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iPHONE, A NOVA LEICA

O uso cada vez maior de imagens feitas com celulares, até em coberturas de guerra, divide profissionais do jornalismo: alguns criticam, outros falam em "segunda revolução" da fotografia

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postado em 01/09/2012 08:00 / atualizado em 04/09/2012 18:20

Nahima Maciel

Quando Henri Cartier - Bresson descobriu a câmera Leica, a fotografia passou por revolução comparável à sua própria invenção. Pequeno, versátil, o equipamento permitia aproximação discreta e presença quase invisível do olho mecânico. Combinadas com o olhar e a sensibilidade de Cartier - Bresson, as qualidades da câmera renderam imagens históricas e decisivas para a evolução da fotografia. Um século depois do surgimento das primeiras Leicas, é a vez dos iPhones. Pequenos, discretos e com câmeras capazes de alcançar qualidade excepcional para um aparelho celular, o equipamento da Apple veio para provocar o que muitos fotógrafos já enxergam como a segunda revolução depois da Leica.

 

Fotos: Balazs Gardi/Divulgação
 

O repórter Dan Chung cobriu as Olimpíadas de Londres para o The Guardian com um iPhone. Uma das primeiras edições de 2012 da Newsweek trouxe boa parte do material fotográfico realizado com telefones celulares. O húngaro Balazs Gardiusou o mesmo aparelho para realizar as imagens da guerra no Afeganistão. Damon Winter, do The New York Times, também acompanhou tropas pelo país munido de um iPhone. E Annie Leibovitz, a retratista norte americana, recomenda (e usa) a câmera do celular. “Vivemos tempos interessantes”, disse a fotógrafa em entrevista à emissora KCTS9, nos Estados Unidos. “A habilidade que o iPhone permite em termos de câmeras instantâneas é incrível. Ainda estou aprendendo a usar o meu. É uma loucura: ele é um lápis, uma caneta, um computador, é muito acessível e fácil.”

Para pesquisadores, o equipamento pouco importa. A intenção e a formação de quem está por trás merecem muito mais atenção. Alguém tem que apertar o botão, seja ele mecânico ou digital, e esse gesto está sempre carregado de intenções. “O fotojornalismo não é só flagrante do fato”, lembra Susana Dobal, professora de fotojornalismo na Universidade de Brasília (UnB). “Uma coisa é o flagrante, o mero registro. Mas fotojornalismo é um pensamento de quem fotografa e consegue compor imagens que sejam boas sínteses do fato e que tenham a capacidade técnica de fazer com que as coisas funcionem. Muita gente pode usar a câmera, mas isso não valida um verdadeiro fotojornalismo. Um profissional pode propor uma outra visão das coisas.”

Fotógrafo independente, Balazs Gardi esteve no Afeganistão entre 2010 e 2011 para cobrir a guerra como parte de um projeto do Basetrack, coletivo internacional de fotógrafos de guerra. Durante a cobertura, Gardi usou o aplicativo Hipstamatic do iPhone para fazer um ensaio sobre as tropas e os habitantes locais.  As imagens foram parar na revista Foreign Policy Magazine. Para ele, as possibilidades das câmeras de celulares transformam qualquer pessoa em um jornalista. “Pelo menos potencialmente”, diz. “Cada vez mais pessoas carregam aparelhos que gravam áudio, vídeo e servem de notebook. Provavelmente, a consequência será que teremos que ler cada vez mais queixas de fotógrafos profissionais.”

Entusiasta

Mas há quem não se queixe e, pelo contrário, celebre a invenção das câmeras de celulares. Carioca radicado em São Paulo e com imagens publicadas em jornais e revistas internacionais, Claudio Edinger acaba de produzir dois livros realizados exclusivamente com iPhone. A mudança proporcionada pelo equipamento equivale, na opinião do fotógrafo, a uma verdadeira revolução. A quantidade de imagens assim produzidas e em circulação é tão grande que obrigou o público a aprender a ler a fotografia. O excesso, ele acredita, ajuda a limpar o olhar e a apurar a compreensão.

“Walter Benjamin dizia que no futuro as analfabetas não serão mais as pessoas que não sabem ler, mas as pessoas que não sabem ver. O futuro é já”, garante Edinger. “A Leica trouxe portabilidade e invisibilidade para o fotógrafo. O iPhone acelera o processo de edição, parte integral de uma boa fotografia. Você faz, já manda para alguém ou publica nas redes sociais e a coisa anda muito rápido. É a revolução da consciência. A vida voa, a gente não tem tempo nem pra saber o que é tempo. A imagem ágil, cheia de possibilidades, inovadora que o iPhone traz é o paraíso.”

A aproximação do objeto fica bastante diferente quando o fotógrafo tem nas mãos um equipamento simples, discreto e comum. “Compor com um iPhone é mais casual e menos deliberado”, confessou DamonWinter no The NewYork Times. “E os soldados estão sempre tirando fotos uns dos outros com seus celulares, então era mais confortável do que se eu estivesse com minha câmera profissional”. No meio profissional, há consenso sobre superior importância do olhar em relação ao equipamento. Mas a acessibilidade trouxe outro tipo de prática. As searas da fotografia profissional se viram invadidas pelos amadores.

Durante a guerra da Líbia, boa parte das imagens mais chocantes do conflito — caso da captura de Muama Kadafi —saíram de celulares particulares da população civil. O mesmo aconteceu como julgamento de Saddam Hussein, em 2006. Como a imprensa proibida de registrar o enforcamento do ex-ditador, o mundo acabou por testemunhar a execução por meio de registros pessoais feitos com celulares.

Nos atentados terroristas a dois ônibus em Londres, em 2005, as primeiras imagens também saíram de aparelhos móveis. São produções legítimas e complementares no entendimento de Eraldo Peres, organizador do Mês da Fotografia e idealizador do encontro que levou dezenas de fotógrafos amadores e profissionais ao Museu da República em agosto. “Hoje, a população tem muito mais acesso à informação e vê essa informação com muito mais critério. As pessoas estão mais atentas à credibilidade. Manipular imagem não é privilégio de quem não é fotógrafo. Muitos profissionais caíram na tentação e manipularam. A gente viu muita foto de guerra que o jornal teve que pedir desculpas porque o fotógrafo manipulou”, avalia Peres.

Inovação

Quando as câmeras digitais começaram a tomar o lugar dos equipamentos com filmes, a desconfiança se instalou. Muitos acharam que era o fim da fotografia. O mesmo aconteceu quando a Kodak passou a comercializar os aparelhos descartáveis em 1888 e quando a Leica chegou ao mercado, nos anos 1920. Alguns profissionais olharam enviesado para as novidades. Toni Pires trabalhou em jornal por 16 anos antes de escolher o caminho da independência e, hoje, confessa estar na tribuna dos que aplaudem as inovações tecnológicas responsáveis por popularizar a fotografia. “Quanto mais gente fotografando, melhor, mais difícil manipular imagens e situações. Acho interessante que as pessoas evoluam na sua leitura de imagem. O Instagram, por exemplo, é um intensivo, uma aula de fotografia. Uso desde o início e acompanho pessoas que não são fotógrafas: a melhora da qualidade do trabalho delas é nítida”, garante.

Pires já fez várias coberturas com iPhone. Recentemente, realizou um ensaio sobre a seleção olímpica de boxe e, em determinado momento do trabalho, resolveu abandonar o equipamento profissional. “Passei três semanas visitando o centro de treinamento só com o celular. A receptividade mudou da água para o vinho. Consegui entrar em lugares que não podia. Então, em alguns momentos, deixo o equipamento em casa. Na rua, em campanha política, por exemplo, o iPhone me faz ser um eleitor, um voyeur qualquer, não a imprensa. Tem menos pose.” Parte do registro da campanha de Dilma Rousseff para a Presidência saiu do celular, e não da pesada câmera profissional. “O sonho da gente é ser imperceptível, o mais invisível possível. Sabemos que isso é impossível e que a nossa simples presença e a presença do equipamento começa a distorcer a realidade. O celular é um equipamento tão pequeno, portátil e pulverizável — todo mundo tem — que tira aquela vestimenta de repórter. Você passa a ser mais um qualquer.”

O norte-americano Michael Christopher Brown até conseguiu encontrar um conforto no pequeno aparelho. Com trabalhos publicados no The New York Times e nas revistas Time e Newsweek, ele descobriu a potencialidade do iPhone no sufoco. Ao desembarcar na Líbia no ano passado para cobrir o desfecho da queda de Kadafi, o fotógrafo constatou que a Canon profissional estava quebrada. Um amigo emprestou uma câmera, mas ele não se sentiu confortável com o equipamento e decidiu arriscar: passou a usar apenas o telefone celular. “Já estava acostumado com seu modo de funcionamento”, explica. “E havia um gancho: a Primavera Árabe foi toda escrita com celulares e tecnologia on-line, então fotografar com um telefone parecia muito apropriado. Usei as ferramentas que os líbios usaram para criar as mudanças pelas quais estão passando hoje.”

Brown fez as imagens com auxílio do aplicativo Hipstamatic e admite que a ferramenta facilita a manipulação da imagem, já que cria imagens semelhantes ao colorido proporcionado pelo negativo graças a um conjunto de lentes e filtros.“Isso me ajudou a tirar fotos diferentes das milhares de fotos feitas com Canons e Nikons”, aponta. Para alguns críticos, é exatamente nessa capacidade de manipulação da imagem que mora o perigo. O português Paulo Nunes dos Santos abomina os filtros e as máscaras para alterar a estética da imagem. Câmeras de celulares, ele defende, não são suficientemente intuitivas e o equipamento não tem a rapidez necessária à captura da imagem e à segurança do fotógrafo em uma situação de guerra. Usar câmeras de celulares em coberturas de conflitos gera desperdício e provoca comportamentos irresponsáveis na visão de Nunes. “Fotografia de conflito, para ser bem concebida, não permite o ‘desperdício’ de tempo que um fotógrafo encontra ao recorrer à tecnologia do iPhone. O resultado nunca será o desejado. O próprio fotógrafo acaba por se colocar ainda mais em risco”, diz o repórter, que acaba de voltar da Síria e escapou de um franco-atirador e quatro morteiros.

“No meu entender, não houve ainda um único fotojornalista que, usando unicamente o iPhone, tenha reproduzido uma reportagem que possa ser classificada como reportagem de guerra”, comenta Nunes. “Tem havido, sim, fotógrafos que usam o iPhone em zonas de conflito para documentar de forma mais artística o ambiente dessas zonas. No entanto, todas as histórias, reportagens ou notícias em que são usadas imagens capturadas com o iPhone nunca são acerca do conflito ou combate. São sempre peças sobre o fotógrafo que usou o iPhone para produzir imagens em ambiente de guerra.”


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