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Correio Braziliense

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Choro de rebentos

Fruto da nova geração do cinema pernambucano, Daniel Aragão apresenta o filme Boa sorte, meu amor, enquanto o mineiro Cao Guimarães mostra o documentário Otto, sobre o nascimento do filho

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postado em 21/09/2012 08:00 / atualizado em 20/09/2012 13:07

Yale Gontijo

 

 

A terceira noite das mostras competitivas do 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro será difusa em temáticas e esquemas narrativos. O filme pernambucano que encerra a última sessão, marcada para iniciar às 21h, trabalha polos opostos entre som e silêncio, tradição e modernidade, sertão e metrópole. Boa sorte, meu amor, de Daniel Aragão, fixa-se na relação nada simples entre Dirceu (Vinicius Zinn) e Maria (Christiana Ubach) e nas mudanças ocasionadas por esse encontro. O mundo de Dirceu e Maria é monocromático. Como se também a fotografia de Pedro Sotero operasse em contrastes.

Ele descende da aristocracia latifundiária de Pernambuco e trabalha no ramo da demolição em Recife. Ela é uma pianista também de origem sertaneja vivendo na cidade grande e em busca do sucesso. “A personagem precisava lidar com esse sonho de ser uma grande musicista em uma cidade que lida com valores arcaicos, onde o trabalho é visto de uma forma conservadora e o artista não é valorizado. O personagem masculino se relaciona com demolição, concreto, coisas palpáveis. É sobre duas pessoas que se encontram num certo lugar do passado, com alguma igualdade das relações sociais e lidam com a realidade de formas diferentes”, equilibra Aragão.

Realizado em colaboração com vários artistas cinematográficos de Pernambuco, Boa sorte é um dos exemplos do sistema de produção feito no estado onde muitos coletivos estão em atividade. “Deixamos a vaidade de lado para receber sugestões e críticas. Não sei como era com a geração de cineastas mais antigos, mas acredito que os processos eram mais fechados. É a formação de uma escola de certa forma”, explica Aragão, um dos diretores da nova geração de realizadores de Recife. O longa foi selecionado para participar do 65º Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça, no ano passado.

Cordão umbilical
Otto é ao mesmo tempo o longa-metragem documental e nome do primeiro filho do diretor mineiro Cao Guimarães. O registro da gravidez e do nascimento do rebento mexeu com a prática de um realizador acostumado a envolver seus documentários em atmosferas poéticas — A alma do osso (2004) e Andarilho (2007) — sem abandono total da objetividade. O filme família de Guimarães levou o realizador experiente ao reino da insegurança. “Quase desisti na montagem. Era muito difícil me distanciar. A escritura do filme foi a parte mais difícil de fazer. Num dado momento, resolvi inserir a minha narração em primeira pessoa. Já que não consegui me distanciar, então, que eu entrasse no filme”, revela.

É claro que existem uma cronologia marcada pela própria evolução da gestação e um clímax previsível. O trabalho de parto de Florencia Martínez, um processo de 20 horas dentro do hospital, gerou um registro ora agitado, ora tedioso. “Não foi completamente controlado, não era um ambiente cinematográfico. Várias vezes esqueci-me da câmera, filmei meu pé, o interior do hospital, o momento do parto em si é demorado”, relembra o diretor.

O rebento de Guimarães lembra um dos tesouros do cineasta experimental norte-americano Window water baby moving em que o diretor Stan Brakhage (pouquíssimo visto no Brasil) trabalhou sob o registro do parto natural do próprio filho feito na água.

CURTAS DA NOITE

 

FICÇÃO
Adiretora baiana Gabriela Amaral Almeida, radicada em São Paulo, tem vasta experiência em dramaturgia trabalhando com a Cia Livre de Teatro. No cinema, as pesquisas de linguagem empreendidas pela cineasta miram-se no estudo da linguagem entre gêneros cinematográficos. A escrita do roteiro de A mão que afaga, curta ficcional sobre uma operadora de telemarketing, feito em parceria com o cineasta Marco Dutra (Trabalhar cansa) transita entre mundos. “Os curtas-metragens são interessantes porque nos ensinam a ter concisão de elementos antes de chegar ao primeiro longa-metragem. Porém, não é um trampolim, o formato se basta dentro do cinema. Nesse, trabalhamos com estilhaços de gêneros cinematográficos”, adiantou a realizadora. Exibição às 21h.

 

 

ANIMAÇÃO
O curta-metragem da noite, Gigante, é o único representante de Santa Catarina selecionado para compor a mostra de animação. Dirigido em dupla por Júlio Vanzeler e Luís da Matta Almeida (os dois assinam a direção de arte também), o filme, finalizado em 35mm, é ilustrado por um mundo etéreo e em dissolução, inserido numa narrativa sobre esperança. A equipe do filme também é composta por cinco animadores: Adalberto Bolaino, Thales Macedo, Felipe Ferreira e Ana Tomás.

 

 

DOCUMENTÁRIO
Vem bem a calhar lançamento do do último filme da trilogia dirigida pelo paulistano Thiago Brandimarte Mendonça, A guerra dos gibis (codirigido com Rafael Terpins), no período de encerramento da gestão conservadora de Gilberto Kassab como prefeito de São Paulo. Nos curtas anteriores, Minami, em close-up (2008) e Piove, Il film di Pio (2011), Brandimarte tratou alguns traços da cultura marginal criada na capital paulistana como fenômeno cultural e político marcado pela resistência. "A minha produção  dialoga com a vida nas ruas, que os tratores do poder público se acostumaram a passar por cima", pontua. A guerra narra o combate entre os primeiros editores de quadrinhos eróticos no Brasil frente à censura da ditadura e, depois, as pressões mercadológicas com a entrada de editoras estrangeiras. Exibição às 19h.

45º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO
Hoje, às 19h, mostra competitiva de documentários. Às 21h, mostra competitiva de ficção e animação, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Claudio Santoro, Teatro Sesc Newton Rossi Ceilândia, Teatro de Sobradinho, Teatro Paulo Autran Sesc Taguatinga e Teatro Sesc Gama. Ingressos: R$ 6 e R$ 3 (meia). Verifique a classificação indicativa dos filmes no roteiro do Diversão & Arte.

 

 

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