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Correio Braziliense

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Conheça a história do homem que comprou o Pôr do Sol

Ex-copeiro, ex-gerente e ex-caixa vendeu Passat 1986 e comprou um espacinho na 408. Parou e olhou para luz do dia naturalmente se apagando. Achou o nome e o conceito do lugar

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postado em 21/04/2014 07:00

Lorrane Melo

Daniel Ferreira/CB/D.A Press


Alonso José da Silva Filho estava tão verde quanto seu Passat ano 1986 quando resolveu se desfazer do único bem que possuía após uma relação complicada — cheia de quebras, como aquelas que marcam a vida. A venda do carro resultou em R$ 7 mil e na realização do sonho de ter o próprio negócio.

Hoje com 39 anos, o brasiliense começou como copeiro, foi garçom, caixa e gerente antes de ter um bar para chamar de seu. E de forma quase imediata, depois de tanta espera. “Quando cheguei na 408 Norte, vi que estavam vendendo um espacinho. Fiz o negócio na mesma hora e saí preocupado porque ainda não sabia que nome colocar”, lembra, enquanto fitava a nova proporção tomada pelo comércio — o triplo da área antiga.

Lá, distante, vê a luz natural diminuindo. “Foi mais ou menos nessa hora. Fim de tarde, há 16 anos. Olhei para o céu e vi o pôr do sol mais bonito do mundo”, conta, sem precisar falar mais para explicar a escolha do título da fachada.

O boteco abriu as portas em julho de 1998, à época como um restaurante self-service. Hoje, o cardápio é bem mais modesto, a fim de evitar o desperdício dos anos de comida farta e variada.

Os churrasquinhos, petiscos e bebidas rendem, em uma noite boa, R$ 4 mil e sustentam, além da família de Alonso, seis funcionários. Graças à quantidade de universitários que chegam ao apelidado quadrilátero da bebida, na 408 Norte, que reúne uma dezena de bares com cerveja gelada e preço que cabe no bolso de um estudante acostumado aos R$ 2,50 do Restaurante Universitário da UnB.

Enquanto Alonso relembra, um desses jovens clientes chega empurrando os três engradados azuis que fazem as vezes de porta e complementam o balcão para alcançar uma cerveja na geladeira. Intimidade de quem já é de casa. “Tem clientes que são amigos”, explica Alonso, tendo logo um novo exemplo prático para demonstrar. Seu Tiago, pai do ator Welder Rodrigues, da companhia Os Melhores do Mundo, passou para dizer que o programa novo do filho vai estrear na Globo. E quando terminou a frase, a tradicional dose de whisky — com chorinho generoso — foi servida no copo americano sem que ele precisasse pedir.

Faz parte do convívio e aviso: não estranhe se um dos garçons trouxer a cerveja assim que você sentar pela primeira vez em uma das 30 mesas vermelhas, que beiram as 50 no fim da noite, dividindo espaço com as amarelas e azuis dos vizinhos.

Na confluência do Pôr do Sol, Meu Bar e Vale da Lua, debaixo de dois pés de manga, nasce um mar de gente com dreads, cabeça raspada e um ou outro tom de rosa no cabelo. Nem mesmo o bigode grisalho de um senhor tentando ganhar uma moça na mesa do canto, ou os dois homens de gravata afrouxada decidindo se é mesmo uma boa comprar uma Mercedes, destoam da conversa difícil de acompanhar do grupo da filosofia. Há espaço para todos. Até para as imagens da Catedral e da Ponte JK, que ilustram o avesso da fachada em tom de amarelo e laranja.

"Quando eu estou nervoso e cansado, vou ali fora, perto do semáforo, e olho para o céu. Não sei explicar o que acontece, mas parece que me renova", diz, sendo interrompido por um, dois… quatro maços de cigarro vendidos em menos de dois minutos. A maioria em moedas contadas, que Alonso não recusa. "O público jovem não tem dinheiro mesmo. Mas tem uns que vão no supermercado, compram a bebida mais barato, e vêm beber aqui. Aí não dá", reclama, com jeitão de quem, às vezes, releva. Isso porque, mesmo com a ajuda da mulher Antonieta e da filha Bruna — que ainda não passou na UnB —, é difícil controlar a real origem da bebida e acompanhar o ritmo dos mais jovens.

Na capital de céu insistentemente (en)cantado, mas com raras locações que façam jus à descendência do sol, é naquele espaço de 300m2 que o dia efetivamente termina, a noite honestamente começa, e as relações, mesmo as cheias de quebras, como a de Alonso e seu Passat, se transformam, como o movimento de rotação da Terra, que ganha cores de pôr do sol.



"Quando eu estou nervoso e cansado, vou ali fora, perto do semáforo, e olho para o céu. Não sei explicar o que acontece, mas parece que me renova"
Alonso Silva, dono do Pôr do Sol



Cada um no seu quadrado
A 408 Norte, conhecida como quadrilátero da bebida, tem 10 bares que fecham, a maioria, aos domingos. A quadra chega a reunir mais de 500 pessoas nas noites de quinta e sexta-feira — as mais agitadas — graças à cerveja gelada e barata, que atrai os universitários da região.



2.500
Quantidade de bares no Plano Piloto, de acordo com o Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Brasília (Sindhobar)

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