Brasília e Correio Braziliense: 57 anos lado a lado

O Correio sempre esteve presente em todos os momentos da capital. as duas trajetórias de pioneirismo se entrelaçam e, hoje, o jornal constrói a história ao lado dos brasilienses

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 01:41

Ronaldo de Oliveira/CB/Reprodução/D.A Press

"Se o senhor inaugurá-la mesmo no dia 21 de abril (de 1960), saiba que lá encontrará um jornal associado”, disse o empresário da comunicação e, à época, embaixador do Brasil em Londres, Assis Chateubriand, ao presidente Juscelino Kubitschek. Estava lançado o desafio. De um lado, o fundador dos Diários Associados. Do outro, o presidente que trouxe a capital do país para o Planalto Central. Foi desse encontro, um ano antes da inauguração de Brasília, que teve início a relação entre o Correio Braziliense e a capital federal.

 

Os dois homens cumpriram as promessas. Em 21 de abril de 1960, circulou a primeira edição do periódico, um especial com 124 páginas. Duas histórias de pioneirismo que se entrelaçaram. Desde então, como em um matrimônio, a história da cidade e a do jornal caminham lado a lado.

 

Os dois viveram juntos os momentos de celebração e os de tristeza. Greves, protestos, inaugurações, eventos culturais, aumento populacional. O periódico e a cidade acompanharam o crescimento de profissionais como o cineasta Glauber Rocha, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa e tantos outros que levaram e ainda levam Brasília para o mundo em diferentes áreas.

 

Acompanhe aqui um pouco desse casamento em histórias de Brasília que ficaram registradas nas páginas do jornal.

 

Depoimentos de assinantes

 

"Deve ter uns 30 anos que assino o jornal. Talvez um pouco mais. Sempre gostei de ler notícias. Normalmente, chego em casa à noite, depois do trabalho, e vou ler. Lembro-me da época em que o governador era escolhido pelo Senado. Tinha uma comissão e o pessoal começou a reivindicar. O Sarney indicou pela primeira vez o Joaquim Roriz. Até que veio a primeira eleição.”

Clemente Cesar Valença da Silva, 59 anos, morador de Taguatinga

 

"Assino o jornal há um mês, mas a leitura é um hábito que tenho desde os 13 anos. Antes, comprava todos os dias. Resolvi assinar e agora leio no trajeto de ônibus da minha casa ao trabalho. Dá tempo de ler tudo, mas a parte que mais gosto é Esportes. Também acompanho as questões relacionadas à política nacional e os índices econômicos"

Ricardo Cardoso da Silva, 20 anos, morador de Samambaia

 

1962

 

"Candangos homenageados na inauguração da Universidade Nacional de Brasília”, destacava o Correio em 21 de abril. Concebida pelo antropólogo Darcy Ribeiro e pelo educador Anísio Teixeira, surgia a UnB.

 

1964

"A Esplanada dos Ministérios ficou coalhada de soldados, havendo militares deitados com suas metralhadoras postadas em posição de tiro”, publicou o Correio Braziliense em 1º de abril do ano em que começou a ditadura militar.

 

1973

A história da menina Ana Lídia Braga, 7 anos, até hoje assombra a capital. Ela saiu da escola acompanhada por um homem em 11 de setembro. O corpo foi encontrado no dia seguinte, em um terreno baldio atrás da UnB, como o Correio noticiou  com destaque na capa de 13 de setembro. Ela foi estuprada, seviciada e morta por asfixia. O crime nunca foi solucionado.

 

1976

A cidade parou para dar adeus ao seu fundador, Juscelino Kubitschek. O velório foi realizado em 23 de agosto, na Catedral, e o cortejo seguiu pela W3 rumo ao Campo da Esperança. JK havia morrido um dia antes, em um acidente de carro. A manchete do Correio dizia: “Juscelino, o eleito do povo”.

 

1978

“Tudo é carnaval. Os bailes, as escolas, os blocos de sujo. E o Pacotão”, era a manchete de 5 de fevereiro. O mais antigo e tradicional bloco de carnaval de Brasília ganhava as ruas pela primeira vez, fundado por jornalistas no auge da ditadura militar. O nome faz referência ao Pacote de Abril de 1977, assinado pelo presidente Ernesto Geisel para manter indiretas as eleições a governador.

 

1980

Um dos papas mais carismáticos da Igreja Católica visitou Brasília e 800 mil pessoas participaram da missa celebrada por ele na Esplanada. João Paulo II beijou o chão, reuniu-se com o presidente João Figueiredo e mandou recados de cunho político ao país. “João Paulo II pede reformas”, resumiu a manchete de 1º de julho.

 

1986

Uma mulher bem-vestida, aparentando 30 anos, se fez passar por enfermeira do hospital Santa Lúcia e sequestrou um bebê nascido 13 horas antes. A mãe, Maria Auxiliadora Braule Pinto, a Lia, não desconfiou quando a desconhecida levou Pedrinho. “Ladra de bebê foge disfarçada”, destacou o jornal na capa de 25 de janeiro. A família esperou 17 anos para reencontrar o menino.

 

1987

Em 8 de dezembro, o tombamento da capital ganhou destaque na capa do Correio Braziliense.

 

1988

Era um sábado, 18 de junho. O show da Legião Urbana começou com atraso e o líder Renato Russo discutiu com a plateia de 50 mil pessoas. O arremesso de uma bombinha de São João aos pés do cantor fez a banda abandonar o palco. O público se rebelou e o quebra-quebra começou. A polícia reagiu com violência. Cerca de 400 pessoas ficaram feridas. “Legião foge e show vira badernaço” era o título da notícia na capa do Correio de 20 de junho. O episódio terminou com a pichação de uma frase em um muro em frente ao prédio em que moravam os pais do cantor: “Legião, não volte mais.

 

1990

Brasilienses foram às urnas pela primeira vez. Os eleitores votaram para o Governo do DF, Senado, Câmara Dos Deputados e Câmara Legislativa do DF. A manchete do jornal trouxe o resultado: “Roriz ganha e PT chega em 2° lugar”.

 

1992

“Micarecandanga leva mais de 20 mil para a folia” foi a manchete do caderno de Cidades em 24 de junho. Realizada pela primeira vez em 1984, foi nos anos 1990 que a micarê conquistou a juventude da cidade. Tornou-se um dos carnavais fora de época mais famosos do país. Perdeu o nome original, mas o axé se mantém em festas periódicas.

 

1996

Quase 30 mil brasilienses foram ao Eixão exigir um basta às mortes nas pistas de Brasília. A campanha Paz no Trânsito, parceria entre sociedade, empresas e governo, teve apoio maciço do Correio Braziliense. Os cidadãos de Brasília ganharam o título que ostentam até hoje: são os únicos do país que respeitam a faixa de pedestres.

 

1998

Um dos primeiros clubes de futebol do DF, a Sociedade Esportiva do Gama levou o esporte brasiliense para a divisão de elite nacional na década de 1990. Fundado por um grupo de amigos, o clube liderou o Campeonato Brasileiro da Série B em 1998 e seguiu para a Série A. Foram quatro temporadas na primeira divisão.

 

2002

A cidade fez uma grande festa para receber os pentacampeões do mundo e o assunto foi capa do Correio Braziliense em 3 de julho.

 

2012

Em 5 de dezembro, Brasília e o Brasil viveram o luto da perda de Oscar Niemeyer, aos 105 anos. O arquiteto materializou o sonho do então presidente da República Juscelino Kubitschek, e trouxe traços modernistas à capital do país.

 

2013

Em 18 de junho, 10 mil pessoas protestaram na Esplanada dos Ministérios, em movimento que se espalhou pelo país. “Manifestações desnorteiam a velha política” foi a machete em 19 de junho.

 

2014

Copa do Mundo. Depois de 64 anos, o Brasil voltava a receber o principal evento de futebol do mundo. Um Mané Garrincha reformado especialmente para receber o torneio sediou vários jogos. No mesmo ano, recebeu ainda o ex-beatle Paul McCartney. O cantor bateu o recorde de público do estádio e passeou de bicicleta pelo Parque da Cidade, como o Correio registrou em foto exclusiva.

 

2017

Fruto da mais grave crise hídrica enfrentada em Brasília, começa o racionamento de água. O rodízio teve início nas regiões abastecidas pelos reservatórios do Descoberto e de Santa Maria próximo ao carnaval — o maior já registrado na capital federal. Milhares de pessoas foram às ruas para curtir a festa, que se consolida mais a cada ano.