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Tradição à prova

Mostra começa hoje e promete ser uma das edições mais polêmicas nos 47 anos de existência

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postado em 18/09/2012 08:00 / atualizado em 17/09/2012 12:28

Felipe Moraes , Yale Gontijo

O numeral não deixa dúvidas quanto à história de resistência do mais antigo festival cinematográfico do país. A realização da 45ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro que começa hoje com a exibição, somente para convidados, do longa-metragem brasiliense A última estação, de Márcio Curi, indica a longevidade do evento iniciado em 1965 e somente interrompido por três anos durante a ditadura militar.


Conhecido por reunir combatentes entre cineastas, artistas e espectadores, é de se lamentar que justamente a 45ª edição ganhe uma comemoração módica e afastada de algumas das tradições do festival. Foi preciso fazer cortes no orçamento por falta de patrocínio, redução de custos com equipe de produção e outras despesas administrativas. “Tivemos de terceirizar serviços e abrir licitações de última hora. Alguns gastos com decoração, por exemplo, também precisaram ser cortados”, resume o diretor do festival, Sérgio Fidalgo.


Longe do templo cinematográfico que lhe serve como casa (as obras do Cine Brasília não foram concluídas a tempo), o Festival de Brasília levará espectadores, jornalistas e profissionais da área cinematográfica a enfrentar uma maratona penosa. A nova configuração da mostra competitiva, dividida entre ficção, documentário e animação, será formada pela apresentação de três curtas-metragens e dois longas (um documental e outro ficcional) durante as noites de competição na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. A projeção noturna será feita simultaneamente em Taguatinga, Ceilândia, Sobradinho e  Gama.


Somando o tempo dos discursos, apresentações no palco e considerando a pontualidade uma utopia, as sessões competitivas poderão durar de quatro a cinco horas, iniciando a partir das 19h. Cinéfilos mais dispostos poderão acrescentar sessões vespertinas das mostras paralelas (Panorama Brasil, UnB e o Cinema e Brasília 5.2 — Cinema e Memória — É tudo verdade) e Mostra Brasília (este ano reduzida a dois dias de realização no sábado e domingo, na Martins Pena).
 
Histórias de vida

Este ano, a comissão do festival preferiu assistir a apenas filmes inéditos, retomando o critério de seleção antigo e abandonado pela organização do festival em 2011. Em todas as mostras competitivas (agora no plural), o que se apresenta são títulos autorais assinados tanto por cineastas em começo de carreira quanto veteranos, como Lucia Murat, apresentando o carioca A memória que me contam, e Joel Pizzini, com a cinebiografia do cantor Ney Matogrosso, Olho nu, na disputa entre documentários.


A mostra competitiva ficcional ficou dividida meio a meio entre representantes do estados do Rio de Janeiro e Pernambuco. Noite de reis, de Vinicius Reis, e Esse amor que nos consome, de Allan Ribeiro, são os dois outros títulos do Rio, além do novo filme de Murat. O diretor brasiliense/pernambucano Marcelo Lordello retorna a Brasília para apresentar a primeira ficção em longo formato, Eles voltam. Estreando na direção de um longa-metragem, Daniel Aragão defende Boa sorte, meu amor, enquanto Marcelo Gomes estreia o terceiro longa da carreira: Era uma vez eu, Verônica.


A competitiva de longas documentários centra-se quase toda em histórias de vida individuais, a começar pelo paranaense Um filme para Dirceu, de Ana Johann, selecionado para abrir a disputa documental amanhã. Elena, de Petra Costa, narra a busca da própria diretora pela irmã atriz, que se mudou para Nova York; enquanto a produção piauiense Kátia (de Karla Holanda), narra a vida da vereadora Kátia Tapety, primeira transexual eleita no Brasil. O realizador mineiro Cao Guimarães registra o desenvolvimento de outra vida durante o processo de gravidez e nascimento do primeiro filho em Otto. O curioso caso do diretor pernambucano Gabriel Mascaro é a dupla presença entre os selecionados das competitivas de documentários. Mascaro assina a direção do longa Doméstica e do curta A onda traz, o vento leva.

De volta à estrada
A princípio, Márcio Curi não queria dirigir A última estação, o filme que abre a 45ª edição do festival. Até então, tinha nos créditos de direção somente A TV que virou estrela de cinema (1993), correalizado por Yanko del Pino. O motivo? Desde 1967, acumula longa e frutífera experiência como produtor e, para esse novo projeto, movido pelo roteiro de Di Moretti (do brasiliense Simples mortais e do recente documentário Tropicália), aceitou inscrever-se como diretor apenas para facilitar a inclusão do filme em editais.


Em 1993, época da crise da Embrafilme, ele ficou “desgostoso com a experiência”. “Tinha tirado da cabeça a ideia de dirigir filmes”, completa. Mas, ao longo do processo, por conta da “insistência da equipe”, ele cedeu. Voltou atrás, buscou preparação e, em setembro de 2010, retornou a um set de filmagem com segurança suficiente para dirigir histórias inspiradas em imigrantes libaneses que vieram para o Brasil a partir dos anos 1950.


Curi, descendente de libaneses — seu avô veio para cá em 1904, mas a família nunca mais voltou para o Mediterrâneo —, escalou como protagonista o ator e também diretor Mounir Maasri, nascido no Líbano e que vive em Brasília há mais ou menos um mês. Maasri interpreta Tarik, que desembarcou no Brasil há décadas, ao lado do caçula Karim. Em 2001, após perder a esposa, decide viajar pelo país com a filha Samia, para reencontrar os amigos que fez na jornada de 50 anos atrás. Integram o elenco Elisa Lucinda, Klarah Lobato, Chico Sant’Anna e outros nomes.


O filme teve locações em Santos, Anápolis, Brasília, Ilhéus e Belém, além de Paulínia, que entrou com o financiamento do polo de cinema — antes do cancelamento, havia negociação para que o longa abrisse o festival daquela cidade paulista. Os dois segmentos rodados no Líbano foram fechados graças a parceria com um a produtora libanesa. “Fui o primeiro da família a retornar para lá. Uma experiência de resgate pessoal muito grande. Não que tenha interesse em retomar uma identidade libanesa. Mas é bom conhecer profundamente suas próprias raízes de identidade brasileira”, diz.

45º FESTIVAL DE BRASÍLIA  DO CINEMA BRASILEIRO
De hoje a 24 de setembro, no Teatro Nacional Claudio Santoro. Sessões competitivas de documentários, a partir das 19h. Sessões competitivas de ficção e animação, a partir das 21h. Ingressos:
R$ 6 e R$ 3 (meia). Hoje, abertura com concerto da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro e exibição do longa-metragem A última estação, de Márcio Curi. Somente para convidados. Verifique a classificacao indicativa dos filmes no roteiro do caderno Diversão & Arte.

 

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