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Paulo Nunes dos Santos

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postado em 01/09/2012 08:00 / atualizado em 04/09/2012 18:04

Nahima Maciel

Você é contra o uso de câmeras de celulares em coberturas de guerra, nunca usou tais aparelhos. Mas enxerga alguma qualidade no equipamento?
Paulo Nunes dos Santos


Nunca usei nem tenho intenções de usar para documentar visualmente um conflito. Uso-o unicamente para produzir imagens em nada relacionadas com o meu trabalho profissional. O iPhone, apesar de ter uma qualidade bastante aceitável, não está ainda desenvolvido o suficiente para substituir qualquer câmera DSLR de linha profissional. Num ambiente de combate é, no meu entender, impossível conseguir um resultado aceitável quando se recorre unicamente ao iPhone. A câmera incorporada não tem rapidez suficiente para capturar momentos que ocorrem em segundos. Capturar uma imagem num equipamento como touch screen não é intuitivo o suficiente para que um fotógrafo foque unicamente no ambiente em que se depara. Usar o iPhone como câmera exige distrações. Até agora, em todas as reportagens em que a imagem é produzida com o iPhone, o centro da história é o fotógrafo. Na minha opinião, isso não é jornalismo. E muito menos jornalismo de conflito. Especialmente quando se recorre a softwares como o Instagram para alterar o aspecto e conteúdo da imagem. Software como esse vai muito além do limite de manipulação de imagem aceitável no jornalismo.

Há um desvirtuamento do foco?

A meu ver, publicar-se uma história sobre, por exemplo, as guerras civis na Líbia ou na Síria, unicamente porque o fotógrafo usou um iPhone é totalmente errado. O editor, e mesmo o jornalista, está a desviar a atenção do drama humano que a guerra inflige à população para dar espaço midiático ao fotógrafo que produziu as imagens. Jornalismo de conflito ou qualquer outro tipo de jornalismo não é, nem pode ser, acerca do jornalista que vai ao local. O jornalista vai porque quer, porque decide ir. Não se torna um herói só por “ter estado lá”. Pessoalmente, quando coloco minha vida em risco (o que acontece frequentemente), faço-o unicamente para poder entender, documentar e informar sobre o drama e a injustiça que a população civil está a sofrer. Decido ir a essas áreas de livre vontade e consciente dos riscos que possa correr, mas sem nunca querer ser o centro da história.

Isso no caso de coberturas de guerra. Mas e o uso de câmeras celulares com propósitos artísticos?

Há quem tenha conseguido produzir imagens muito interessantes. Algumas mesmo com teor jornalístico. Mas não acredito que alguém tenha ainda conseguido produzir uma reportagem séria ou interessante numa zona de combate ou ambiente de guerra. Talvez um dia a tecnologia se desenvolva de certa forma que o iPhone ou outros smartphones possam substituir as pesadíssimas e nada baratas câmeras profissionais DSLR. Isso seria fantástico. Dar-nos-ia mais mobilidade e maior discrição quando se trabalha num ambiente difícil e, por vezes, de forma clandestina. Mas nos dias que correm e com a tecnologia existente, o iPhone está ainda muito longe de poder substituir câmeras‘a sério’. Pessoalmente, deixo o iPhone para produzir fotografias de férias, festa e família. Para trabalho, continuarei a carregar a meia dúzia de quilos que a Nikon sabe produzir tão bem.
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