiona. Cada uma faz um tipo de trabalho informal e junta a grana para manter o projeto, porque a gente acredita muito na nossa luta: só temos como mudar o mundo se também mudarmos a vida das mulheres, e só podemos mudar a vida das mulheres se mudarmos o mundo. Então, trabalhamos para fazer uma sociedade mais justa”, destaca a idealizadora da Casa Frida, Hellen Christian, de 26 anos.

 

 

O nome do espaço, a despeito do que se imagina, tem referências além do enaltecimento a artista mexicana. “Frida foi uma artista plástica, revolucionária e visionária, na primeira metade do século 20, por abordar a pauta feminista. Porém, a identidade da nossa casa é, ainda, uma sigla representativa de cinco letras e vertentes: Feminismo, revolução, igualdade, diversidade e amor. Acreditamos que a única maneira de contemplá-los é por meio da cultura”, explica Hellen.

 

Em atividade desde 2014, a Casa Frida não deixa lacunas no cronograma cultural. Diariamente, há cursos, debates, palestras e programações artísticas. Ao todo, são duas ministrações fixas: uma com a temática sociedade, trabalho e capitalismo, do Instituto Federal de Brasília (IFB), às quartas, às 19h; e outra, o “corpolítica”, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), aos sábados, às 14h. “Temos um lema: transformar a dor em arte e espalhar o amor por toda a parte. Refere-se ao fato de a educação e a cultura não poderem ser desassociados”, explica a fundadora.

 

Apesar das dificuldades, três anos após a abertura da sede feminista a proposta já alcança novos horizontes. No último dia 12, o grupo venceu o prêmio FAC de Igualdade de Gênero na Cultura. Com uma verba de R$ 15 mil, as moças investirão na manutenção da casa e na compra de equipamentos. O projeto principal, no entanto, consiste na criação do selo Casa Frida de Livros: haverá a publicação, em um primeiro momento, de dois livros de integrantes do reduto. A ideia geral, porém, é que duas obras sejam emplacadas por semestre até o fim de 2018.

 

Além da frente cultural, a Casa Frida caracteriza-se pelo acolhimento de vítimas da violência doméstica — seja por danos psicológicos ou físicos. “Hoje, as mulheres daqui sentem que podem procurar um lugar onde serão bem recebidas”, garante Hellen. O apoio mostra-se ainda mais necessário frente a estudos da Secretarias de Segurança. De acordo com a pasta, apenas em 2016, 13.212 mulheres sofreram abusos descritos pela Lei Maria da Penha.

 

Multiplicidade

 

E, se o papo é resistência, Ceilândia — cidade mais populosa do quadradinho — tem orgulho em ser representada pelo coletivo Rede Urbana de Assuntos Socioculturais, ou apenas Ruas. O grupo, liderado por Max Maciel, mantém três projetos: Jovem de Expressão, Elemento em Movimento e Minha Quebrada. “Nós entendemos que é possível criar um novo território. É possível atender e agregar para transformar espaços em referência”, resume o ativista.

 

O Jovem de Expressão tem sede na quadra 18/20 de Ceilândia Norte. O ambiente, totalmente grafitado ao exterior, reúne, logo na entrada, computadores e livros. Mas não há recepção — é livre, pode entrar. Também não é preciso fazer cadastro. É só participar, “tá em casa”. “Queremos que as pessoas percebam que o projeto é para todo mundo”, complementa Max.

 

 

O trabalho dos ativistas no local, dividido em cinco espaços, é múltiplo. O projeto atua em três esferas: oficinas lúdicas e capacitadoras, interação com a comunidade e incubação social. No primeiro segmento, os interessados têm acesso a um leque de aulas de filmagem, fotografia, cenografia e afins. Já no último, os jovens empreendedores que não sabem como tirar a ideia do papel são agraciados com a força necessária para dar o pontapé inicial no primeiro negócio.

 

Em relação à convivência social, volta e meia, o grupo promove eventos na Praça do Cidadão, onde está a sede do Jovem de Expressão, com o intuito de “mostrar o que acontece no quadrante”. “A ideia é que a galera tenha a oportunidade mínima de se encontrar. É parte do processo histórico de qualquer civilização o acesso ao ócio criativo, o famoso rolê”, pontua Max Maciel.

 

Outro segmento do coletivo é o Elemento em Movimento. O evento musical promovido pelo Ruas, basicamente, inverteu o processo do rolê. Na data dos shows, não é o “bonde da Ceilândia” que dirige até o Plano Piloto. Mas, sim, o contrário. “Permitiu que o pessoal (de Ceilândia e Brasília) se encontrasse, porque nós mal nos encontramos. Estamos mudando a engrenagem”, destaca Max. Mais que o encontro de públicos, o projeto cultural ainda garante a aplicação do conceito à prática: quem promove o espetáculo é a galera que passou pelos cursos de capacitação do Jovem de Expressão.

 

O trabalho do Ruas, porém, não se restringe aos limites de Ceilândia. Prova disso é o projeto Minha Quebrada. Durante a primeira temporada da série, em um Opala 79, Max Maciel rodou três cidades do DF para contar a histórica intrínseca das regiões administrativas e ressaltar o boom cultural de cada localidade. Com a segunda temporada prevista para maio, o ativista iniciou, agora, um financiamento coletivo para viabilizá-la (com direitos a brindes para os colaboradores). Desta vez, 10 cidades terão o DNA cultural enaltecido.

 

Em nome da lembrança

 

No Recanto das Emas, a 35km da capital federal, quem garante o rolê é o Coletivo Reflexo das Ruas. Há dois anos, os integrantes do grupo reuniram-se para irradiar um ar multicultural pelas ruas da cidade. Do rock ao reggae; do breakdance ao popping; da rima recitada à cantada — não há restrições. Para eles, o importante é “agregar valor à comunidade”. E a iniciativa não se limita à região administrativa: no último dia 15, o movimento se apresentou no Conic, a convite do projeto Dulcina Vive.

 

O coletivo não detém uma sede própria e, por isso, encontros semanais tornaram-se inviáveis. Os eventos mensais, porém, são garantidos. A mobilização começou depois de os jovens receberem a notícia de que o amigo Thalisson, conhecido como CJ, havia sido morto a tiros na cidade. “Ele não era bandido, mas, ainda assim, padeceu frente ao crime. Percebemos que a mudança tinha de ser grande. Por isso, criamos o movimento. É uma opção para a juventude do Recanto; uma nova forma de ver a vida”, comentou Carlos Silva, integrante do grupo.

 

Os saraus não ocorrem em locais fixos. A ideia do grupo é trabalhar em ritmo nômade para levar cores, cheiros e texturas à cidade. “Tem dezenas de talentos aqui. Eles apenas não tinham onde realizar as apresentações”, comenta Carlos. “E isso incita a aparição de novos artistas. Após a fundação do coletivo, a galera começou a lançar discos e livros. O público que chegava apenas para curtir e acompanhar, hoje, sobe no palco e faz o show”, complementa o participante do Reflexo, Felipe Alcântara.

 

O incentivo à nova geração, inclusive, é encarado como uma missão de vida pelo coletivo. “A cultura mudou minha vida. E, se alguém plantou a semente cultural é mim, é meu dever plantá-la em um colega”, pontua Igor. De acordo com eles, portanto, o ciclo não pode parar. “Na minha cabeça, é assim: se eu conseguir salvar uma vida com a arte, já está bom. Não me arrependerei de ter desembolsado grana, acordado cedo ou passado fome”, conclui Bruno Fonsêca.

 

Ainda segundo os integrantes do grupo, o trabalho cultivado no Recanto das Emas impacta diretamente o cotidiano de quem está a quilômetros de distância, no Plano Piloto. “Quando mudamos a mentalidade de alguém que mora por aqui, essa pessoa levará o que aprendeu ao local onde trabalha ou estuda. É a expansão da nossa cultura”, resume Carlos Silva. A programação do coletivo pode ser acompanhada pela página Coletivo Cultural Reflexo das Ruas, no Facebook.

 

Teatro 

 

A cena artística de Brasília é, constantemente, contemplada com a aparição de novos coletivos culturais. Nessa ótica, há um ano, o grupo teatral Columna ganhou corpo. Multifacetada, a equipe conta com atores e artistas plásticos, além de profissionais do cinema, da música e do design. A característica, de acordo com o coletivo, “refina a cena local”.

 

Em menos de um ano, o grupo lançou a primeira peça autoral, Extinção. Para financiar a iniciativa, os artistas lançaram um financiamento coletivo em plataformas online. E a medida deu certo: o espetáculo ficou em cartaz por duas semanas, na Casa D’Itália. A narrativa conta, em uma perspectiva onírica, a história de três personagens que se veem em um território sem água e, em um delírio, percebem estar em um deserto de açúcar.

 

A peça é reflexo de diversas referências à capital federal. “Não é algo direto. Mas vivemos em uma cidade diferente de qualquer outro lugar do mundo. Aqui, há uma cúpula branca em meio à área central; o memorial de Juscelino Kubitschek está situado em frente ao dos Povos Indígenas. Sinto que somos afetados por esses espaços”, aponta o performista João Quinto.

 

As ruínas do Planalto Central também influenciaram o desenvolvimento do espetáculo. Durante sequenciais noites, os artistas desbravaram espaços abandonados do território brasiliense. Outro destaque são as fotos de divulgação da peça, que foram produzidas em uma mesquita, situada na Asa Sul. “Tudo isso entra no processo criativo”, acrescenta o publicitário Pedro Mazzepas.

 

O fato de o quadradinho ser pouco extenso — e, com isso, as pessoas mostrarem-se mais acessíveis — também agrega valores ao trabalho. “Tivemos a ajuda de Lígia Vergie, uma dançarina maravilhosa, que teve vivências com o mestre da dança Butoh, no Japão. Se estivéssemos em uma cidade maior, talvez o encontro não fosse viável”, complementa o artista de cinema Emanoel Lavour.

 

Com o fim da temporada de apresentação do espetáculo teatral, o Columna já tem novos planos. Ao longo dos próximos meses, o grupo lançará um curta-metragem, produzido por Emanoel Lavour. Outras peças teatrais e uma experimentação cinematográfica também estão em pauta.

 

Musicalidade

 

Lugar marcado pelas drogas e prostituição, o Mercado Sul, situado às margens da Samdu, em Taguatinga, deu a volta por cima graças a ação de ativistas culturais da cidade. Pelas mãos de artistas, as lojas abandonadas desde a década de 1970 tornaram-se, em 2015, palcos de peças teatrais, apresentações musicais, saraus, feiras colaborativas, cursos de economia criativa e debates sobre políticas públicas.

 

Hoje, do local que expõe pinturas e grafites, nas paredes exalam talentos — entre eles, o dos músicos do grupo musical Som de Papel, idealizado em 2012 por Juraci Moura. À frente de uma proposta social e sustentável, os artistas criam instrumentos musicais com, apenas, sacos de cimento. “Com a iniciativa, tiramos das ruas um resíduo sólido que causa grande poluição e prejudica o meio ambiente, e o revertemos em algo que agrada aos ouvidos dos amantes da cultura", pontua o baiano natural de Galheiros.

 

O projeto teve início após uma pesquisa de Juraci, a convite do artesão Virgílio Neto. “Eu já lecionava pandeiro no Mercado Sul e fiquei interessado em desenvolver algo instrumental e autoral”, pontua. Com o passar do tempo, outros músicos deram forma ao grupo e ganhamos expressão”. No próximo dia 11, a Som de Papel apresenta o trabalho ao público na abertura da Exposição Tempo EcoArte, no Museu da República.