De Legião à Scalene: rock sempre balançou a capital federal

No aniversário de 57 anos, Brasília mantém a tradição no gênero

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 01:37

Kléber Sales/CB/D.A Press

 

Hoje, Brasília pode até ser uma cidade muito eclética quando o assunto é música. Mas ninguém há de negar que o concreto da capital bate mais forte pelo som pesado do rock. Dos primórdios da turma da colina (com Renato Russo e companhia) ao sucesso recente dos garotos da Scalene, a cidade nunca abandonou o gênero e permanece exportando talentos para o resto do país.

 

Um dos primeiros a transformar as características da cidade em rock e levá-las para além das fronteiras de Brasília foi Renato Russo. O sucesso monumental (que permanece até hoje) da Legião Urbana e de suas composições colocaram Brasília no mapa da música nacional.

 

Para muita gente de fora da capital, as letras do trovador solitário foram um primeiro contato com vários lugares da cidade, acredita Carmem Manfredini, irmã de Renato. “As pessoas querem conhecer o Lote 14 na Ceilândia por causa da letra de Faroeste caboclo, o Parque da Cidade por causa de Eduardo e Mônica... Acho que isso dá uma sensação de pertencimento a ele, a obra e a Brasília”, defende.

 

De acordo com Carmem, Renato conseguiu projetar Brasília de uma maneira diferente para o Brasil. “A imagem da cidade era muito voltada para o funcionalismo público, Brasília era vista só como um local para trabalhar (sede do governo federal). As pessoas se surpreenderam quando viram que existia uma efervescência cultural, com todas aquelas letras contundentes... Ele mostrou um lado diferente daquela visão burocrática”, conclui.

 

Arquivo pessoal

 

Apesar de acreditar que Renato não tinha noção da importância que teria para a cultura e para a música de Brasília, Carmem conta que ele sempre foi muito disciplinado e fazia projetos e planejamentos para levar o trabalho mais longe. “No fundo, mesmo sem consciência de que alcançaria tanto, ele tinha pelo menos uma vontade de chegar lá. Ele tinha esperança sempre e acreditava muito também por causa da disciplina, de todo o trabalho”, lembra.

 

Cedoc/C.B/D.A Press

 

Do grupo de amigos de Renato saíram também bandas como o Capital Inicial, que se tornou sucesso em todo o país. Vocalista do grupo, Dinho, inclusive, era visto por Renato como um dos que mais levava a sério o desejo de construir um trabalho forte.

 

“Recentemente, lendo manuscritos de Renato, achei um em que ele dizia que um dos únicos a realmente se aplicar e trabalhar sério no projeto era o Dinho. O resto, para ele, muitas vezes estava só brincando de ter banda”, conta Carmem.

 

Sucesso fora do DF

Foi em Brasília também que uma das cantoras mais importantes do rock nacional começou a se interessar pela música. Filha de militar, Cássia Eller chegou à cidade na década de 1980, com 18 anos. Ela logo passou a frequentar os redutos da música brasiliense e a se apresentar na noite da capital.

 

 

A contundência e a força vocal de Cássia impressionaram muita gente e marcaram sucessos como Malandragem (de Cazuza), O segundo sol (de Nando Reis) e Por enquanto (do próprio Renato). Cássia teve apresentações memoráveis, como a do Rock in Rio de 2001, em que ela cantou, por exemplo, o clássico Smells like teen spirit (da banda de grunge Nirvana).

 

Já nos anos 1990, foi o punk dos Raimundos que levou o som do rock de Brasília para todo o país. A banda se formou ainda em 1987 com Digão, Canisso, Fred e Rodolfo Abrantes. O primeiro álbum, no entanto, só foi lançado em 1992. Com mais de 150 mil cópias vendidas, o disco apresentou sucessos como Puteiro em João Pessoa, Nega Jurema e Marujo.

 

O som pesado, muito influenciado pelos Ramones, com letras sujas e com referências nordestinas da banda gerou também hits como Eu quero ver o oco e colocou a banda no centro do rock nacional. A trajetória do grupo ficou marcada também pelas mudanças de formação com a saída, por exemplo, de Rodolfo (que se tornou cantor gospel).

 

As novidades do rock de Brasília 

 

Scalene

 

Após um período de efervescência, a capital federal ficou mais de 20 anos sem projetar nenhum artista do rock para o mercado nacional. Até que, entre 2007 e 2009, Brasília viu nascer bandas que formariam um cenário independente roqueiro e, que, alguns anos depois, colocariam o rock brasiliense de volta ao topo. “Nossa cidade pode e deve ter orgulho dos artistas daqui”, analisa Tomás Bertoni, guitarrista da Scalene, banda que recolocou o rock da cidade em destaque. Do rock candango, Tomás diz que a banda se inspira mais no modo de ser do que na musicalidade: “O que mais nos inspira é a garra e a assertividade que as bandas daqui sempre tiveram”, classifica.

 

Formada por Gustavo Bertoni (voz e guitarra), Tomás Bertoni (guitarra), Lucas Furtado (baixo) e Philipe Makako (bateria e voz), a Scalene começou a chamar mais atenção nacional em 2014, na época tinha dois discos lançados e alguns shows pelo Brasil no currículo, e foi anunciada como atração do Lollapalooza. Depois dessa projeção, a banda tocou no South by Southwest (SXSW), nos Estados Unidos, participou do reality show Superstar (em que ficou em segundo lugar), teve música em trilha sonora de novela, até que neste ano ganhou o primeiro Grammy Latino da carreira na categoria de melhor álbum de rock em português por Éter (2015) e ainda foi convidada para tocar no palco principal do Rock in Rio em setembro. Atualmente, a banda se prepara para o lançamento de um novo álbum.

 

Aproveitando o bom momento do rock brasiliense no mercado, a banda Dona Cislene segue passos parecidos com os da Scalene. Formado por Bruno Alpino (voz), Guilherme de Bem (guitarra), Pedro Piauí (baixo) e Paulo Sampaio (bateria) desde 2007, o grupo tem feito vários shows pelo Brasil e, inclusive, abriu algumas apresentações para outra banda brasiliense, Raimundos, na turnê de 20 anos de estrada.

 

A sonoridade da banda é bastante inspirada no rock brasiliense e também na cidade de forma geral. “Crescemos escutando essas bandas de Brasília. Somos muito influenciados por Raimundos, sempre nos baseamos neles. Também brincamos que como não tem praia em Brasília, então o jeito é fazer rock”, afirma o guitarrista Guilherme de Bem. Para o músico, ser uma banda de rock de Brasília faz sempre ter uma pressão no cenário nacional. “Quando uma banda de Brasília toca fora, tem sempre uma cobrança, mas também há aquele pensamento de que, se veio da capital, deve ser bom. Somos muito honrados de fazer parte desse rock e dessa geração”, completa.