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O palhaço sempre vivo

5ª Mostra Zezito de Circo homenageia o mestre cearense que alegrou os picadeiros do Distrito Federal durante 15 anos

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postado em 14/09/2012 08:00 / atualizado em 13/09/2012 13:36

Desta vez, o respeitável público de Brasília pode se orgulhar em vestir o nariz de palhaço. De hoje ao dia 23, sete cidades do Distrito Federal acolhem a 5ª Mostra Zezito de Circo, um cardápio com mais de 30 atrações circenses, gratuitas e de classificação livre para todos os públicos. Shows, debates e oficinas entram no circuito e mobilizam 150 artistas do segmento em homenagem a um dos maiores mestres da palhaçaria do Brasil, José André dos Santos, o Zezito.


O espetáculo Mateus da Lelé Bicuda, clássico circense encarnado pelo mamulengueiro Chico Simões — discípulo direto de Zezito — dá partida na programação, às 17h, na Rodoviária do Plano Piloto. Figuras tradicionais da cultura popular brasileira, como o bumba meu boi, o guerreiro e o pastoril aparecem no jogo do brincante Mateus, palhaço coringa que brinca com o público sem texto pronto e decorado, no melhor espírito circense. “Zezito tinha a lógica da colaboração, não da competição. Tudo o que aprendia repassava pra gente de forma generosa. Era um menino sábio, dessa sabedoria intuitiva. Com quem a gente aprende só em estar perto”, lembra Simões.


Mais tarde, às 18h, um cortejo animado pela Escola de Samba Acadêmicos da Asa Norte parte da Rodoviária até o Complexo Funarte, palco central da programação. Lá, acontecem uma mesa de debates — reflexão sobre o papel cultural do circo — e a projeção do vídeo de abertura, para só então, às 21h10, subir ao palco o grupo Circondríacos (RJ), com o espetáculo O destino das flores.


Entre o leque de opções, destacam-se grupos tradicionais e velhos conhecidos dos apreciadores do humor refinado, como o Circo Teatro Udigrudi, que apresenta Ovo, trabalho desenvolvido pela trupe em 2003. Em cena, três homens encontram um cenário tomado por lixo e transformam os entulhos em instrumentos musicais. As apresentações na Funarte se encerram com outra presença marcante: Felinda, espetáculo apresentado pela família circense Carroça de Mamulengo, encabeçada por Carlos Gomide e Schirley França. Criada em Brasília, a trupe circula pelo Brasil há 35 anos.

Respeito Outras duas apresentações têm valor inestimável: Brincadeiras de circo, de um dos filhos de Zezito, o Mangaba, com o Circo da Boa Vontade, e a participação do Circo Boneco e Riso, liderado por Rosineide de Nazaré, viúva de Zezito, que atua como palhaça com as três filhas em Esquetes circenses. Nesta edição, no entanto, Rosineide aponta falta de “consideração” e “até de respeito” da produção da mostra quanto à visibilidade da família Zezito. “Carregamos o nome do grupo fundado por ele e estamos completamente escondidos na programação”, lamenta.


Para marcar a diversidade, o show de Ellen Oléria Power Trio, à meia-noite de amanhã, também na Funarte, reforça a programação. Enquanto isso, oficinas práticas de palhaçaria, trapézio e malabares já estão com as inscrições abertas e convidam o público a participar. Essa profusão de atividades artísticas era uma das missões do mestre Zezito, morto em 2006, por problemas no coração. “Ele cuspia fogo, fazia de tudo. Zezito tinha esse problema cardíaco porque um jipe passava por cima do peito dele durante os números, imagine”, lembra Laura Cavalheiro, presidente da Cooperativa Brasiliense de Teatro e Circo, com sede na 709 Sul.


Antes, a cooperativa não tinha “circo” na alcunha. Atualmente, cerca de 30% dos cooperados são da área circense. A vontade de Zezito ganha vigor a cada ano, desde que fundou o grupo Circo Boneco e Riso em Águas Lindas (GO), para ensinar técnicas como monociclo, perna de pau e acrobacias a jovens carentes, sendo ele mesmo um homem de poucos recursos financeiros.

"Nasci em Brasília, mas nos conhecemos em Juazeiro do Norte (CE), quando comecei a viajar o Brasil de carona. Lá encontrei o mestre Zezito, mas ele nem brincava mais. Zezito consertava panelas. Já tinha desistido do circo, de tão abandonado que estava, culturalmente. Foi a convivência com a gente, comigo e Carlinhos Babau, que fez com que ele voltasse a brincar. Isso em 1986, por aí, e então ele veio para Brasília, ficou lá em casa, e foi quando criou condições de crescer e comprar seu lugar. Zezito atuava com a percepção de que o que fazemos é maior do que nós. Isso é uma condição que só os mestres têm: o que faz está além de si”

Chico Simões,
palhaço e mamulengueiro do Mamulengo Presepada

 

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