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Para quem tem fôlego

Começou a maratona. Festival é aberto hoje com apresentação de cinco filmes em sequência na mostra competitiva. Destaque são Eles voltam e Um filme para Dirceu

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postado em 19/09/2012 08:00 / atualizado em 18/09/2012 10:50

A proximidade entre o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e a produção cinematográfica pernambucana contemporânea não é exatamente nova. A relação, baseada em elogios, críticas, afeições e desafetos revelou Baile perfumado (de Paulo Caldas e Lírio Ferreira), filme-marco de final dos anos 1990 e consagrou Amarelo manga e Baixio das bestas, ambos dirigidos por Claudio Assis e apresentados aqui durante os anos 2000. Portanto, não é assim tão surpreendente que a seleção da 45ª edição sirva como panorama da produção cinematográfica recente do estado de Pernambuco, inclusive com a exibição de O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, na mostra paralela Panorama Brasil, no próximo sábado.

Entre os 30 concorrentes nas mostras competitivas, divididas entre documentários (curtos e longos), ficções (curtas e longas) e curtas-metragens de animação foram incluídos oito títulos daquele estado. A primeira noite competitiva. O documentário Câmara escura, de Marcelo Pedroso abrirá a disputa, com exibição marcada para as 19h, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional, Teatro Sesc Newton Rossi Ceilândia, Teatro de Sobradinho, Teatro Paulo Autran Sesc Taguatinga e Teatro Sesc Gama. Na sessão das 21h, em que competem os filmes ficcionais, o curta-metragem Canção para minha irmã, de Pedro Severien, e Eles voltam, de Marcelo Lordello, também são produções daquele estado.

O primeiro filme de ficção da carreira de Lordello narra a história de dois irmãos abandonados no meio da estrada pelos próprios pais. É descrito no material de divulgação como uma “fábula de tons realistas” por desenvolver trajetória de difícil aceitação. “O filme é bem realista mesmo por mais que a sinopse dê alguma sugestão de um lado ‘surreal’. Não existe a vontade de discutir gêneros cinematográficos, a situação que os personagens se envolvem é que é tensa por natureza”, explica o diretor.

Nascido em Brasília e morador de Recife desde os 12 anos, Lordello é cineasta acostumado a construir atmosferas difusas por meio de acontecimentos aparentemente banais. Foi assim com Nº 27, curta-metragem apresentado no Festival de Brasília em 2008. A discussão sobre segurança urbana era a tônica do documentário Vigias, um dos concorrentes ao troféu Candango de melhor filme em 2010, relacionando questões de classe social no registro cotidiano de vigias noturnos de prédios residenciais em Recife. No novo filme, porém, o realizador preferiu intensificar o laboratório com experiências que já faziam parte do trabalho como diretor. “Diria que o que acompanha é a pesquisa dramatúrgica. O trabalho com não atores e personagens com um sentimento de causa. Isto já estava em desenvolvimento desde Nº 27”, discorre o cineasta.

O pedido
Era um dia comum de trabalho na vida da diretora Ana Johann quando o telefone da produtora Capicua Filmes (Paraná) tocou. Era um pedido estranho feito pelo músico Dirceu Cieslinski, interessado em ter sua própria vida retratada em um filme. “Ele me ligou perguntando quanto custava para fazer um filme tipo Dois filhos de Francisco. Expliquei que não era bem assim, era preciso um roteiro, recursos, atores e dinheiro. Marcamos uma reunião”, relembra Ana.

O primeiro encontro entre os dois pode ser descrito como troca de expectativas díspares. “Ele queria fazer um filme de ficção com os amigos, mesclando cenas documentais da vida dele. Sugeri que fizéssemos um documentário. Comecei a conhecer a vida do Dirceu, ele me ligava o tempo todo para contar episódios. Comecei a incorporar os telefonemas como linguagem, gravei as ligações, virei uma personagem do filme”, admite Ana sobre a inclusão de si mesma em Um filme para Dirceu, primeiro longa-metragem que abre a mostra competitiva de documentários, hoje, às 19h.

Cieslinski, gaitista sertanejo com dificuldade de locomoção desde os 17 anos, arrecadou boa parte do dinheiro necessário para a produção que narra a própria vida e carreira em tramas entrelaçadas na tela e que precisou do acompanhamento constante da equipe durante três anos. “Existem momentos em que a encenação é completamente planejada em várias tramas e subtramas. Acho que conseguimos equilibrar o filme que ele queria fazer com a minha visão também. Além de Brasília, Um filme para Dirceu foi selecionada para o Festival Internacional de Cinema Documentário da Cidade do México que será realizado em novembro.

CURTAS  DO DIA

 Caixas mágicas
O cineasta Marcelo Pedroso não gostaria de revelar a natureza dos negativos do curta-metragem Câmara escura até a primeira exibição que será feita hoje, na competitiva de documentários, às 19h. Por enquanto, discorre sobre um doc colaborativo em que uma equipe de cinema distribui caixas escuras e lacradas com um pequeno orifício para a entrada da luz entre moradores de Recife escolhidos aleatoriamente. As caixas mágicas registraram cenas do cotidiano dos voluntários encadeadas na montagem do cineasta. “A sinopse não traduz com clareza a proposta e isso é intencional. O filme passou a se construir entre a tensão das entregas e a tentativa de recuperar as imagens”, descreve. 

Cicatrizes e emoções
Pedro Severien trabalhava no roteiro de Canção para minha irmã, escrito em parceria com Luiz Otávio Pereira, quando uma terrível enchente atingiu cerca de 30 municípios dos estados de Alagoas e Pernambuco em 2010. As paisagens transformadas pela devastação das águas dos rios da região lembram um cenário pós-apocalíptico apropriado para narrar o sentimento de um presidiário em visita à família. “Não me interessava fazer um filme de denúncia. Existem formas de pesquisar como as pessoas lidam com as emoções após um desastre. A intenção era apresentar a paisagem interior dos personagens. É um filme de cicatriz, de como muda a forma de ver o mundo. O cenário ajuda a expressar esse sentimento”, discorre o diretor.

Cara de metrópole
Imagine um ser bem pequenino responsável por executar o trabalho de tracejar as ruas de uma grande cidade com linhas que separam pistas. A animação Linear, dirigida por Amir Admoni, apresenta os sentimentos desse pequeno ser imaginário misturando as técnicas de stop motion, animação em 2D e 3D. “Sob o ponto de vista de um ser de 2cm, o filme trata da monotonia de tarefas repetitivas, do momento de realização de sua banalidade e da insignificância e anonimato gerados por uma metrópole”, adianta Admoni. Exibição às 21h.

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