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Corpos, ícones, interações

Depois de São Paulo e Rio, chegou a vez de Antony Gormley expor Suas esculturas em Brasília. A mostra começa no próximo dia 23 com obras espalhadas também pela Esplanada

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postado em 17/10/2012 08:00 / atualizado em 16/10/2012 12:20

Nahima Maciel

Antony Gormley, 62 anos, desenvolveu, ao longo das últimas duas décadas, uma curiosa obsessão pelo próprio corpo. Com as genitálias cobertas com filme plástico, o artista britânico engessa o corpo para construir os moldes de suas esculturas. Costuma passar entre uma e duas horas imobilizado pelo gesso. Magro e alto, Gormley gera corpos à sua própria semelhança para deles tirar discursos moldados para se encaixar em diversas reflexões relacionadas ao ser humano. São, frequentemente, propostas que combinam as ideias de existência com espaço e tempo e se encaixam em cenários monumentais, por isso Gormley está bem satisfeito de desembarcar em Brasília para montar a exposição Corpos presentes — Still being, em cartaz a partir do próximo dia 23, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Além das esculturas penduradas no teto da galeria e espalhadas pelo local, o artista vai plantar seus corpos na Esplanada dos Ministérios na tentativa de estabelecer um diálogo produtivo com a cidade.

Interferir na paisagem é parte fundamental do trabalho de Gormley, mas foi na galeria que seu nome despontou quando, em 1994, ganhou o Turner Prize, espécie de Oscar das artes plásticas, com a obra Field for the British Isles. A obra: milhares de pequenas esculturas de corpos em cerâmica e tamanho reduzido. Quatro anos depois, o artista se tornou o nome mais famoso da cena artística britânica ao plantar um de seus corpos — uma escultura de 20 metros de altura com asas de 54 metros — em uma cidade no interior da Inglaterra. Anjo do Norte causou impacto no mundo da arte.

Na areia

Desde então, suas esculturas estão espalhadas pelo mundo e quem visita uma das praias de Liverpool pode se deparar com uma série de corpos fincados na areia, assim como os visitantes Mo i Rana, na Noruega, encontrarão inevitavelmente uma imensa escultura de pedra encoberta até a cintura pela água do mar. As esculturas previstas para a Esplanada não ficam na cidade, mas o artista passou pelo Planalto Central no início do ano para conceber o projeto da montagem da mostra.

Em Brasília, além das esculturas dispostas pela Esplanada e intituladas Four times, Gormley apresenta 10 outros trabalhos. Entre eles está Amazonian field, projeto idealizado durante a Eco 92 após uma viagem a Porto Velho e que gerou outras séries até hoje em execução e dedicadas a regiões do mundo. Um conjunto de mais de 20 mil figuras em terracota com alturas entre 4cm e 40cm ocupam o chão da galeria numa tentativa de chamar a atenção para a necessidade de harmonia do homem com o meio ambiente. Critical mass, uma das obras mais conhecidas de Gormley, também integra a exposição. Moldadas a partir do corpo do artista, 60 figuras de ferro fundido em posições que vão de fetais a eretas são espalhadas pelas salas nos mais inusitados posicionamentos. Algumas podem ficar no teto, outras no canto superior da parede, outras voltadas para o chão. O artista conversou com o Diversão&Arte pelo telefone, do ateliê, em Londres, e contou como se espelha no próprio corpo para refletir sobre a existência humana.

Três perguntas // Antony Gormley

Qual o conceito por trás dessa obsessão em esculpir a partir do seu próprio
corpo e como isso está na exposição?

Desde o início, pensamos em como mostrar duas coisas: uma é meu compromisso com o corpo, pensando o corpo de uma maneira nova e radical, não como representação, mas como um lugar, como um sinal. A outra é como poderíamos criar uma tensão entre a ideia institucional de um museu e o contexto social da cidade onde estão as esculturas. Nós evocamos essa tensão nos trabalhos Critical mass e Event Horizon. Uma lida com a gravidade e, de certa maneira, com o espírito do corpo, ou do corpo em descanso, e o outro evoca o movimento do corpo como o lugar da fraqueza. E queríamos ver isso ligado à cidade e seu contexto em todos os sentidos: ambientalmente, geograficamente, geologicamente.

Normalmente, as esculturas de Four times são dispostas nos telhados dos prédios das cidades nas quais você expõe. Por que, em Brasília, colocá-las
no chão?

Decidi que colocar os corpos nos edifícios era desnecessário. Brasília já é uma escultura, ela não precisa de esculturas extras. Então pensei: o que eu posso fazer? Preciso, de alguma forma, introduzir esses elementos nessa obra de design moderno extremamente articulada de maneira a interagir com a vida da  cidade, mas, primeiramente, criando um impacto visual. Tentei encontrar lugares com uma vista poderosa, como a do Congresso, da Biblioteca, da Catedral, mas também compromissados com o fluxo da cidade em relação aos pedestres e carros. Então introduzimos quatro corpos no fluxo da vida da cidade.

As feministas são muito críticas em relação a seu trabalho. Elas costumam acusá-lo de egocêntrico e vaidoso por reproduzir incessantemente o próprio corpo. Como encara essas críticas?
Sabe, elas têm um tema, mas não acho que seja um grande tema. Se eu fosse mesmo muito egocêntrico e vaidoso acho que poderia fazer um trabalho muito melhor. Acho que as feministas ficam preocupadas com essa dominância sexual de um corpo masculino e eu estou interessado na relação entre o corpo, o espaço e o tempo. Essa intenção sexual de um corpo ou sua definição sexual só porque ele tem um pênis, para mim, é irrelevante em termos das coisas que me interessam. Sexo relacionado com a morte me parece um assunto muito mais definidor. Quando temos que enfrentar a possibilidade da existência ou não, o fato de sermos geradores ou reprodutores, sexo realmente não importa muito. 

 

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