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De Bishop a Jobim e Lispector: um passeio pelo céu de Brasília

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postado em 21/04/2014 07:00 / atualizado em 28/04/2014 16:06

Por Fátima Bueno*
Lúcio Costa desenhou o Plano Piloto em 1957, durante longa viagem de navio, de Nova York para o Rio de Janeiro, isolado das pressões urbanas, cercado de céu e mar. Brasília teria de ser bela e criar uma paisagem poderosa no horizonte de 360 graus, relata Maria Elisa Costa no artigo Inacreditável Audácia, publicado no Correio em dezembro de 2011.

O concurso do Plano Piloto sequer havia sido cogitado, quando JK recebeu o palácio de tábuas, na Fazenda do Gama em 1956, de onde acompanharia as obras da futura capital. Reunido com seu seleto grupo de escudeiros, ouviu a sugestão de batizar sua morada provisória de Palácio da Alvorada, mas vetou, quis guardar o nome para futura residência oficial. Acatou a opinião de Dilermando Reis - o alojamento de madeira suspenso em troncos se chamaria Catetinho, diminutivo de Catete, sede administrativa do governo no Rio de Janeiro, conta Ronaldo Costa Couto no livro Brasília Kubitschek de Oliveira. A escolha do nome para o palácio principal pode ser considerada a mais precoce referência ao céu de Brasília, embora prevalecesse o sentido simbólico de nascimento de uma nova era para o país.

Juscelino apostou na iniciativa de espalhar a notícia da nova capital aos quatro ventos e aos cinco continentes e angariar publicidade internacional para a construção de Brasília. Decidida a localização do Palácio da Alvorada, que ainda passaria pela prancheta de Niemeyer em duas versões, JK determinou que se construísse um hotel próximo para receber quem quisesse acompanhar os primeiros passos da grande obra. O Brasília Palace Hotel ficou pronto em junho 1958, quando o Palácio da Alvorada ainda estava em construção e o projeto do Plano Piloto começava a sair do papel. Chefes de Estado, monarcas, intelectuais, artistas, cineastas, escritores, jornalistas e arquitetos enfrentaram as rudezas das circunstâncias e vieram testemunhar a monumental empreitada.

Entre os integrantes da comitiva organizada pelo Itamaraty em 1958, quando nem mesmo o lago Paranoá existia, estava a poeta Elizabeth Bishop, consagrada no olimpo da literatura internacional com o prêmio Pulitzer de 1956. Roberto Pompeu de Toledo publica na revista Veja, em abril de 2012, o artigo A era da inocência, que registra as impressões de Bishop sobre Brasília: uma cidade sem atrativos - sem montanhas, colinas ou bosques, onde prevalece a secura e desolação (...) uma poeira que se levanta em nuvens à passagem dos veículos e impregna a roupa e os tapetes do hotel. Considerando o local notavelmente pouco atrativo em relação ao país fantasticamente bonito, Bishop faz uma concessão: As únicas dádivas que a “Mãe Natureza” proporcionou ao lugar são “o céu e o espaço”.

Mas Bishop não ficou indiferente às colunas do Palácio da Alvorada que se erguia ao lado: se alguém imagina uma fileira de enormes pipas brancas, postas de cabeça para baixo, e então agarradas por mãos gigantes e apertadas em todos os seus quatro lados, até que sejam elegantemente atenuadas, pode ter uma ideia delas razoavelmente acurada. De novo a alusão ao espaço aéreo, onde pipas voluteariam na brincadeira das crianças presentes nos acampamentos pioneiros e as que viriam a seguir seguindo o vento nos descampados nos próximos anos.

Clarisse Lispector esteve na capital algumas vezes e referiu-se à cidade como “beleza assustadora da cidade traçada no ar”, “onde o espaço mais se parece com o tempo”, conforme aparece no texto Nos primeiros começos de Brasília, de 1962. Clarisse voltou tempos depois, com o mesmo espanto - “Brasília sofre de levitação”. “A luz de Brasília leva às vezes ao êxtase e à plenitude total. A luz de Brasília me deixou cega. Esqueci os óculos escuros no hotel e fui invadida por uma terrível luz branca”, “lá, mesmo o céu é redondo. As nuvens são agnus dei”.

Pode ser que Bishop e Clarisse tenham sentido com mais intensidade os rigores da seca, ou passaram por aqui nesse período, caso contrário citariam a lama. Pode-se dizer que Brasília é dividida em duas estações ao ano, nos primeiros tempos eram poeira ou lama, depois estação da seca e estação das chuvas, assim mesmo, chuvas no plural, e seca, uma coisa só, que vai começando em junho, porque em maio ainda há gramados e árvores verdes, as folhas ainda não caíram.

Com o estio instalado, julhos e agostos crescem em aridez, o Sol fica mais branco, a luz mais crua, a sombra mais escura. Sopra o vento e espalha folhas secas, invade intimidades, forma rodamoinhos (mesmo com tanto asfalto), leva para a atmosfera fuligem, fumaça e poeira, varrendo para longe as nuvens que pudessem prometer chuvas e surgem as queimadas. A faixa de partículas de fuligem, fumaça e poeira concentram-se numa cintura pouco acima do horizonte e torna o Sol de agosto uma bola vermelha que mergulha na linha imaginária que separa o céu da terra no fim do dia e abre a cortina da noite.

Setembro ficou na memória de Tom Jobim, quando ele esteve hospedado no Catetinho em 1960: Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios. Horizonte: 360 graus. Mas é diferente um setembro no meio das árvores, com um córrego de água de beber ao lado, no oásis onde se situa o Catetinho e no cerrado quase virgem daquele tempo.

No concreto que se espalhou desde então, na proximidade da cidade vertical que engoliu as nascentes e com as mudanças aceleradas do clima, as amenidades ficaram para trás. Mas se o Sol intenso no planalto não é de hoje, os arquitetos incluíram o quebra-sol nas fachadas modernistas. Na cor cinza ou coloridas, verticais ou horizontais, fixas ou articuláveis, as brises integram as fachadas de Ministérios, do Congresso Nacional, dos edifícios em geral para amenizar o calor excessivo e a claridade exagerada. Os blocos residenciais das primeiras quadras receberam molduras de concreto na frente e cobogós nos fundos com a mesma função.

A partir de agosto, olha-se a cada dia para o céu em busca dos sintomas de chuva e ouvidos atentos esperam ouvir as cigarras e o canto da rolinha Fogo-apagou. Os gramados são cor de palha, as árvores perdem folhas, o azul esmaece na fumaça e o Sol é uma bola de fogo vista a olho nu. E então aparecem os ipês amarelos, artes de Ozanan, que semeou as árvores pela cidade. Se os japoneses sentam-se nos bancos das praças para contemplar cerejeiras em flor, os brasilienses aprendem a cultuar os ipês que amenizam a aridez da estação.

Pode ser que caia a rala chuva do caju no fim de agosto, começo de setembro. A esperada estação costuma firmar-se depois de outubro e vem ora em comedidas porções, chuvas miúdas, esparsas, ora intensas, estrondosas em som, faíscas e fúria. É nessa época de que a amplidão abriga humores opostos do clima, - quadrante chuvoso na Asa Sul, céu limpo no Sudoeste, ameaças de tempestade e clarões na Floresta Nacional, que por lá ficam. É possível ver a Lua pelos lados do Paranoá durante o dia enquanto o Sol desce atrás de Taguatinga e uma cortina de água atinge Planaltina. Do Lago Norte é possível perder de vista o Plano Piloto durante um temporal, enquanto o Sol brilha no Taquari. A cidade pode amanhecer envolta em neblina que some inesperadamente. Na ponta da Península Norte aparece um generoso arco-íris numa tarde lavada pela chuva. É possível vir dirigindo no Eixo Sul vendo de longe as nuvens despencando no Eixo Norte em grossos chumaços, ver exatamente onde começa o chão molhado e entrar no aguaceiro na rodoviária, ligar os limpadores de para-brisas no máximo, enfrentar a visibilidade quase nula e chegar à ponte do Bragueto sem sinal de chuva.

Poeta da imagem, Wagner Hermurshe captou sutilezas e esplendores do céu que nos assiste em fotos diurnas, em bastões de cor e serigrafias que se tornaram marca da cidade. Em jorro de inspiração, WH desenhou Brasília noturna, o breu do céu como fundo de suas crônicas urbanas pontilhadas de reflexos luminosos, faróis de carros e luzes da cidade, vide seu livro Brasília abstrata concreta, onde aparecem também as clarividências de Clarisse.
Segundo o historiador Jarbas Silva Marques, quando Luiz Gonzaga vinha a Brasília ele ficava no apartamento do zabumbeiro João Batista Lima Neto, o Miudinho, na SQN 403, que dava para o nascente. O rei do baião acordava e batia na porta do quarto do dono da casa para ele ver o nascer do Sol. Miudinho respondia “mas eu moro aqui, vejo isto todo dia...” Para Luiz Gonzaga era um acontecimento.

Não só de poentes e alvoradas cantadas em verso e prosa e captados pelas lentes de fotógrafos amadores e profissionais vive o céu de Brasília. O luar do sertão tem seu público, Lua cheia nascendo no Leste e subindo majestosa no horizonte limpo ou pressentida entre massas de nuvens. Mas o firmamento noturno é mais seletivo e concorre com as telas eletrônicas. A noite exige alguma calma para examinar astros, planetas, talvez algum satélite, eventuais estrelas cadentes e vagalumes no jardim.

Os compositores Caetano Veloso e Djavan, com Linha do Equador, Flávio Venturini, autor de Céu de Brasília, os poetas Nicolas Behr e Augusto Rodrigues, os fotógrafos Rui Faquini, Graça Seligman e Bento Viana, para citar apenas alguns exemplos, rendem tributos ao céu do planalto, habitat de ruidosas maritacas, nervosos quero-queros, rápidos beija-flores, populares sabiás, escandalosos bem-te-vis e alguns raros tucanos, bandos de patos que sobrevoam o lago, aves pernaltas e outras variedades.

Alados também são os elementos do painel de azulejos da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, na entrequadra 307-308 Sul, uma das obras de arte mais conhecidas de Brasília. O painel é o único trabalho figurativo de Athos Bulcão, alternando a pomba, que representa o Espírito Santo, e a Estrela que guiou os Reis Magos até o Menino Jesus. A obra recorre ao mesmo tempo à iconografia religiosa, pródiga em referências celestes, e ao azul, cor associada ao firmamento. E também ao planeta Terra.

O astronauta russo Yuri Gagarin, primeiro homem a percorrer a órbita terrestre, em abril de 1961, autor da frase A Terra é azul, visitou Brasília em agosto do mesmo ano e comentou: A sensação é a de estar desembarcando num planeta diferente que não a Terra. Ainda demoraria um bom tempo até que os satélites varressem a superfície do planeta com suas potentes lentes e estações espaciais recebessem cosmonautas para estágios na zona de gravidade reduzida.

Cinquenta anos depois da visita de Gagarin à capital brasileira, a vista noturna de Brasília foi fotografada pelos tripulantes da Estação Espacial Internacional em janeiro de 2011, encantados pelo inconfundível traçado do Plano Piloto. Mas não é necessário ser astronauta e estar a mais de trezentos quilômetros de altura para inverter a posição, olhar para baixo e comprovar a epifania que evoca a imagem divulgada pela Nasa. É possível ver a cidade de cima, desenhada pelas luzes, em noite limpa e em assento junto à janela do avião e conferir o contorno escuro do lago Paranoá com asas e eixos, superquadras e esplanada demarcados pelo reflexo das lâmpadas simétricas lançados no chão.

Embora Lucio Costa negasse a comparação do traçado de Brasília com um avião, preferindo referir-se a uma borboleta, o conceito permanece, afinal o avião foi inspirado nas criaturas do ar. E para tamanho céu, só mesmo uma cidade com asas e gente com asas na imaginação para voar com ela.

(* Fátima Bueno é escritora e artista plástica, autora de Estou na Quadra)

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