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O dracma num horizonte de presságios

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postado em 17/09/2012 17:11

Lázaro Guimarães, magistrado e professor (jalz@uol.com.br )

 

Cem anos atrás, Sérvia, Bulgária e Grécia expulsavam a Turquia da Península Balcânica e derramavam a pólvora que, em 1914, sob pretexto de vingança ante o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono da Áustria, seria o estopim da Primeira Guerra Mundial, aquela que produziria efeitos tão devastadores que iriam desencadear, em 1939, uma Segunda Guerra e a mortandade de dezenas de milhões de seres humanos, militares e civis, marcando o Século Breve, o mais sangrento da história, de que trata Eric Hobsbaum. O Império Otomano, em decadência, receberia, então, o apoio do rei prussiano Guilherme II. França, Inglaterra e Rússia reagiriam à invasão da Sérvia e da Polônia, depois os Estados Unidos interviriam para impedir que a Alemanha emergisse como superpotência. Foram terríveis os efeitos da carnificina.


Hoje os papéis se invertem. As companhias norte-americanas começam a tomar providências para a eventual retirada da Grécia, berço da civilização ocidental, do sistema monetário criado como meio de consolidar a União Europeia, comunidade que no pós-guerra surgiu para impedir de uma vez a erupção de conflitos entre as outrora mais poderosas nações do planeta.
O Bank of America Merrill Lynch, segundo o New York Times, está se preparando para encher caminhões de notas de euros para distribuir entre os clientes nas fronteiras da Grécia, de modo a que possam continuar a pagar os empregados e fornecedores na hipótese de desmonetização. A Ford também está configurando seus computadores para o imediato reconhecimento de um novo padrão monetário grego. O JP Morgan, por sua vez, criou uma conta para administrar os recursos dos investidores gigantes na eventualidade do ressurgimento do dracma. Na mitologia, essa era uma oferenda à deusa Íris, representada no arco-íris. A moeda, então a mais antiga do mundo, desapareceu em janeiro de 2002, mas parece ressurgir no horizonte de uma Europa em crise.

Perto daquela situação econômica explosiva, desenrola-se episódio verdadeiramente ameaçador. O Irã apresenta sinais inquietantes de que atinge a etapa final para produção e uso de armamentos nucleares. A antiga Pérsia foi palco de batalhas decisivas para o futuro da humanidade, desde a conquista por Alexandre, depois o domínio do Império Otomano, mais tarde a divisão imposta pelos aliados de 1939-45.

Israel reage e ameaça destruir os arsenais iranianos. Estes têm a proteção da Rússia e da China, grandes parceiros comerciais do Irã, que estende influência política e econômica à América Latina, onde o regime de Teerã está fortemente aliado à Venezuela, à Bolívia e ao Equador.

O presidente Barack Obama, dos Estados Unidos, anuncia para o fim deste mês ação preventiva da Marinha norte-americana no Golfo Pérsico, a pretexto de exercícios militares, especialmente de defesa antimíssil, com a finalidade conjunta de dissuadir o presidente Mahmoud Ahmadinejad da corrida armamentista e de acalmar o governo israelense.

O governo norte-americano está ultimando, para implantar nos próximos meses, um sistema de radar em Qatar que poderia combinar os equipamentos já instalados em Israel e na Turquia para formar amplo arco de cobertura antimíssil. A mensagem ao Irã seria, conforme The New York Times, a de que ainda que desenvolvesse armas nucleares, elas seriam paralisadas por antimísseis.

Mesmo assim, os assessores de Obama aconselham uma atuação mais enérgica, com a advertência pública de que os Estados Unidos adotariam ação militar no caso de o Irã adquirir poderio nuclear. Recentemente, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu parecia criticar Obama por ser muito vago a respeito dos limites toleráveis para os passos de Teerã. Disse o dirigente israelense: "A comunidade internacional não está definindo para o Irã limites claros, e o Irã não vê determinação para parar o seu projeto nuclear".
Já não se enxerga um arco-íris no horizonte. São nuvens carregadas que se aproximam, mas desta vez com poder de destruição imensamente maior.

 

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