Uma mão ajuda a outra

Horta comunitária urbana revela uma tendência das grandes cidades: colher o alimento no quintal de casa

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 18/11/2014 15:56 / atualizado em 18/11/2014 16:57

Mariana Pedroza

 

Um espaço coletivo onde todos podem plantar e colher. O lugar não é uma tribo indígena, ou uma vila residencial ecológica. Na superquadra 206 norte tem hortas espalhadas por todos os lados e não é à toa que o espaço está virando referência de plantio comunitário urbano em Brasília. O mais interessante é que as hortas fazem parte do ambiente da 206 norte há alguns anos, mas foi a partir de 2014 que elas começaram a se popularizar entre os moradores.



Igor Aveline e os amigos Diego Paes e João Carlos Rezende tocam mais de perto o projeto. Chamado de Projeto Re-Ação, a ideia partiu do princípio de que espaços comuns bem cuidados trazem uma qualidade de vida melhor para todos. E hortas comunitárias são uma forma excelente de confraternização social. Vide a forma como os moradores estão mais integrados e cada vez mais participativos no projeto.

Até agora foram feitos alguns mutirões que cuidam da adubação do solo, limpeza do terreno e plantio de mudas e sementes. E para quem acha que o interesse limita-se aos moradores da quadra, está enganado. Pessoas vindas das mais diversas regiões do Distrito Federal já participaram das atividades e para Igor, essa é a real proposta do projeto. “A gente planta as coisas, mas não achamos que só nós podemos consumir. O espaço é público e a proposta é produzir um alimento de qualidade, sem agrotóxicos.”

Entre prédios, estacionamentos e parquinhos infantis, os pés de abóbora, alface, manga e de tantas outras variedades se espalham entre hortas de todos os tipos e tamanhos. Fulano mesmo é um que cultiva a sua própria hortaliça, mas que na hora de dividir, deixa livre para todos.

Para coordenar todo o projeto é preciso organização. São feitas reuniões quando decisões coletivas precisam ser tomadas, como a distribuição de tarefas e quem ficará responsável pelo quê. Aliás, acontece um revezamento de moradores, entre dias e horários, para regar as plantas. Dentro dos multirões a organização também é fundamental. Enquanto uns cuidam de adubar o solo, outros são responsáveis por fazer as bombas de semente. Com o intuito de plantar de uma forma mais natural, as bombas são feitas de argila e dentro ficam recheadas de sementes. A ideia é jogá-las aleatoriamente pelo terreno e, assim, criar um ambiente naturalmente harmonioso.

É assim que as hortas vão sendo criadas a partir de um conceito de sistema agroflorestal. Igor explica que o termo significa “tentar produzir imitando as dinâmicas da natureza”. Ao contrário do sistema capitalista, que criou métodos de produção que tem excessiva perda de energia, o sistema agroforestal busca, assim como na natureza, produzir muito alimento sem perda energética.

Mariana Pedroza
 

 

Para que o projeto expanda e aumente sua eficiência de produção ocorreu a ideia de participar de uma ação de financiamento coletivo. Por meio do Catarse, o Projeto Re-Ação vai conseguir proporcionar para a comunidade mais incentivo para continuar cuidando das hortas por meio de cursos de capacitação, por exemplo. “Apoiar esse projeto significa apoiar uma ideia que quer envolver a cidade e que é aberto. Todos podem participar. É assim que damos mais combustível para que o movimento da agricultura urbana se prolifere com mais vigor”.

A meta é atingir R$15 mil reais e até agora já foram arrecadados pouco mais de R$4 mil. Se você se intressou pelo projeto e quer colaborar com a causa basta acessar o link http://catarse.me/pt/projetoreacao e doar qualquer valor entre R$15 e R$500. O prazo vai até 6 de dezembro.

Ao redor do mundo
Brasília não é a única cidade brasileira a implantar a iniciativa. Outras cidades, entre elas o Rio de Janeiro, já adotam a prática há mais tempo, inclusive como uma política pública, adotada pelo Estado. Hoje no Rio existem 30 hortas com este perfil espalhadas pela cidade, fruto do projeto Hortas Cariocas, criado há oito anos pela prefeitura, com o objetivo de incentivar a prática da agricultura urbana e oferecer gêneros alimentícios de qualidade a custo acessível, sobretudo nas comunidades pobres. A ideia é que metade da produção dos alimentos seja obrigatoriamente doada para as escolas do bairro e às famílias com maior vulnerabilidade social, indicadas pela Associação dos Moradores. A outra parte pode ser comercializada pelas equipes e o lucro é dividido entre os beneficiários.

 

 

 

Em São Francisco, Estados Unidos, a agricultura urbana é uma forma de ativismo e ocupação de espaços públicos em funcionamento desde os anos 1960, quando a cidade foi foco do movimento hippie e de culto à natureza. Além das iniciativas isoladas, a cidade possui desde 2000 um enorme canteiro de hortaliças e vegetais que fica na região central da cidade. O espaço verde ocupa o lugar de um viaduto demolido. O lugar tem até uma biblioteca de sementes.

Em Nova York, também nos Estados Unidos, os terrenos que não estão ocupados no bairro do Brooklyn são mapeados pelo projeto 596 Acres. Ele é como uma central das organizações e das associações de moradores e que tenta recriar nos espaços parques e centros de agricultura urbana.
Países latinos também estão envolvidos com a agricultura urbana. Medelim, na Colômbia, Rosário, na Argentina e Lima, no Peru são alguns exemplos de cultivo de alimentos em áreas urbanas comunitárias. Nas maiores cidades bolivianas, cerca de 50 mil famílias produzem o seu próprio alimento.

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.