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Correio Braziliense

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Memórias de uma guerra

O ataque de submarino alemão a cinco navios brasileiros, que levou Getúlio Vargas a apoiar os países aliados contra a Itália e a Alemanha há exatos 70 anos, é reconstituído em livro de jornalista gaúcho, depois de longa pesquisa

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postado em 31/08/2012 08:00

O Brasil nunca teve memória boa, ainda mais quando o assunto é a entrada do país na Segunda Guerra. Isso foi há exatos 70 anos, em 31 de agosto de 1942. Getúlio Vargas tirava o país de cima do muro — suas ideias flertavam com o nazi-fascismo, mas a política externa era amistosa aos Estados Unidos —, decidia apoiar os aliados e, em seguida, enviava 25 mil soldados à Itália. Mas, muito antes dos atos de bravura da Força Expedicionária Brasileira, um episódio trágico e heroico, curiosamente colocado em segundo plano na história, foi decisivo para a iniciativa do presidente Vargas. Entre 15 e 17 de agosto, no litoral nordestino, cinco embarcações brasileiras, levando carga, civis e militares, foram abatidas por um submarino alemão. O ataque resultou em 607 mortes. E, só agora, recebe atenção merecida em U-507— o submarino que afundou o Brasil na Segunda GuerraMundial (Schoba), livro de estreia do jornalista gaúcho Marcelo Monteiro.

“A dimensão disso me levou à pesquisa. Em nove horas, 591 pessoas morreram. Muito mais que em um ano de luta na Itália. Se a gente fizer um paralelo com os Estados Unidos, foi como o Pearl Harbor. Todo americano conhece, já leu, viu filmes, sabe de cor e salteado. O nosso Pearl Harbor a gente desconhece. É curioso e lamentável”, diz Monteiro, 40 anos, nascido e formado em jornalismo em Santa Maria.

Reconstituição

Em três anos e meio, o jornalista refez, por meio de coleta de material e entrevistas com testemunhas, o percurso dos navios Baependy, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Arará, torpedeados pelo submersível nazista U-507. Os três primeiros foram alvejados de surpresa, na madrugada de 15 para 16 de agosto. Quatro deles viajavam do Sudeste rumo ao Norte e Nordeste. Apenas o Arará, que carregava sucata e 35 tripulantes, fazia trajeto contrário. A maioria dos sobreviventes saiu do Itagiba, afundado à luz do dia. O iate Aragipe salvou mais de 150 pessoas. E vários outras foram resgatadas em barcos
salva-vidas.

Um documento essencial na pesquisa de Monteiro foi o diário de bordo do U-507, escrito pelo capitão Harro Schacht. Alguns dados puderam, enfim, ser elucidados. Um dos equívocos diz respeito à quantidade de disparos — supostamente dois torpedos para cada navio. Segundo Schacht, apenas o Baependy foi avariado duas vezes. Outros relatos, que procuravam dar conta da crueldade do alemão, diziam que o marinheiro metralhou embarcações de resgate e naufragados que se debatiam na água. Na verdade, ele não atirou por razões táticas — a ação teria exigido subida à superfície e exposição a  possíveis revides de aviões brasileiros.

A primeira pessoa que o pesquisador tentou localizar foi a alagoana Walderez Cavalcante, náufraga do Itagiba. Após o afundamento, a então garotinha, de quatro anos, sobreviveu porque ficou abrigada numa caixa de madeira, que servia de engradado de leite de condensado. Numa das fotos impressas em Agressão—Documentário dos fatos que levaram o Brasil à guerra, publicado pela Imprensa Nacional em 1943, Walderez aparece com outra menina da mesma idade,Vera Beatriz do Canto. Semanas depois de contatar as duassenhoras,Monteiro conseguiu colocar Walderez e Vera, irmanadas para sempre pelo ocorrido, novamente lado a lado.
Editora Schoba/Divulgação
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