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Obras raras de Caravaggio estão em exposição aberta ao público em Brasília

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postado em 05/10/2012 17:03 / atualizado em 05/10/2012 17:09

Nahima Maciel

O olhar da Medusa aterrorizada pelo reflexo de sua própria cabeça degolada é também a imagem trágica da vida de Michelangelo de Merisi, o Caravaggio. O homem que deu os primeiros passos em direção à pintura moderna e conduziu a humanidade para o universo do naturalismo em chiaroescuro morreu aos 38 anos, após uma vida marcada por episódios de brigas, mortes, desentendimentos e um sucesso rápido e inócuo. As seis obras de Caravaggio expostas a partir de hoje no Salão Leste do segundo andar do Palácio do Planalto estão entre os maiores legados da pintura do século 16 e testemunham a intensa tormenta que habitava a mente do pintor.

Com obras de quatro instituições e duas coleções particulares trazidas da Itália ao Brasil, pela Casa Fiat de Cultura em parceria com o governo italiano, Caravaggio no Palácio do Planalto reúne, principalmente, a produção de temática bíblica exaustivamente explorada pelo pintor. Além da Medusa Murtola, a primeira das duas medusas pintadas pelo artista, estão em Brasília também o Retrato de cardeal, da coleção da Galeria dos Ofícios, de Florença, e o São Gerônimo escrevendo, do acervo da Galleria Borghese. São quadros escolhidos por Rossella Vodret, autora de A lição de Caravaggio e superintendente de patrimônio da Itália, curadora responsável pela seleção. A mostra encerra as programações do Momento Itália-Brasil 2011-2012 e será inaugurada hoje pela presidenta Dilma Rousseff.

Trazer Caravaggio ao Brasil envolveu uma logística complicada. As obras pertencem a muitas instituições, o que não facilita transporte, seguros e autorizações internacionais. A sala do Palácio do Planalto foi especialmente preparada para receber os quadros, que chegaram à cidade na última terça-feira e precisaram passar por 48h de aclimatação antes de serem manipulados pela equipe de montagem.

Pintadas há mais de 500 anos, as obras exigem temperaturas entre 19 e 21ºC e umidade entre 50 e 55%. “A manipulação das peças só pode ser feita com a presença dos courriers e por pessoal especializado. Algumas obras, como a Medusa, que tem um suporte de madeira, estão em uma vitrine climatizada”, avisa Eugênia Saturni, da Base 7, empresa responsável pelo transporte e montagem da exposição. Para deixar o Masp, em São Paulo, e seguir para Brasília os quadros foram instalados em um caminhão com suspensão pneumática capaz de atenuar os impactos de estradas irregulares e esburacadas. Durante a viagem, um grupo de batedores acompanhou o caminhão.

Métodos
A Medusa Murtola é a obra mais significativa da exposição. Pintada sobre a superfície de um escudo do século 16 e envolta por fundo negro, está entre as mais estudadas por especialistas dedicados à produção de Caravaggio. A contrário de Leonardo da Vinci, que documentou intensamente sua produção em cadernos de anotações, e de Van Gogh, obcecado por diários nos quais esmiuçava seu modo de pintar, Caravaggio nada deixou além das pinturas. Há pouquíssima documentação capaz de esclarecer os métodos e técnicas utilizados, mas muitos historiadores se debruçam sobre dois aspectos especiais bem representados pela Medusa.

Acredita-se que o pintor gostava de utilizar espelhos e a técnica do reflexo em câmera escura para estruturar as composições. Também era um observador atento da arte dramática. “Caravaggio concebia seus quadros como performances da história situadas no presente”, escreve a historiadora Geneviève Warwick em Caravaggio: realismo, rebelião, recepção. Especula-se que o artista teria tido contato tão próximo com companhias de teatro, atores e técnicas de encenação do século 16 que transportou para a pintura a construção teatral das cenas. Modelos vivos, especialmente os amigos, serviam de referência em uma época onde muitos utilizavam maquetes e estátuas.

O uso de espelhos era motivo de críticas na época. Encarados como ineptos, os artistas ancorados nesse artifício pareciam, aos olhos dos críticos, padecerem da incapacidade de compreender a perspectiva renascentista formada por planos paralelos. Mas Caravaggio mostrou ao mundo que a dramaticidade e a expressividade não dependiam apenas da perspectiva. Naturalista radical, ele combinava o chiaroescuro com uma encenação dramática conhecida como Tenebrismo. Dessa combinação puderam nascer pintores como Rembrandt, Rubens e outros.


Sobrevivência
Praticamente esquecido logo após sua morte, em 1610, virou um artista desconhecido até ser redescoberto no século 20. As confusões nas quais se embrenhava constantemente — chegou a matar um homem durante uma briga e teve a cabeça colocada a prêmio pelo Papa — e o espírito aventureiro que nunca permitiu contratos com cortes ou cleros fizeram seu infortúnio. Para sobreviver, o artista aceitava muitas encomendas, especialmente os retratos, por isso Retrato de cardeal pode ser vista como obra emblemática da trajetória de Caravaggio. Pintado em Roma, quando o artista passava por dificuldades, o quadro nunca deixou a Itália, assim como a Medusa.

O São João Batista exposto em Brasília também tem história curiosa. Descoberto recentemente nas mãos de um suposto colecionador que tentava deixar o país com a obra, o retrato do santo ficou guardado em acervo particular durante anos até voltar ao circuito de exposições.

Personagens entre a vida e a morte assombraram o artista durante anos. Refugiado na província de Palestrina depois de condenado à decapitação após o assassinato, Caravaggio pintou o São Gennaro presente na mostra. “Essas obras contam como a vida dele esteve presente na obra”, acredita José Eduardo de Lima Pereira, presidente da Casa Fiat de Cultura. “A Medusa é um autorretrato e não foi a única vez que Caravaggio se representou como a figura da vítima. Na célebre representação de Davi e Golias, ele se retrata na cabeça degolada de Golias. Aquela vida de aventureiro convive com a de um homem atormentado pela aspiração à santidade e pelo peso do pecado. Ele era um homem dividido entre a fé e o pecado.”

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