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Imagens perturbadoras da América

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postado em 12/09/2012 12:32 / atualizado em 12/09/2012 13:09

Nahima Maciel

O realismo da fotografia perturba, mas também revela. E quando as lentes apontam para a América Latina, nem sempre emergem revelações agradáveis. Foi o que constataram as curadoras Rosina Cazali e Laura Terré ao montarem Peso e leveza, exposição que movimentou o PhotoEspaña de 2011 e agora chega ao Instituto Cervantes em versão integral para fazer um pequeno mapeamento da produção fotográfica abaixo do Equador. Com temas que transitam entre a violência e o humanismo, 15 artistas se encarregam de desenhar cenários comuns aos países latino-americanos e discutir situações que afligem as sociedades de praticamente todas as nações do continente.

 


O crescimento econômico e a tranquilidade dele decorrente convivem com tragédias sociais herdadas de décadas de pobreza e de condições históricas que têm a exploração colonialista como origem. São extremos capazes de alimentar a bipolaridade vivida pelos povos latino-americanos, tema tratado nas imagens com muita espontaneidade, crítica contundente e certa crueza. “Na América Latina, a realidade é tão urgente e premente que a fotografia segue sendo uma ferramenta necessária, forte”, escreve Laura no texto do catálogo editado pelo Cervantes para o PhotoEspaña. “No entanto, assim como em qualquer lugar e momento, a fotografia não pode mudar o mundo: as fotos, por mais lúcidas e precisas que sejam em suas descrições, não podem diminuir a dor dos que sofrem.”

 

Mas podem impactar, já que, como lembra Rosina, o excesso de realidade se parece cada vez mais com uma falta de realidade. “Foi interessante ver como há uma preocupação bastante generalizada com a violência na fotografia da América Latina. Por outro lado, também encontramos fotos que tratam de nos indicar outras vias de compreensão da sociedade no panorama latino-americano. É um contraponto, por isso a exposição se chama Peso e Leveza”, explica a curadora. Estão em Peso e leveza 73 fotografias realizadas por três mexicanos, três brasileiros, um nicaraguense, cinco argentinos, dois venezuelanos e uma colombiana. Veja alguns dos trabalhos mais fortes da exposição.

 

 

 



Pedro Linger (Argentina)
O fotógrafo acompanhou a exumação das vítimas de um massacre ocorrido em 1981 em El Salvador. As Forças Armadas assassinaram 800 civis, boa parte mulheres e crianças, e foi preciso uma Comissão da Verdade para conseguir encontrar e restituir os restos às famílias. Linger fotografou em preto e branco o trabalho de exumação, mas são imagens como as das roupas das vítimas, especialmente das crianças, as mais fortes do ensaio.

Pedro Motta (Brasil)
Permanência e transitoriedade marcam as fotografias do mineiro que investiga paisagens urbanas e rurais em busca de construções deixadas pelo homem e carregadas de alguma simbologia. Motta gosta de isolar seus objetos do contexto para explorar as possibilidades de expansão da realidade: nas imagens, não há tempo ou arredores. Para Peso e leveza, as curadoras selecionaram uma série de registros de caixas d’água.

Juan Toro (Venezuela)
Em um único dia, a violência é capaz de fazer 75 vítimas na periferia de Caracas. Juan Toro segue os rastros de sangue para registrar uma estatística mórbida conhecida de 100 mil famílias desmembradas pela morte nos últimos 12 anos. Algumas imagens de Toro são explícitas, outras escondem os corpos e substituem as vítimas mutiladas por suas carteiras de identidade apresentadas pela própria família.

José Luis Rodriguez Maldonado (Colômbia)
» A realidade da Colômbia, acerca de deslocamentos de populações, é dramática. Devido à violência gerada pelo tráfico de drogas, 3 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas para fugir da morte. Maldonado fotografou alguns desses refugiados nas ruínas que, um dia, lhes serviu de casa e referência na região de Mampujam, uma comunidade devastada pela violência paramilitar.

Myriam Meloni (Argentina)
Para a fotógrafa, nome emergente no panorama da fotografia Argentina, o crack é um legado da crise econômica de 2001 que hoje contabiliza baixas preciosas na sociedade portenha. Segundo Myriam, 200 crianças morrem por mês em decorrência do uso da droga, um dos sintomas mais evidentes da miséria das periferias das grandes cidades latino-americanas. Com a câmera, Myriam visita a Vila Miseria, maior favela de Buenos Aires e centro de consumo intenso de crack.


PESO E LEVEZA
Fotografia latino-americana. Curadoria de Rosina Cazali e Laura Terré. Abertura hoje, às 19h30, no Instituto Cervantes (707/907 Sul). Visitação até 20 de outubro, de segunda a sexta, das 11h às 21h, e sábados das 9h às 14h. Classificação indicativa livre.


Duas perguntas/ Laura Terré

O que guiou a seleção dos trabalhos na mostra?
A ideia foi apresentar um mapa das inquietações dos fotógrafos e das realidades que eles procuram. Não nos preocupamos muito com seus currículos ou se eram conhecidos, e sim com suas motivações, sua honestidade, o compromisso com sua obra e com a realidade, assim como o processo iniciado com os trabalhos e as conclusões a que chegavam com as séries fotográficas. Acompanhamos a evolução desses artistas ao longo do ano e comprovamos que suas obras estavam muito vivas. Eles ganharam prêmios internacionais, publicaram livros e fizeram exposições, o que demonstra o interesse de sua obra para além dessa coletiva.

O que mais perturba nas imagens?
A violência. Mas não quisemos evitar a visão de certas realidades, por mais perturbadoras que elas fossem. Por mais que tratássemos de ocultá-las, elas ainda estariam aí. As imagens impressas nessas fotografias nos perseguem e nos ferem. Susan Sontag disse, em seu último ensaio sobre fotografia e violência (Diante da dor dos outros) que devíamos nos permitir que essas fotografias nos perseguissem. Não devemos virar a cabeça  nem ignorá-las. E diante da tentação de nos deixarmos intimidar, de bloquearmos a perplexidade que a violência produz em nós, temos que fazer uma autoanálise e nos perguntarmos até que ponto essa realidade nos diz respeito, até que ponto somos responsáveis pela injustiça, até que ponto ignoramos sua existência e, sobretudo, quais são suas causas.

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