Paris - O acelerado crescimento demográfico e o consumo desenfreado estão levando a uma destruição "sem precedentes" da Terra, alertou nesta quarta-feira (6/6) o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), às vésperas da Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.
O documento Geo-5 - quinto relatório do PNUMA sobre "O futuro do meio ambiente mundial" - pede uma transformação nos rumos da humanidade, para evitar o desastre para o qual o futuro parece apontar, além de destacar a responsabilidade dos governos.
"Se as estruturas atuais de produção e consumo dos recursos naturais seguem prevalecendo, e não se faz nada para reverter a tendência, os governos deverão assumir a responsabilidade de um nível de deterioração e de impacto sem precedentes no meio ambiente", advertiu o chefe do PNUMA, Achim Steiner. O documento, do tamanho de uma grossa lista telefônica, foi publicado 20 anos depois da histórica Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992.
Precedida por uma série de reuniões, a Rio+20, que começa no dia 13 de junho, congregará quase 50.000 especialistas, representantes governamentais, empresários e ativistas, para discutir o futuro de um planeta ameaçado. A economia verde, como marco de um desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza, está no coração da conferência, cujos debates mais importantes ocorrem entre 20 e 22 de junho.
O desafio que aguarda os delegados é imenso: segundo dados da ONU, a demanda global de alimentos terá aumentado cerca de 50% em 2030, a de água, 30%, e a de energia, em torno 45%, em um contexto de aumento da temperatura do planeta e da desigualdade.
A população mundial dobrou desde 1950, chegando a sete bilhões de habitantes, e alcançará 9,5 bilhões em 2050. Diante desta realidade é necessário incentivar um desenvolvimento que satisfaça as necessidades dos que habitam a Terra sem comprometer a sobrevivência das gerações futuras, insiste o organismo da ONU.
O crescimento demográfico e o enorme desenvolvimento de algumas economias, como a chinesa, "estão pressionando os sistemas do meio ambiente a limites desestabilizadores", afirma o documento.
Além disso, os padrões atuais de consumo, sobretudo no Ocidente, não são sustentáveis, salienta o informe, que convida os participantes da cúpula no Rio a mudar o destino da economia, definindo orientações para os próximos 20 anos a fim de evitar a catástrofe.
O Geo-5 adverte ainda que apenas quatro das 90 metas definidas pelos Estados membros da ONU como prioritárias para proteger o meio ambiente registraram avanços significativos. Uma delas é o acesso à água para os pobres, que não chegará a 600 milhões de pessoas mesmo em 2015, além dos 2,5 bilhões que não terão saneamento.
O PNUMA cita também, dentre as melhoras dos últimos 20 anos, a eliminação da produção e do uso de substâncias que agridem a camada de ozônio, avanço que evitará milhões de casos de câncer de pele até 2050 e outros milhões de casos de catarata até 2100. Também houve progressos nas pesquisas para reduzir a contaminação dos mares, que continua, no entanto, sendo dramática e provoca, entre outras questões, uma grave deterioração dos recifes de coral.
O informe aponta pequenos progressos em 40 objetivos ambientais da ONU, por exemplo, no aumento de áreas protegidas, como parques nacionais, e uma redução do desmatamento. O desmatamento caiu de 16 milhões de hectares por ano na década de 1990 para 13 milhões nos anos 2000-2010.
Na América Latina foram promovidas políticas de redução da destruição da Amazônia, indica o documento, que comemora o fato de países como a Colômbia tenham desenvolvido um sistema de transporte coletivo que ajuda a reduzir as emissões de gases com efeito estufa, contribuindo, dessa forma, a diminuir as mudanças climáticas.
Contudo, em escala global, a emissão de gases poderá dobrar nos próximos 50 anos, o que causaria uma alta da temperatura média de pelo menos três graus de hoje até o fim do século, lamenta o PNUMA. Outros 24 objetivos não registraram nenhum progresso ou apresentaram algum retrocesso nas últimas duas décadas.
Isso ilustra a urgência de que os dirigentes que se reunirão no Rio promovam uma transição radical em direção a uma economia verde, que permita reduzir as emissões de carbono, ao passo que também proteja os recursos naturais e gere empregos, insistiu o chefe do PNUMA.
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