SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Dona de sí

Comprodução artesanal, terceiro CD de Ana Cañas justifica o destaque conquistado por ela entre as jovens cantoras brasileiras

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 03/09/2012 08:00 / atualizado em 06/09/2012 17:01

Rosualdo Rodrigues

Rafael Cañas/ Divulgação
A fotografia que estampa a capa de Volta, novo disco de Ana Cañas, é um autorretrato. O gesto de pegar a máquina para se fotografar tem tudo a ver com o processo de produção deste terceiro trabalho da cantora paulista—e com o próprio disco. Ana se refugiou no sítio de um amigo, em Vargem Grande, no Rio de Janeiro, para trabalhar em canções que já tinha na gaveta, criar outras e produzir o álbum em parceria com os músicos Fabá Jimenez e Fábio Sá. Dispensou aparatos de estúdio e gravou tudo ao vivo, com direito a latido de cães, canto de pássaros e cricri de grilos ao fundo.

“Acho que foi uma busca do momento mesmo, uma coisa que fiz para que esse terceiro disco tivesse uma cara bem pessoal e íntima. É também um reflexo de estar compondo mais no violão. Isso deu vazão para que eu falasse mais de sentimentos, experiências”, explica Ana Cañas, autora de 12 das 16 faixas de Volta—três dela sem parceria com Dadi (Será que você me ama?,Todas as cores e Amar amor) e uma coma mexicana Natalia Lafourcade (No quiero tus besos).

Outro toque pessoal é dado pelo fato de Volta ser o primeiro que Ana lança por selo próprio, o Guela Records. “Sempre tive liberdade na Sony (gravadora pela qual ela lançou Amor e caos e Hein?), mas para esse terceiro projeto eu queria um caminho que fosse diferente. Senti que a gente poderia ir cada um pro seu caminho. E talvez não fosse o projeto que eles pensavam num terceiro disco para mim. Estou me sentindo mais dona do meu trabalho, não só artístico e musical, mas como empresa”, conta a cantora, que entregou a distribuição do disco à Som Livre.

Levando adiante o lema do “faça você mesmo”, Ana até roteirizou e dirigiu o clipe de Será que você me ama?. “Esse momento do vídeo foi tenso. É uma linguagem pela qual tenho o maior respeito e fiquei aflita porque não sabia o que ia acontecer. Mas julguei que tinha espaço para isso. Acho que ficou interessante, para complementar este momento de despojamento. Foi feito com uma câmera só, no instinto, na intuição”, avalia.

» Diamantes no bolso

Desde que conheceu Ney Matogrosso durante a gravação do Som Brasil, da Globo, dedicado a Cazuza, Ana Cañas vem “flertando” com o cantor, também conhecido por dirigir colegas no espaço que ele conhece tão bem, o palco. Por isso, o nome de Ney foi logo cogitado quando ela pensou no show de Volta. “Quis um diretor, até para compensar o fato de ter feito tudo sozinha. Queria um olhar distanciado, mas que fosse de alguém que também vive de palco, que soubesse o que é pegar o microfone e cantar. Liguei para o Ney, ele foi muito simpático à ideia”, conta Ana, generosa em elogios ao colega: “Ele é uma pessoa incrível, um artista à frente de seu tempo, visceral e delicado. Foram pequenos diamantes que ele colocou no meu bolso.”

Responsabilidade

Assumir tantas tarefas, ela admite, tem um preço: “Não cheguei a me sentir só, porque tive ao lado duas pessoas que trabalham comigo há muito tempo, Fabinho, há oito anos, e Sabá, há seis. Temos muita intimidade e eles abraçaram o projeto comigo. Senti uma responsabilidade maior por estar tomando todas as decisões, segurando o leme do barco. Isso pesou mais”.

Ana Cañas gostou tanto de trabalhar “de uma forma mais orgânica, pondo a mão na massa”, que se permitiu fazer um disco longo para os padrões. “Julguei que, pelo fato de ser eclético, não ficaria assim tão longo, como seria se fosse só de pop ou de jazz…Mas também senti necessidade. Meu primeiro disco tinha oito músicas, o segundo, 12. Como passei três anos sem gravar, meio sumida, achei que seria legal”, conta ela. Se tivesse que fazer um disco maior, material não faltaria. “Muita coisa ficou de fora, tive que fazer opções. Teve uma escolha precisa.”

As escolhas incluem quatro regravações, todas de canções clássicas, do jazz (My baby just cares for me e Stormy weather), da canção francesa (La vie en rose) e do rock (Rock and roll, do Led Zeppelin). Ana, que se tornou conhecida pelas interpretações que fazia ao vivo de músicas como essas, chegou a temer gravar standards em disco. Mas foi encorajada pelo momento que estava vivendo, “de me sentir acolhida pelas pessoas por quem eu estava cercada.” Foi também motivada pela idade, ela acredita. “A gente relativiza essas coisas tidas como intocáveis, revê pontos de vista. E é uma coisa de que nunca me afastei, continuei cantando nos shows, as pessoas me pediam, era como se fosse uma vocação. Comecei a pensar em tudo isso”. As reflexões resultam em verdadeiros presentes para os fãs: arranjos minimalistas e uma intérprete inspirada dão a My baby just cares for me, Stormy weather, La vie en rose e Rock and roll versões personalíssimas.
Tags:

publicidade