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Correio Braziliense

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Dança íntima

Uma ode à vida é ponto em comum entre a ficção Esse amor que nos consome e o documentário Elena

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postado em 24/09/2012 08:00 / atualizado em 23/09/2012 17:50


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Não precisa ter iniciação em arte ou em religião. No filme, falamos de sobrevivência e de rotina de vida. Bebo mais da vida, das coisas que vejo, do que do cinema”, conta o diretor Allan Ribeiro, ao tratar de Esse amor que nos consome, último longa de ficção a ser exibido no festival. Sem religião, o carioca, aos 33 anos, passada a criação de nove curtas, retoma a parceria que o havia projetado, há três anos, com Ensaio de cinema, melhor curta digital do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. “O assunto seria quase documental, pelo tipo de cinema proposto. É um tanto parecido com o universo explorado por O céu sobre os ombros (de Sérgio Borges) e Avenida Brasília Formosa (de Gabriel Mascaro). Domino, no bom sentido, os personagens da realidade, inseridos num estrutura de ficção. A gente tem uma relação de cinco anos e sei o que tirar deles na tela”, explica.

Num casamento artístico de mais de 40 anos, os protagonistas de Esse amor… — Gatto Larsen e Rubens Barbot — são conhecidos no cenário de dança carioca. “Eles são da Companhia Rubens Barbot e formam o primeiro grupo afro-brasileiro de dança contemporânea. Antes deles, dança negra era somente folclórica. Ambos não entendem a dança como meramente clássico. É um trabalho de vanguarda, em que o teatro entra”, explica Allan Ribeiro.

Com verba pública apenas para a finalização do longa, que custou menos de R$ 150 mil, o processo incorporou bastidores de montagem teatral. “Apesar do pouquíssimo investimento, a gente fez o filme que queria e até com momentos de glamour. O amor ao que nos referimos no título é o deles com a vida, daquilo que levam com tudo ligado à arte; e ainda simboliza o nosso amor com relação a eles. O filme tem muitas camadas”, observa Ribeiro.

Para além do “gueto de dança”, com coreografias que, na intenção do diretor, “aparecem de forma orgânica”, Esse amor que nos consome incorpora seis números de dança. “É mais história do que dança. Os números chegam por ensaios ou performances ligadas à história dos protagonistas. Não é como um musical em que para tudo e quebra a narrativa. Aliás, quando era mais jovem, assistia, mas achava estranho esse negócio nos musicais”. Na visão do diretor, “o filme não levanta bandeira: mostra os personagens com as crenças religiosas deles”. Tipos “muito carismáticos” estão a postos para se imantarem na trama em que aparecem representações de Iansã, Xangô e Exu (com direito a figurino em vermelho e charutão na boca).

Felicidade clandestina
“Não acredito numa verdade objetiva que norteie documentários. Gosto de pensar nessas obras como ficcionais. Nessa perspectiva é que estão as liberdades narrativas e de expressão. Assim, cai um pouco menos de onipotência do que você vai transmitir, em relação à verdade. Na antropologia, lidamos com dados e retratos subjetivos e, por isso, cai a intenção da realidade objetiva ”, enfatiza a diretora mineira Petra Costa, ao falar do longa Elena. Estudos de antropologia dão um diferencial, segundo ela.

“Deixei o filme me guiar, sem muitas amarras, e ele me levou à interação mais direta. Ele me pediu para eu me colocar em cena. São coisas surpreendentes esses limites que uma obra é capaz de ir te exigindo”, explica a também atriz que, aos 29 anos, acumula quatro anos de vivências no exterior, tendo morado em Londres e Nova York. Foi na cosmopolita cidade norte-americana que ela buscou ânimo e fragmentos de memórias para a composição de Elena. O título sai do batismo da irmã, a princípio, uma feição um tanto incompleta, que, propulsou a criatividade de Petra, num universo de imprecisões e de licenças poéticas.

“Na verdade, a necessidade de conceber o filme veio há uns 12 anos. Fazia um workshop teatral no qual foi proposto exercício que demarcasse meu livro da vida. Remexer no diário da minha irmã, à época em que tinha perto da minha idade, resultou num profundo encontro com ela, a partir de palavras escritas. Lendo, tive a impressão de ler minhas próprias palavras. Me identifiquei muito”, observa.

Registros familiares caseiros, o modelo de vida da irmã e “reflexões mais existencialistas e pessoais” inspiraram uma jornada rumo a Nova York, cidade na qual, no filme, a diretora empreende tentativa de reencontro com a irmã, há anos, afastada. Alinhada à carga em consonância com a de escritos de Clarice Lispector, a realização se moldou em exemplos de “coragem e lições de liberdade” assimiladas no seio familiar. “Todo filme é uma exposição do diretor, assumida ou não. O longa faz parte de mim, então, não consigo me ver como espectadora”, explica.

Realizadores forjados na realidade francesa, Agnès Varda e Chris Marker (morto em julho passado) foram referências assumidas para a produção orçada em R$ 1 milhão. Pelo que nota Petra Costa, a inclusão dos diretores dentro de documentários ganha contornos de humildade, pelo que apontou Marker (“a única coisa que tenho a oferecer sou eu mesmo”).

Reflexões sobre vida, arte e relações amorosas marcam o ponto de transição e de maturidade agregado ao filme. Vale a lembrança de que outros três filmes na disputa seguem a cartilha da participação direta dos realizadores: Otto (em que Cao Guimarães registra a gravidez da mulher dele), Um filme para Dirceu e Doméstica, ambos propostos a partir de pessoas muito próximas aos objetos da narrativa fílmica.

CURTAS  DA NOITE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Incomunicabilidade
Entre limites físicos e o excesso de sensibilidade, o diretor de A onda traz, o vento leva, Gabriel Mascaro (alinhado ainda na competição em longa, com Doméstica), mostra curiosa situação de um funcionário no esquema de instalação de som em carros, privado da perfeita audição. “Houve a possibilidade de construção de uma linguagem sensorial, formada pelo apuro de elementos táteis, corpóreos e gestuais. A força do filme, que fala de incomunicabilidade, está no campo visual”, adianta o diretor pernambucano. Mascaro observa ainda que ele seguiu o caminho inverso do esperado: está no segundo curta-metragem, depois de quatro longas, entre os quais Avenida Brasília Formosa e Um lugar ao sol. 

 

 

 

 

 

 

 

 

Delírios de um papagaio
Também deslocado de um ambiente esperado, o papagaio da animação Destimação (de Ricardo de Podestá), outro título presente na noite de hoje, destoa: encantado por uma caixa de luz, ele parece se descolar do cenário funesto no qual vive. “Trato das relações de carência e de afetividade. Num instinto meio primitivo, a gente tende sempre a ficar abraçado a um bichinho. No filme, carreguei no ambiente de caverna, em que vivem os protagonistas meio animalescos”, conta o realizador goiano Ricardo de Poidestá. Na primeira vinda à mostra competitiva de Brasília, e com o quarto filme realizado, o diretor garante estar com “uma expectativa legal.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entre realidade e sonho
Lidando com o campo da abstração e do lúdico, Menino peixe espia sentimentos conflitantes na vida de uma criança. Fantasias e pesadelos intervêm no cotidiano de Paula, uma menina entregue à situação inesperada, na fita defendida por Eva Randolph. A diretora, que confirma a predileção por cinematografias argentina e romena, é lembrada pela edição do longa de Eryk Rocha chamado Pachamama. “É um drama, um filme de personagem. Num apanhado de várias situações, optei por equilibrar elementos de realidade e de sonho, mas sem dispensar realismo”, explica a diretora, ao falar de Menino peixe.


45º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO
Hoje, às 19h, mostra competitiva de documentários: A onda traz, o vento leva (24min, PE) e Elena (82min, SP/MG). Às 21h, mostra competitiva de ficção e animação: Destimação (13min, GO), Menino peixe (17min, RJ) e Esse amor que nos consome (80min, RJ). A mostra vai até 23 de setembro (domingo), na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Claudio Santoro, Teatro Sesc Newton Rossi Ceilândia, Teatro de Sobradinho, Teatro Paulo Autran Sesc Taguatinga e Teatro Sesc Gama. Ingressos: R$ 6 e R$ 3 (meia). Verifique a classificação indicativa dos filmes no roteiro do Diversão & Arte.

 

 

 

 

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