O guru da esquerda

Morte de Eric Hobsbawm deixa o pensamento político do mundo mais vazio. Autor de obras clássicas sobre o século 20, o intelectual chegou a ser intérprete de Che Guevara e a se especializar em Bertolt Brecht

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postado em 03/10/2012 08:00 / atualizado em 02/10/2012 11:05

Autor da mais importante obra sobre a história do século 20, o inglês Eric Hobsbawm morreu na manhã de ontem em Londres, aos 95 anos. O anúncio foi feito pela filha Júlia, que acompanhou os últimos dias do pai, ao lado dos outros filhos Andy e Joshua e da esposa, Marlene. O historiador morreu no Royal Free Hospital, no qual foi internado com uma pneumonia em decorrência da leucemia contra a qual lutava há anos.

Com olhar atento e comprometido com o marxismo ao longo de toda a vida, Hobsbawm atravessou o século 20 e fez da história um material para reflexão sobre os caminhos trilhados pela humanidade. Nascido em Alexandria, no Egito, em 1917, quando o país era colônia britânica, o filho de judeus poloneses se mudou para Viena ainda criança. Em 1929, após a morte dos pais, foi morar com um tio em Berlim até que a ascensão de Adolf Hitler, em 1933, deu os primeiros sinais da exclusão dos judeus. “Era impossível ficar de fora da política”, disse Hobsbawm em inúmeras entrevistas, ao lembrar da infância na Alemanha. “Os meses em Berlim me fizeram um comunista para a vida toda.”

O historiador se mudou então para Londres e foi estudar na Universidade de Cambridge. Mais tarde se tornaria professor da Birkbeck University, um dos braços da Universidade de Londres. Um certo encanto pelo jazz contribuiu para que aceitasse dar aulas na Universidade de Stanford e na The New School for Social Research, em Nova York. A relação com os Estados Unidos, no entanto, era conturbada pela constante militância comunista e o historiador enfrentava problemas toda vez que precisava pisar em território ianque.

Paulo Calmon, professor do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Brasília (UnB), lembra que um dos grandes méritos de Hobsbawm era transitar entre vários temas da contemporaneidade sempre com uma perspectiva histórica. “Era dessas figuras de intelectuais muito típicas do século 19 e da primeira metade do século 20, mas que se tornam cada vez mais raras no final do século 20”, diz. “Era uma pessoa com conhecimento amplo e enciclopédico de uma série de momentos importantes da história e com a capacidade de refletir criticamente sobre o presente.”

Ideologia

A ligação de Hobsbawm com as esquerdas europeias começou desde cedo com a filiação ao Partido Comunista Britânico em 1936, ao qual permaneceu fiel mesmo após a invasão da União Soviética a Hungria, em 1956, e as constatações das atrocidades cometidas por Josef Stálin, episódios que abalaram o movimento comunista internacional. O historiador só deixaria o partido em 1991, após sua dissolução. Figura controversa, ele declarou que nunca teve a intenção de diminuir os horrores cometidos em nome da ideologia, mas que acreditou, durante os primeiros anos do comunismo, que ali nascia um novo mundo. “Um novo mundo nasceu entre sangue, lágrimas e horror: revolução, guerra civil e fome. Graças ao colapso do Ocidente, nós tínhamos a ilusão que, mesmo sendo brutal e experimental, esse sistema funcionaria melhor. Era isso ou nada”, dizia.

Na autobiografia Tempos interessantes, o historiador se descreve como um comunista polêmico o e capaz de se entender com figuras muito distintas, habilidade resultante de sua própria experiência. “Alguém que não pertence totalmente ao lugar em que se encontra: ora um cidadão inglês entre centroeuropeus, ora um imigrante do continente na Inglaterra, ora um judeu, ora um antiespecialista em um mundo de especialistas, ora uma anomalia entre os comunistas”, escreveu.   

Militância

A obra de Hobsbawm influenciou gerações de intelectuais e pesquisadores ao traçar um perfil completo e aprofundado do século 20. Para muitos historiadores, a tetralogia A era dos extremos é um ponto de partida para se compreender a história moderna. O primeiro volume, A era das revoluções: Europa 1789-1848, foi publicado em 1962 e foi seguido por A era do capital: 1848-1875 (1975), A era do império: 1874-194 (1987) e A era dos extremos: o breve século 20, 1914-1991 (1994). No total, foram 17 livros publicados.

Nos anos 1980, Hobsbawm se aproximou do Partido Trabalhista e virou uma espécie de guru cujas ideias orientaram a reforma que acabaria por propiciar o surgimento de Tony Blair. A militância política e o trabalho ocuparam o historiador até o final da vida. Ele nunca parou de escrever — deixou um último livro para ser publicado no próximo ano — nem evitou as aparições públicas em encontros e seminários.

 A atividade de Hobsbawm não se limitava à pesquisa histórica. A paixão pelo jazz o levou à crítica do gênero, publicada sob o pseudônimo de Francis Newton na revista New Statesman durante uma década e reunida no livro The jazz scene. Em 1952 também ajudou a fundar a revista Past and present e chegou a ser intérprete de Che Guevara, além de ser conhecido como um especialista em Bertolt Brecht.

Intelectual respeitado, poliglota — falava, além do inglês, alemão, francês e espanhol fluentemente e lia em português, catalão e holandês — e produto das grandes mudanças que pautaram a história da Europa, Hobsbawm produzia o que Ben Pimlott, diretor do Goldsmiths College da Universidade de Londres, chama de “pensamento em larga escala”. Pimlott encarava o marxismo do historiador como “uma ferramenta e não uma camisa de força; ele não é dialético ou seguidor de uma linha do partido.”

Respeito

Em entrevista ao jornal The Guardian, o sociólogo Stuart Hall, professor da Open University, descreveu Hobsbawm como um dos últimos historiadores de esquerda levado a sério por pessoas que discordavam dele politicamente. Já o escritor Martim Amis, em Koba, o terrível, ensaio sobre Josef Stálin, classifica de lamentável algumas posições de Hobsbawm quanto ao comunismo russo. Para Amis, há uma certa assimetria quanto à indulgência com a qual se analisa os crimes de Hitler e Stálin.

O historiador visitou o Brasil algumas vezes. Passou por Brasília nos anos 1990 e esteve no Palácio da Alvorada acompanhado do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Voltou em 2003 para participar da primeira festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e chegou a receber uma carta de aniversário de Luís Inácio Lula da Silva em julho passado, durante as comemorações de seus 95 anos.

Segundo Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, o pensador teria ficado emocionado com a mensagem de Lula. “O grande historiador era um amigo de verdade”, escreveu Schwarcz, que prepara o lançamento da coletânea de ensaios Tempos cindidos. “Eric era aparentemente duro e seco, mas no fundo era um homem doce e fiel. (…) quando suas obras passaram para a Companhia das Letras e ele veio ao Brasil pela primeira vez, convivemos intimamente, numa semana cheia de aventuras e folclore.”
17
Número de livros publicados


Livros publicados no Brasil


» Como mudar o mundo (2011)
» Ecos da marselhesa (1996)
» Era dos extremos (1995)
» Globalização, democracia e terrorismo (2007)
» O novo século (2000)
» Sobre história (1998)
» Tempos interessantes (2002)

"Um historiador incomum"

O historiador egípcio Donald Sassoon, professor da Queen Mary University of London, telefonou para o hospital Royal Free, em Hampstead (bairro de Londres), na noite de domingo. Queria saber notícias do mentor e orientador de sua tese de pós-doutorado — um estudo sobre a estratégia do Partido Comunista italiano entre 1944 e 1964. Um parente de Eric Hobsbawm desaconselhou a visita do amigo. Poucas horas depois, o homem que dominava a história como poucos tornava-se parte dela. “Seu legado intelectual será enorme. Ele não foi um historiador que se especializou em um ou outro tema, foi um historiador incomum”, afirmou Sassoon ao Correio, por telefone, na tarde de ontem.

O amigo lembra que, no fim da década de 1950, Hobsbawm debatia com historiadores econômicos sobre a crise agrária do século 18 e se as condições de vida do operário britânico melhoraram durante a Revolução Industrial. Sassoon destaca que os estudos mais marcantes surgiram naquela época. “Ele produziu pesquisas sobre o banditismo social e sobre os rebeldes primitivos. Eram trabalhos bastante originais. Ninguém havia escrito algo assim antes”, diz o estudioso. “Já se passaram seis décadas e, quando as pessoas escrevem sobre esses assuntos, elas ainda concordam com Hobsbawm”, acrescenta.

Os dois se conheceram em 1972, quando Sassoon foi até o colega e pediu que ele o orientasse em sua tese. “Escrevi para ele dizendo que eu tinha sido influenciado por Louis Althusser (filósofo marxista francês). Ele me correspondeu, afirmando que não era um admirador de Althusser, mas que aceitava ser meu orientador, porque o tema lhe interessava”, lembra. “O professor Hobsbawm gostava de discutir questões sérias, amava um debate intelectual. Nós almoçávamos juntos e falávamos sobre muitas coisas. Tínhamos conversas interessantes. Era uma pessoa de mente extremamente aberta.”

O colega recorda que o pensador tinha uma ligação especial com o Brasil. “Ele era extremamente popular no Brasil, onde seus livros venderam mais exemplares que em qualquer lugar do mundo”, explica. “Também era muito satisfeito com o (ex-presidente) Lula e com o modo como ele governava o país.” De acordo com Sassoon, Hobsbawm era dotado de uma enorme curiosidade. “Até o fim, esteve muito bem informado sobre assuntos que envolviam desde a China até o Brasil”, comenta.

Sassoon reconhece que o professor foi alvo de críticas por sua defesa apaixonada do marxismo. No entanto, explica que Hobsbawm deixou claro em seu livro How to change the world: Tales of Marx and marxism (“Como mudar o mundo: Contos de Marx e o marxismo”, pela tradução literal) que ele não defendia uma revolução mundial contra o capitalismo. “Seu marxismo era algo destoante da União Soviética, era algo que ia mais além”, disse. Nos últimos dias de vida, Sassoon conta que Hobsbawn evitava falar sobre sua saúde. “Ele permaneceu lúcido até o fim.”

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