SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Versos sem pudor

O erotismo, e não Brasília, toma conta do novo livro de Nicolas Behr. Meio seio, uma obra delicada sobre paixão e sexo

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 11/10/2012 08:00 / atualizado em 10/10/2012 13:27

O poeta está em seu local de trabalho, rodeado de vasos de barro, mudas de plantas, centenas de itens de jardinagem e cultivo, clientes curiosos e funcionários atendendo esses mesmos clientes. Ele gerencia o viveiro Pau Brasília há duas décadas. Quando termina de escrever um livro, não hesita em também vendê-lo, sem vergonha de tratar os poemas como mercadorias. Com ele não existe isso de poeta perdedor, deprimido, suicida. Anda com vários volumes no carro, preparado para encontros com amigos e esbarrões em conhecidos e desconhecidos. Agora, Nicolas Behr deixa o escritório por alguns minutos, senta-se à sombra de uma jabuticabeira ligeiramente carregada e, com interrupções aqui e ali para notar a presença de pássaros intrusos e abastecer as mãos de frutos, conversa sobre o seu novo livro, Meio seio (editora Língua Geral). Que não é sobre Brasília. “O único lugar em que Brasília está é na orelha, na ficha biográfica”, avisa. E que, sim, é erótico, às vezes delicado, mas sobretudo provocador. A novidade será lançada hoje, às 18h, no Hermusche Emporium (413 Norte).

“A linha entre o erótico e o pornográfico é muito tênue, que nem a linha entre a loucura e a normalidade”, diz ele. Behr costuma alertar as pessoas sobre o conteúdo: os versos curtos sobre boca, mãos, seios e outras partes do corpo dividem as páginas com traços de homens e mulheres nus, assinados por Evandro Salles. O sexo ainda é um tabu social. E o amor, um paradigma na poesia. O mato-grossense dá o seu contraponto na nova coleção de poemas. “Li O amor natural, de Drummond, e pensei em fazer o meu livro erótico, no meu estilo. Não é nem punk, nem agressivo, nem raivoso, nem antiamoroso, nem antierótico. Queria um livro que mexesse com as pessoas, como ele mexeu comigo”, continua.

“Não existe pureza no amor / Pureza só no sexo.” Behr, segundo ele mesmo, só chegou a versos assim porque amadureceu como poeta. Fez 54 anos no último 5 de agosto, e acha que nunca escreveu tanto como hoje. “Às vezes, chegam para mim mostrando poesia. E eu digo que ainda não é poesia. ‘Isso é carta para a namorada’. Poesia é sentimento com invenção. Trabalho o poema milhares de vezes para chegar a cinco linhas. Levo ele no bolso, fico com ele aqui, está na minha carteira. Vou pegar dinheiro e vejo o poema lá”, reflete. Até o fim do ano, o autor deve lançar A lenda do menino lambari, sobre a infância em Mato Grosso e a experiência como interno no colégio de jesuítas em Diamantino, onde morou até os 10 anos.

Ele tem algum receio, pequeno, talvez insignificante, de ser visto como pervertido. Lembra que João Ubaldo Ribeiro, depois de A casa dos budas ditosos, recebeu todo tipo de proposta e convite. Mas não vê seu interesse poético pelo sexo como algo preocupante. Afinal, é casado há 28 anos com a mesma mulher. “Isso para um poeta é imperdoável”, brinca ele, que dedica o livro, já na primeira página, a Alcina. Ela leu e aprovou.

A obsessão de Behr não é pelo verso acabado, terminado. Mas pela incompletude. “Os desenhos são como rabiscos. Deve ser assim com o poema. Por isso, os meus não têm ponto e vêm em letra minúscula. Todas as palavras são iguais como nós somos iguais, talvez. O poema continua na sua imaginação”, pensa ele.




Braxília em Berlim

Daqui a alguns dias, Behr viaja para Berlim com Danyella Proença, diretora do curta-metragem Braxília, o filme sobre o escritor que recriou a cidade por meio da poesia, erguendo com palavras uma capital para chamar de sua. O filme será exibido dia 19 na tradicional tela do Kino Babylon, antigo cinema da capital alemã, dentro de um segmento paralelo do Zebra Poetry Film Festival, reservado a produções sobre poemas e poetas.

“A família dele é de lá. Ele fala alemão e está levando livros traduzidos. A viagem não deixa de ser um reencontro. Eu estou nas nuvens, porque é a minha área de interesse, o diálogo entre o audiovisual e a poesia e a busca da imagem poética não somente como tema, mas como linguagem”, conta a cineasta sobre seu título de estreia e único representante brasileiro na mostra.

Braxília estreou no 43º Festival de Brasília, em 2010. Levou prêmios de melhor filme do júri popular, roteiro e menção especial do júri oficial. Desde a primeira exibição, o curta circulou por festivais brasileiros, como o Cine PE e o É Tudo Verdade, e foi selecionado em panoramas de cinema estrangeiros. Em setembro, passou no Dockanema, de Maputo, capital moçambicana. Mês que vem, o filme viaja para Chicago, para integrar o painel Brazilian Films.



eu te amo
e daqui
pra frente
tudo será
decepção




levo
partes tuas

os braços
o tronco

meio seio

 

amo
teu seio
esquerdo

o direito
não

amo com
a mão




se chegamos
até aqui
sem amor


por que
a partir
de agora
precisaríamos?



                                   
tua boca
me deve
um beijo

eu quero
é me afogar
nesse pântano
de cuspe


a boca ri
marota

a boca ri
safada

 

 

 

 

 

 

 

 

MEIO SEIO
De Nicolas Behr. Prefácio de Chico César. Ilustrações: Evandro Salles. Língua Geral, 88 páginas. O lançamento é hoje, às 18h, no Hermusche Emporium (413 Norte, Bloco D). Preço: R$ 26.

 

 

Tags:

publicidade