O menino que encontrou Nietzsche

A história de um garoto que encontra um livro do filósofo alemão no Lixão da Estrutural podia ser muito bem a de André Bezerra, ator-mirim que surpreendeu a plateia no Festival de Brasília

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postado em 15/10/2012 19:34

Diego Ponce de Leon


A foto que acompanha essa reportagem, tirada no Lixão da Estrutural, não foi nada prazerosa para o ilustrado André Bezerra, o ator mirim, de 12 anos, protagonista do curta-metragem Meu amigo Nietzsche. “Não gosto de retornar aqui, não gosto das moscas e do cheiro”, reclama. O documentário, que levou quatro prêmios na Mostra Brasília, do festival de cinema da capital, aborda a questão do analfabetismo funcional de uma maneira inusitada, não por diagnosticar as razões, mas por identificar uma solução: leitura.

No meio desse mesmo Lixão, Lucas, o personagem protagonista vivido por André, encontra um exemplar desgastado de Assim falou Zaratustra, obra fundamental, porém de difícil compreensão, do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche. O menino Lucas enfrenta dificuldades com a leitura e está à beira de uma reprovação na escola. O livro o fascina e o torna um ávido leitor. Graças ao novo amigo, ele vence a estranheza das letras e mergulha na atmosfera nietzschiana. As inusitadas posturas e tiradas que passa a tecer junto à professora e aos pais proporcionam um tom cômico (e inteligente) ao filme, que tanto agradou o público e crítica. Porém, o enredo cativante nada seria sem uma atuação original, que pudesse garantir a autenticidade da história. Mérito de André, que cumpre a missão.

O lixo parece não assustar mais ninguém. As contribuições do chorume estão por toda parte. Pano de fundo principal em novela das 21h, material para produção artística, sustento. Avenida Brasil e os documentários Lixo Extraordinário (2010) e Estamira (2004) sabem aproveitar o apelo do lixo para sensibilizar os que assistem. Lição ensinada por Joaõsinho Trinta, na avenida, desde a década de 1980. É desse mesmo cenário que emerge a nova promessa das telas brasilienses.
Personagem real

Nascido e criado na própria Estrutural, André não se intimida com as mazelas locais que o filme aponta. Ali, o menino estuda e mora com os pais. “Como o filme foi totalmente rodado na Estrutural, que ele conhece bem, não precisou de tempo para se adaptar a um ambiente estranho”, disse Fáuston da Silva, diretor do curta. Enquanto André vai à escola, umas das quatro unidades públicas da cidade, a mãe passa o dia em uma clínica de estética, onde é manicure, e o pai sai cedo para vender milho na Feira do Produtor do P Norte. Embora ele não frequente o Lixão, que visitou pela primeira vez por conta das filmagens, soube aproveitar a experiência: “Fiquei surpreso com as pessoas que trabalham ali, os catadores, mendigos. Sol na cabeça, dia e noite, para garantir o sustento da família”, observou. Ele espera que histórias como a do filme não sejam “impossíveis”, e que “livros possam ser encontrados e ajudar os filhos daquelas pessoas”.

A mãe do menino, Edileuza, ficou preocupada com o desempenho na escola, já que a produção o ocupou por duas semanas. “Eu e o pai dele não queríamos que as notas piorassem. Ficamos um pouco assustados com tudo”, disse. Apesar do receio, acabaram permitindo e incentivando a oportunidade: “Vi que ele estava feliz.  Isso que importa”. A atuação de André não passou despercebida.Na saída da exibição do documentário, durante o festival, ele foi procurado por vários espectadores que queriam cumprimentá-lo e tirar fotos. “Na escola, muita gente passou a falar comigo. Me contavam que tinha visto o trailer na internet, que eu era famoso”, revelou. O experiente ator Abaetê Queiroz, pai do menino na ficção, acha que “André começou com o pé direito”. Abaetê ficou surpreso com a “dedicação e disciplina dele nas filmagens”. O diretor Fáuston também não economiza elogios: “O menino é muito inteligente. Foi fácil trabalhar com ele”.

Quanto ao “amigo” Nietzsche, relações cortadas. André diz que gosta de ler, mas que segue uma regra na hora da escolha: “Olho e sei que vai ser bom. Não fui com a cara do Nietzsche”, brincou. Apesar de ser a primeira experiência cinematográfica do pequeno ator, ele parece se sentir muito à vontade com o tema: “Queria fazer um filme de ação ou comédia. O cinema nacional só fala de lições de vida e sexo, precisa dar uma melhorada”, adverte. André, que sonha em se formar como biólogo, gosta da ideia de ser reconhecido em público, porém se diz feliz onde está: “Meus pais me dão o que peço e o que podem.Me divirto com eles”. Mas, nada de preocupações para quem pretende vê-lo novamente nas telas: “Se vier, aceito”, garantiu.


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