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Correio Braziliense

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Cheia de diversidade, Brasília é terra de todos os brasileiros

O sincretismo cultural dos imigrantes de Brasília não enfraquecem a identidade da capital. Pelo contrário, dão um tempero especial

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postado em 21/04/2014 07:00 / atualizado em 20/04/2014 19:08

A aglomeração de pessoas em um churrasquinho no fim do expediente, o passeio com cachorros nas entrequadras, as vias que substituem as ruas, as siglas que aparecem no lugar de nomes, a memória de uma Capital do Rock, a formação de uma Capital do Choro, a vasta presença de parques e os bares tradicionais. E aí, será que Brasília é, de fato, a cidade de um povo frio e sem identidade?

Apesar da cidade viver em plena juventude, aos 54 anos, idade não é documento quando se fala de identidade para a doutora em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), Patricia Cabral de Arruda. Nascida em São Paulo e há dez anos na capital federal, a socióloga dedicou-se a estudar e buscar traços identitários da cidade a partir da curiosidade e paixão pelo lugar. Para ela, características como as citadas acima fazem de Brasília um lugar de pessoas que conseguiram se adaptar a novas formas de sociabilidade, a partir do espaço urbano que a cidade planejada oferece. No artigo “Brasília: marcas identitárias sobre a cidade, marcas urbanas sobre a identidade”, a socióloga discorre sobre pontos que diferem Brasília de qualquer outro lugar do mundo.

“Para quem está de fora da cidade, Brasília se resume ao Congresso Nacional e a Esplanada”, é o que diz a pedagoga Ana Luiza Pellegrin, 43, que mora em Brasília desde 2004. Natural de Pelotas, no Rio Grande do Sul, Ana Luiza e a família caíram de “paraquedas” no Planalto Central, quando o marido, o advogado Antonio Pellegrin, 47, foi transferido para a capital federal. Com a chegada da filha mais nova, Mariana, a gaúcha conta que fez várias amizades no prédio e desmistificou a opinião que tinha sobre a frieza dos brasilienses. Segundo ela, a maioria de suas amizades compartilha da mesma experiência de serem imigrantes, e por isso todos se identificam e acolhem uns aos outros.

Ana Luiza mora em Águas Claras e tem quatro filhos, Antônio de 23, Juliana de 27, Gabriel de 22 e Mariana de quatro, a primeira e mais nova brasiliense da família. Antonio e Juliana seguiram a tendência do mercado da cidade, os dois são formados em Direito, já atuam na área e não pretendem sair da capital. Gabriel segue na área de Educação Física. A mãe afirma que vê na capital oportunidades de trabalho para os filhos bem maiores se comparada à cidade de Pelotas, onde nasceram. Para ela, a capital federal é promissora, mas ainda tem muito o que melhorar, como a qualidade dos serviços que presta.

Arquivo Pessoal


A estereotipificação de Brasília como um lugar de oportunidades para servidores públicos e de uma cidade que vive para política são outros pontos que a socióloga Patrícia Cabral expõe como traços identitários da capital. Por concentrar os órgãos da administração federal, a cidade é o maior celeiro de professores, autores e juristas, e onde estão as maiores escolas, editoras e cursinhos preparatórios do ramo. A pedagoga Siane Cardoso, 31, nasceu no Maranhão e veio para a Brasília em 2006. Ela é Assistente de Produção oito horas por dia e à noite estuda para concursos. A maranhense gosta do trabalho, mas sonha com um cargo público, que lhe dê estabilidade financeira.

Ainda hoje, o DF continua atraindo pessoas que vêm para capital em busca de melhores oportunidades de estudo e emprego. Apenas 35,4% dos habitantes do Plano Piloto são nascidos no DF e a média de outras cidades é 48,1%, segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Devido ao fluxo constante de pessoas dos mais diversos lugares, Brasília se configura como um verdadeiro mosaico cultural. Essa mistura de raças, gostos, etnias e tradições leva muitas pessoas a acreditar que a cidade não apresenta nenhum traço predominante.

Outro ponto evidente para os brasilienses, mas desconhecido pela maioria dos brasileiros é a desigualdade social. Apesar de Brasília ser a cidade de maior renda per capita do Brasil, é a segunda mais desigual do país, perdendo apenas para o Maranhão, segundo o PNAD. O Plano Piloto é uma cidade planejada, com alta qualidade de vida, escolaridade e consumo cultural. Em contraste, moradores das cidades satélites convivem com níveis alarmantes de violência, sistema de saúde público precário e baixo nível educacional.

Cristina Richief, 36, natural de Buritis, Minas Gerais, mudou-se para Brasília em 1997 em busca de uma vida melhor e apesar de todos os problemas da cidade não pretende voltar tão cedo para o interior. No começo, ela conta que trabalhou como doméstica em casas de família, mas logo teve oportunidades de estudar. Concluiu o Ensino Médio, trabalhou como secretária durante um ano e hoje assume o cargo de gerência de uma empresa de Produção Editorial. Ela relata que jamais poderia ascender profissionalmente, se ainda estivesse em sua cidade. Moradora de Planaltina, a mineira aponta a violência e a precariedade do transporte público como os principais problemas da cidade.

Para Patrícia Cabral, o mais curioso é que por mais que o discurso de grande parte das pessoas aponte para uma falta de raiz e identidade do povo brasiliense, a maioria dos moradores não pensa em deixar a cidade. Com tantas culturas, que vai do norte ao nordeste, do sul ao sudeste, a capital se configura com uma grande mistura que convive muito bem juntas. “O fato de a capital comportar manifestações de diferentes lugares sugere que o mosaico cultural seja a marca registrada da cidade, capaz de acolher todos os tipos de brasilidade”, explica.

Colaborou Renata de Paula Laurindo.

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