O difícil consenso ambiental

Anúncio do documento final de cúpula sobre o clima, previsto para ontem à tarde, é adiado por falta de acordo entre nações ricas e em desenvolvimento

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postado em 15/12/2014 18:43 / atualizado em 15/12/2014 19:07

 

 

O objetivo é evitar um colapso ambiental no planeta provocado pelo aquecimento global. Quanto à necessidade de agir, portanto, não há discussão. Porém, quando se começa a debater a forma como isso será feito, o consenso se torna muito mais difícil. Prova disso foi a incapacidade das delegações reunidas na 20ª conferência das Nações Unidas sobre mudanças do clima (COP20) de chegarem a um acordo até sábado, prazo estabelecido para que um documento final do encontro fosse apresentado.



Da mesma maneira como aconteceu nas cúpulas dos anos anteriores, em Doha e Varsóvia, as discussões tiveram de ser estendidas, conforme reconheceu o presidente da cúpula, Pulgar Vidal, no início da noite (pelo horário de Brasília). “Ainda precisamos de mais tempo. Não queremos criar um processo que não permita a todas as partes expressarem sua posição”, disse. O texto — com as deliberações que orientarão um acordo global contra o efeito estufa, a ser assinado no ano que vem, em Paris — passou a ser esperado, então, para hoje ou até mesmo amanhã, com uma pequena chance de que fosse divulgado ainda no fim da noite de ontem.

O grande entrave para um consenso estava nas INDCs (sigla em inglês para Contribuições Intencionais Nacionais Determinadas), ou o conjunto de medidas que caberão a cada país a partir do ano que vem para reduzir as emissões de gases do efeito estufa. Esse debate já dura anos e divide nações ricas e em desenvolvimento. As primeiras insistiam até ontem em dois pontos: nações emergentes, como China, Índia e Brasil, também precisariam assumir metas compulsórias de corte de carbono; e a única medida à qual eles estariam obrigados era reduzir suas emissões.

No outro lado, as nações mais pobres acham injusto que elas paguem por um prejuízo que vem sendo construído pelos ricos desde a Revolução Industrial. Esse grupo defende a diferenciação de responsabilidades e quer também que os Estados desenvolvidos assumam o compromisso de financiar a adaptação do mundo às energias renováveis, pois a transição para uma economia de baixo carbono exige grandes investimentos. “A questão do financiamento é muito ressaltada pelos países em desenvolvimento porque ela permite que eles implementem ações nesse sentido”, resume ao Correio André Nahur, coordenador de mudanças climáticas e energia do WWF-Brasil.

Divergências

Na quinta-feira passada, os discursos do secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, e da ministra brasileira do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, mostravam bem as distintas posições dos dois blocos. “Não temos tempo de sentar e ficar discutindo de quem é a responsabilidade de lidar com o problema. É claramente responsabilidade de todos os países”, afirmou o americano. Kerry disse ainda que mais da metade das emissões de carbono atualmente provém dos países em desenvolvimento. “Eles não podem repetir os erros do passado. É imperativo que também façam a sua parte.”

Pouco após a participação do secretário, Izabella Teixeira fez um discurso no qual defendeu que a diferenciação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento é essencial. “Devemos garantir que (…) os países desenvolvidos tomem a dianteira nos esforços globais contra a mudança climática, ao mesmo tempo em que permitam aos países em desenvolvimento assumir gradualmente mais obrigações, de acordo com suas circunstâncias de desenvolvimento.”

A falta de um acordo ambicioso voltou a ser criticado ontem por entidades ambientalistas. Pouco antes da fala de Pulgar Vidal, Asad Rehman, representante da ONG Amigos da Terra na COP20, tuitou: “O louco sobre as negociações da COP20 é que temos soluções para o clima, temos a tecnologia e o dinheiro. Só nos falta políticos com coragem”. Na avaliação de Nahur, do WWF, muitos governos ainda temem adotar as medidas necessárias. “Uma coisa que está sendo muito discutida é a criação de um caminho sustentável que não seja associado ao prejuízo econômico. Estudos demonstram que é possível desenvolver alternativas de baixo carbono, mesmo assim, tentar é um medo de vários países. A China, entretanto, já investe em energia alternativa e, hoje, aplica US$ 75 bilhões em energias renováveis”, lembra.

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