Teatro brasiliense resiste a falta de espaço e se reiventa sempre

Nas artes cênicas, nomes consagrados da capital levam a cultura do DF para fora

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 01:34

Alice de Holanda/Divulgação

A força do teatro brasiliense resiste aos anos, se reinventa com a falta de espaços e produz suas próprias criações na ausência de facilitadores. Nomes consagrados da capital mostram que a cena local tem potencial para alcançar diferentes regiões do país, dialogar com o público das mais diversas idades e possibilitar a reflexão por meio de diferentes linguagens.

 

A experimentação dos jovens grupos, a presença cênica dos veteranos, a criatividade e a luta dos palcos periféricos e a ansiedade de compartilhar as ideias com o público são alguns dos pontos de destaque da produção que se consagra na tradição cultural brasiliense.

 

Grandes nomes, como os dos diretores Hugo Rodas e Irmãos Guimarães, foram responsáveis por criar um espaço de expansão de ideias e constante aprendizado. Além desses, nomes tradicionais como o da atriz Dulcina de Moraes trataram de abrir os espaços para a cultura da cidade que iniciava o caminho cênico.

 

Atualmente, com características mambembe e criação feita em família, a Cia. Os Buriti viajou os quatro cantos do país para se apresentar. O ônibus colorido já carregou figurinos, bonecos, cenários, instrumentos, muita música e história para cidades grandes e pequenas, centros culturais e espaços escondidos no interior do Brasil.

 

Enquanto isso, a capital destaca-se em território nacional com os gêneros de musical e de comédia. A Cia. Os Melhores do Mundo, com o talento para o humor e a relação despretensiosa com temas atuais, ganhou o aplauso de plateias lotadas em teatros pelo Brasil. Unindo os talentos cênico, musical e rítmico, brasilienses despontaram durante experiências na capital e em grandes produções musicais no Rio de Janeiro, em São Paulo, na Alemanha e em outros países.

 

A Escola de Teatro Musical de Brasília, espaço tradicional para os apaixonados pelo gênero no Distrito Federal, exporta artistas que têm construído sólida carreira em montagens profissionais. Assim, percebemos, que se por vezes lhes falta espaço apropriado e palcos tradicionais, sobra ao artista brasiliense o talento, o esforço e o profissionalismo necessários para levar a criação cênica da capital para todo o país.

 

Gustavo Moreno/CB/D.A Press

 

Força e profissionalismo

 

Hugo Rodas conta que suas últimas turnês com os espetáculos Punaré e Baraúna, e Ensaio geral tiveram grande êxito. No entanto, o diretor se mostra desanimado com o tamanho das temporadas na cidade e a dificuldade em manter grupos teatrais.

 

“O teatro no qual acredito é este, feito por grupos, e é cada vez mais difícil mantê-los na capital. A gente ainda vê muito dessa centralização no Rio de Janeiro e em São Paulo. Quem consegue viver de teatro por aqui é quem trabalha com inúmeras coisas ao mesmo tempo”, lamenta.

 

Na época da estreia, em 2005, o ainda jovem grupo escreveu seu texto e iniciou uma trajetória por aproximadamente 50 cidades brasileiras.

 

Rosanna Viegas, uma das integrantes do elenco do famoso espetáculo dirigido por Hugo Rodas, conta que já se apresentou em cerca de 70 cidades do país, com peças diversas, e encontrou nessas viagens uma grande força para a profissionalização. “É uma profissão em que tem que se estar disposto a aprender sempre, senão enferruja”.

 

Humor e talento

 

Representando a força do humor na capital, entre grupos como G7, Setebelos e De quatro é melhor, a Cia. Os Melhores do Mundo marca presença Brasil afora. Adriana Nunes, uma das integrantes, acredita que a cidade está bem representada em festivais, produções de tevê e cinema e entre os palcos. A capital se estabelece por sua própria condição de cidade nova, com gerações vindas de diferentes regiões, formando um caldeirão de possibilidades criativas.

 

“Sempre fizemos as peças para Brasília. E temos um público diferenciado aqui, altamente crítico e inteligente. As peças que circulam no país passam por uma adaptação das referências locais”, conta a atriz. As constantes viagens tiram o grupo da zona de conforto e possibilitam a criação de novos processos. “As pessoas vão ao teatro, muitas vezes, pela primeira vez para ver uma comédia. E o teatro ganha com isso. Essa pessoa é público e vai procurar outras experiências assistindo a outros espetáculos”.

 

 

 

Musicalidade e inovação

 

Reconhecida por seus talentos bem preparados para o teatro musical, a capital ganhou fama no gênero ao ter seus artistas no palco das grandes produções do país. Mateus Ribeiro, que preparou sua carreira aqui, observa que, atualmente, há brasilienses em quase todas as produções musicais do país. “O que ainda falta são companhias e espetáculos de Brasília fazendo temporada fora da capital e, assim, levando o nome da nossa cidade. Precisamos criar o interesse das pessoas pelo que acontece em Brasília”.