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Versos de Mario Quintana ganham nova roupagem com a publicação das obras

Liberdade condicional poderás ir até a esquina comprar cigarros e voltar ou mudar-te para a China - só não podes sair de onde tu estás. Mario Quitana

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postado em 10/09/2012 16:35 / atualizado em 12/09/2012 13:55

De velhinho doce e angelical, Mario Quintana tinha pouca coisa. O jeitinho, talvez. O caminhar e o rosto cativante, de olhos grandes e sorriso de lagartixa. E só. Porque quando Quintana se apossava da caneta para riscar versos no papel, gostava era do deboche, da ironia inteligente, da postura zombeteira. E antes de ser o velhinho cuja presença constante nas Feiras do Livro de Porto Alegre encantava os gaúchos, era um jovem muito semelhante ao velho poeta morto em 1994, aos 88 anos. “O fato é que nunca evoluí. Sempre fui eu mesmo”, confessou, certa vez, ao ser questionado sobre sua suposta evolução poética da lírica parnasiana ao modernismo (muito contestada, aliás). Talvez fique mais fácil comprovar a afirmação a partir de agora.

Sob a coordenação de Ítalo Moriconi, a Alfaguara reedita, até 2014, 17 livros do gaúcho de Alegrete. A empreitada começa com três volumes. Canções reúne os três primeiros livros do poeta: Canções, Sapato florido e A rua dos cataventos. Quintana começou a escrever antes da adolescência, mas só publicou o primeiro livro aos 34 anos. A rua dos cataventos é um conjunto de 35 sonetos contemplativos nos quais o poeta reflete sobre seu próprio ofício. Canções e Sapato florido vieram, respectivamente, em 1946 e 1948.

Os outros dois volumes nasceram nos anos 1970. Apontamentos de história sobrenatural, publicado em 1976, e A vaca e o hipogrifo, de 1977, marcam a metade da vida produtiva do poeta, uma escolha deliberada e uma tentativa de enfatizar os versos de um autor mais maduro, porém não menos sedutor. “Eu queria colocar um pouco de foco sobre o Quintana já velho porque ele se manteve num nível. Valorizaram-se muito os primeiros livros dele”, explica Moriconi. O calendário de reedições sempre vai trazer um livro do início da carreira e um pós anos 1970. “Quintana explodiu mesmo nessa época. Ele já era um grande poeta, consagrado, mas quando Rubem Braga e Paulo Mendes Campos fizeram a antologia dele, o colocaram num patamar alto. Ele estava publicando pouco na época e nos anos 1970 foi muito presente devido a esses lançamentos. Acho que tem algo na poesia daquela década que representou uma retomada de certo lirismo irônico ou sentimental, elegíaco, como era a poesia do Quintana.”

Cada livro vem com prefácio assinado por escritores convidados por Moricone. Para A vaca e o hipogrifo, Antonio Carlos Secchin tenta decifrar os personagens do título por meio da análise dos versos. “A poesia de Quintana jamais é afobada”, escreve. O livro—14º publicado pelo gaúcho seria uma amostra perfeita do quanto o estilo do gaúcho é “enganosamente fácil”. Apesar das palavras comuns e da informalidade, o poeta experimenta. E faz isso de maneira muito discreta

Personalidade
Para Apontamentos de história sobrenatural, a também gaúcha Cíntia Moscovich volta aos tempos de faculdade para lembrar um episódio muito significativo da personalidade do autor. Durante um debate, Quintana colocou lado a lado o bom humor e o desprezo pela intelectualização da própria obra. Às perguntas sobre o sentido dos versos, respondeu: “Tenho que confessar que nunca pensei em uma das coisas que vocês falaram aí. Eu só faço uns poemas, nunca quis dizer nada além disso.” A postura debochada ficou na memória de Farbício Carpinejar. Filho do escritor e poeta Carlos Nejar, ele lembra de um Quintana velhinho andando aqui e ali em visitas à família. “Ele era um dos melhores aforistas do Brasil. Tinha uma capacidade imbatível de conciliar os contrários, de provocar. Era um irlandês gaúcho, uma alma extremamente viperina, e gostava de deixar o interlocutor sem palavras. Se alguém pergunta ‘o que tu quis dizer com o poema’, é que um dos dois é burro”, avalia Carpinejar. “É o poeta mais popular do Brasil, o que mais pensou e falou sobre a poesia. Ele se converteu em personagem de si mesmo: não fala do feirante, do balconista, não, é sempre ele. Por isso é tão festejado pelos poetas.”

Doce ironia
Quintana era muito reservado, mas cultivava boas e sólidas amizades. Frequentava a casa de Érico Veríssimo com alguma liberdade e zombava de Mafalda, mulher do amigo, quando ela desandava a tricotar-lhe pares de meias de lã. Provocava a amiga com comentários do tipo “acho que a Mafalda pensa que eu sou uma centopeia”. O escritor Luis Fernando Veríssimo lembra direitinho de cenas engraçadas que entraram para a lista de anedotas familiares. “Certa vez, ele ia sentar numa poltrona em que alguém deixara um chapéu. Todos gritaram: ‘Mário, olha o chapéu!’ ‘Ah’, disse ele, ‘pensei que fosse um gato’. Outra vez eu lhe dei uma carona e ele teve alguma dificuldade para descer do banco de trás do carro. Disse: ‘Como a gente tem perna, né?’”, conta Veríssimo.

“Ele gostava muito do Rio,mas o que mais gostava era de entrar em túneis, onde, segundo ele, ‘a gente descansa um pouco da paisagem’. Sua poesia era simples e lírica, mas tinha alguns mergulhos profundos. E a sua prosa era cheia de sacadas e epigramas. Era um grande humorista.” Poesia simples e lírica, mas nunca fácil. Para Moriconi, o termo é pejorativo e totalmente inadequado para descrever os versos de Mario Quintana. “É muito enganador achar que o Quintana saía por aí inventando poemas a cada 10 minutos. Ele é um poeta que constroi a simplicidade. É uma simplicidade conquistada, conseguida. Não vejo Quintana como um poeta fácil.Vejo como um poeta lírico, essencial, que busca a simplicidade como forma de fazer um contraponto ao que seria a erudição.” A erudição—ou a intelectualização da escrita —, Quintana deixava para as crônicas publicadas em jornais e revistas. E aí, não poupava o leitor. Uma amostra estará em Caderno H, a ser reeditado em 2013.

Memória

Recluso e lírico

Filho de comerciantes, Mario Quintana nasceu em Alegrete e foi para Porto Alegre aos 13 anos. Trabalhou na farmácia da família e na editora gaúcha Globo antes de começar a escrever uma coluna para o Correio do povo. Não casou nem teve filhos. A vida espartana era uma marca do poeta. Durante 12 anos, Quintana morou em um quarto do Hotel Majestic, transformado em Casa de Cultura Mario Quintana em 1983.

Quando o Correio do Povo fechou as portas e o poeta ficou sem salário, morou de favor em hotel de propriedade do jogador Paulo Roberto Falcão. Mais tarde, uma amiga conseguiu um quarto definitivo em outro hotel. Quintana cultuou algumas musas, entre elas a atriz Bruna Lombardi. Foi o poeta quem incentivou a atriz a escrever. Foi candidato à Academia Brasileira de Letras por três vezes, mas nunca conseguiu votos suficientes. No início da vida, era muito recluso, mas a partir da década de 1970 seu nome galgou escadas na pirâmide da literatura brasileira e o poeta passou a aparecer mais em eventos.

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