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PAIXÃO PELA vida, RESPEITO PELA morte

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postado em 03/09/2012 08:00 / atualizado em 06/09/2012 17:46

Carlos Hungria/CB/D.A Press -24/1/95

Antes de chegar à metade das 208 páginas de Livro das horas, Nélida Piñon faz uma inquietante afirmação. “Assaltada por sobressaltos seguidos de um torpor que amortece as juntas, juro não voltar a criar”, escreve. É apenas um lamento, um indício do desassossego permanente provocado pela necessidade criativa e seu inevitável sofrimento. Nélida está com insônia e remói trechos de um romance em processo de escritura. Lá pelas tantas, ameaça a si mesma de cortar a pena e simplesmente tirar proveito de um bloody mary em uma atitude totalmente descompromissada.

Claro, a autora não falava sério em largar a escrita. Não poderia. Burilar a linguagem é vital para Nélida. É a fonte de onde extrai a felicidade calorosa da qual se diz portadora. Livro das horas não se encaixa em gêneros. Ficção, memórias ou biografia não servem para este pequeno relato de impressões sobre a vida e a morte, sobre as relações humanas, o amor, a traição e, para não ficar devendo, a literatura. Um balanço corajoso, nostálgico e, em muitas passagens, saudoso, no qual Nélida é a própria narradora.

Aos 75 anos, a escritora quer falar da morte e, para tal, fala de Deus. Desconfia de inventá-lo—ou reinventá-lo—simplesmente para se redimir. Ou para traçar caminhos nos quais, atrevida, ela chega antes dele. Chega a desafiá-lo: “(…) não hesitarei em buscar a morte por meus próprios meios caso julgue a vida desprovida de luz. A autoimolação é um recurso libertário.”

Livro das horas alterna a fome de viver com a espera pela morte. “Desfaço aos poucos as ilusões com que afago o ego e deixo aberta a porta da casa a fim de facilitar o ingresso da dama com a foice na mão”, escreve. Na paixão pela vida está o equilíbrio que leva o leitor a encontrar verdadeiramente a autora. “Você oscila entre esses polos. A morte é uma contingência forte, sem dúvida, mas tem exaltações, amores, Tristão e Isolda, Capitu, símbolo da traição. Como trair é fácil se você não tomar cuidado! Você trai com uma naturalidade! Nem se dá conta, parece natural”, explica Nélida, por telefone.

Personagens

Diálogos literários permeiam todo o livro. Uma certa fixação com Tristão e Isolda, uma insistente lembrança de Capitu, leituras da infância, Monte Cristo e outros personagens aparecem na narrativa não cronológica para pontuar as impressões da escritora. As divagações estão presentes, mas não ocupam todo o espaço. Há também um pedaço da vida do país,uma lembrança da ditadura, outra de amigos queridos, a saudade de Clarice Lispector e a indignação, ainda que  cordial e elogiosa, com a biografia de Benjamin Moser. Nélida se zangou com a passagem na qual o biógrafo trata do estupro sofrido pela mãe de Clarice. “Fiquei muito chocada”, confessa. “Eu teria preferido que essa notícia não tivesse sido publicada.”

Mas Nélida é discreta. Sua teia de memórias é porosa, lírica e elegante. Dos afetos literários não revela segredos. Nem sobre si mesma. Com os desafetos, é gentil. Da intimidade, só permite mesmo a presença do esperto Gravetinho, um cãozinho muito abusado. “Minha descoberta mais essencial dos últimos tempos”, avisa. Abaixo, a autora fala sobre as motivações que a levaram a Livro das horas e sobre as reflexões contidas na narrativa.

» Entrevista // Nélida Piñon

Não é uma biografia nem um livro de memórias. Como a senhora encara Livro das horas?

É uma confluência de gêneros. São narrativas do cotidiano, de personalidades, narrativas que me envolveram em vários processos da vida e, sobretudo, são também reflexões sobre o amor, a morte, a paixão, a traição, sobre esse mundo contemporâneo, a vulgaridade predominante, as desilusões e as ilusões. É o corte na vida minha e na vida coletiva. Acredito, sinceramente, que só posso escrever se assumo de verdade uma voz coletiva. Não sou só eu como escritora, eu sou a língua e sou as pessoas que usam a língua e sentem através da língua, porque a língua é um repositório de sentimentos. Então é um livro que tem em pauta quem nós somos, o que estamos fazendo, o que pensamos, o que sentimos. As emoções são muito concretas, muito mais do que a gente pensa. Embora cada um fale das emoções de uma forma privada, elas, por consequência, contaminam os vizinhos porque terminam sendo uma emoção comum a todos. O livro não é o que se convenciona dizer “a memória”. Mas claro, quando terminar a leitura você vai saber muito mais de mim porque estou inserida neste mundo.

Em determinado trecho, a senhora diz que a escrita são “mentiras versadas sobre o papel”. Como?

Toda escrita, qualquer escrita, mesmo a dos advogados, é.Você escreveu, você alterou. Você escreveu, você emendou. Você escreveu, você dá sua própria versão. São leituras, versões que têm sua dose irrenunciável de invenções privadas. Mas tem legitimidade porque é o que eu vi naquele momento da minha vida.

A morte é presença constante. Sempre foi?

Não. Com a idade isso aparece. A idade e a experiência fazem você perceber a finitude humana. E destaca também como somos maldosos porque, de modo geral, muito da nossa arrogância advém da crença de que somos imortais. De repente, você se dá conta de que é mortal e não tem razões para qualquer arrogância, que a vaidade é uma futilidade e que, meu Deus, o teu destino é aquele comum a todos, aquele que nos nivela, o que é muito bom. Minha mãe, quando eu era menina, tinha um gesto magnífico, educativo: ela abria a palma de uma mão e repetia três vezes. Ela se referia a sete palmos, era a medida do caixão. Fazia isso para eu não ser vaidosa demais. Ela tinha pavor da vaidade que prejudicava os relacionamentos humanos. É a arrogância: ela é  responsável por desacatos, desafetos, humilhações sociais, injustiças profundas.

Você acha que isso está pior hoje?

O que eu percebo é que há uma exacerbação da vaidade pessoal através do consumo e tudo vai gerando uma indiferença social. Você transfere para os objetos, para o consumo, os seus valores. E você não tem tempo para os valores profundos porque seu cotidiano é ocupado por banalidades, mais do que nunca. Não há tempo para ser profundo, se aprofundar. Não quero dizer que o jovem tenha que ser profundo, mas ele tem que já palmilhar o caminho do aprofundamento. O jovem deveria ser aquele revolucionário, aquele que cobra justiça. Você vê gestos exaltados, mas ainda afastados da noção de justiça social. Estamos em um momento em que a utopia coletiva ou individual não está ganhando realce.

A senhora está preparando um novo livro. Não pensa em parar de escrever, conforme ameaça em Livro das horas, certo?

A criação é uma paixão ininterrupta minha. Na verdade, eu poderia estar muito mais tranquila. Mas não! Ai de mim sem a criação literária, sem essa paixão pela música, pela vida, pela leitura, pelo outro. Agradeço a Deus que tenho energia de olhar o outro nos olhos e deixar que o outro me  examine sem eu temer o seu exame. É um patrimônio que tenho e acho que outros têm também. Então sou inteira.
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