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Brasília atraiu pessoas de todo o país em busca de uma vida melhor

Aqui, os imigrantes tiveram chance de tornar a vida melhor

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postado em 21/04/2014 07:00 / atualizado em 20/04/2014 19:07

Janine Moraes/CB/D.A Press


“O céu de Brasília é lindo e maravilhoso”, garante Maria de Lourdes, 47 anos, gari, que admirou o firmamento em cidades de Minas Gerais e da Bahia, onde foi boia-fria. Há 30 anos, no trabalho pesado ao ar livre, ela não para a fim de dar entrevista. Conversa enquanto elimina o mato da beira da calçada com a enxada para que o colega possa pintar o meio-fio de branco. Ela compõe o grupo de 4.279 trabalhadores da limpeza urbana da de Brasília. Hoje, labuta protegida pelo macacão e pelo boné laranja. Nem sempre foi assim, antes de desembarcar na cidade, em 1984, mesmo ano em que deu à luz à primeira filha, Mônica.

Maria se apaixonou pela cidade, a quem chama, carinhosamente, de Mãe Brasília. “Foi aqui onde tive oportunidade de crescer na vida e criar meus filhos”, explica. Todos os descendentes de Maria são adultos criados na capital: José Wanderson, de 1986, e João Wallyson, 1990. “Por isso considero minha mãe. Sempre conseguiu me ajudar.”

Com 14 anos, começou a trabalhar de boia-fria nas lavouras de eucalipto, pinho e caju. O salário era pouco, “mas dava para sobreviver”. Uma hora era o tempo de se arrumar. O céu ainda estava escuro quando, às 3h, acordava para se aprontar, e, às 4h, esperava o caminhão pau de arara buscar os trabalhadores do acampamento. Coletava até as 16h. Certas vezes, no horário de almoço, a refeição servida estava azeda. “Como não tinha geladeira no meio do cerrado, também bebia água quente”, conta. Mas nem tudo era ruim. A companhia pela qual a mineira trabalhou foi também o meio que encontrou de estar sob vários céus do Brasil.

“Naquela época (em 1973), só ouvia falar em Brasília”, conta Maria. Lembra-se de algum conhecido ter ouvido falar que até o céu era diferente. “Sempre gostei de natureza, mas nunca tinha ouvido alguém comentar sobre o céu de uma cidade.” A rotina cansativa e a falta de oportunidade, segundo ela, foram os principais fatores para a mudança de Minas Gerais. “O destino que me trouxe”, explica Maria. Ligada à vontade de se mudar de cidade, a empresa em que Lourdes (como também é conhecida) trabalhou também contribuiu para que isso acontecesse. “O gato (como se referia ao empreiteiro) dava o trabalho e a gente o acompanhava”.

Clima
Conheceu o céu de diversos municípios — Mangas (MG), Cocos (BA), Correntina (BA) e a divisa da Bahia com Goiás. Maria conta que o pensamento de se mudar para a capital do país continuava presente em sua cabeça, “na hora de dormir ou quando eu acordava. Não sei porque eu sempre pensava que Brasília seria o meu destino”, detalha. “E, finalmente, me decidi, falei para mim mesma: ‘agora vou conhecer a capital do nosso país’”. Em Correntina, conheceu um senhor que a levou para cuidar de uma casa no Lago Norte. “Acostumei aqui e não quis mais voltar.”

Em 1995, começou a trabalhar como gari. “De lá para cá, só fui crescendo”, afirma, orgulhosa do trabalho que tem hoje. Nesse escritório a céu aberto, o sol substituiu a luz fluorescente e as árvores, as paredes. A rotina da época de boia-fria não mudou. Ainda acorda quando o céu está escuro, às 4h30, se apronta, e prepara o almoço dos filhos. Quando são 5h30, o ônibus da firma a leva para a central, onde busca o material para ir às ruas. “Para mim, que saio todos os dias e trabalho fora, o amanhecer é uma visão inexplicável.”

“Eu acho que o clima aqui também ajuda (a embelezar o céu). Quando tá calor ou frio, não importa. O céu, em ambos, parece ter sido pintado pelas mãos de Deus”. Católica fervorosa — “graças ao meu bom senhor” —, Maria ainda fica absorta quando limpa o chão próximo à Catedral Metropolitana de Brasília, que, entre todos os lugares onde esteve, é seu cenário preferido. Admite parar por uns dois minutos apenas para contemplar e pensar, sempre quando passa por lá. “A combinação da Catedral com o céu é perfeita. Assim como a maioria das paisagens que vejo, penso nas coisas boas da vida: paz, saúde, meus filhos…”

Na memória, a reflexão de sempre quando vê a junção dos monumentos (o céu e as obras de Oscar Niemeyer) ainda é fresca: “Para quem quer levar uma vida de futuro é só pensar em Deus que a Mãe Brasília ajuda.”



"Para quem quer levar uma vida de futuro é só pensar em Deus que a Mãe Brasília ajuda”
Maria de Lourdes, 47 anos, gari

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