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Filme tem, sala não

A produção cinematográfica brasileira vai bem, mas a exibição do que é feito aqui sofre com os gargalos

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postado em 18/10/2012 08:00 / atualizado em 17/10/2012 11:56

Ricardo Daehn , Felipe Moraes

Pouco mais de três semanas se passaram desde a celebração do cinema verde-e-amarelo, no 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Passada a euforia, numa cadeia que desafia o valor de méritos e prêmios das produções, cineastas vitoriosos e concorrentes estão avizinhados numa fila torta e pesarosa: filme debaixo do braço, é hora de arrebanhar público. “O festival é o primeiro passo: vem o interesse absurdo e, a partir disso, há repercussão na mídia. Vivemos o domínio de majors, anos e anos de convencionalismo de pensamento cinematográfico público. É muito forte o imperialismo desse cinema, e as pessoas, pouco a pouco, estão percebendo que o cinema nacional propõe filmes interessantes”, observa Marcelo Lordello, diretor do premiado Eles voltam.

Determinado, com filme viabilizado por apenas R$ 47 mil, ele crê ter uma ficção “de bom apelo”. “A gente pensa em vias alternativas de distribuição. Distribuidoras de internet já existem. Os curtas da Trincheira, a produtora que integro, já entraram na rede faz muito tempo. Algum dia, Eles voltam estará nela. A gente também pensa na questão dos cineclubes, numa corrida insana de alcançar público”, explica.

Sondada pelo mercado, com a visibilidade do premiado longa Elena, a documentarista Petra Costa mantém esperanças, ainda que ciente da adversidade. “Não existe uma estratégia para lançamento de filme nacional. Geralmente, eles ficam restritos a pequenas salas e, passada uma semana, se não conseguirem um bom público, saem de cartaz. Tenho a impressão de que não existe uma política para isso. É necessário uma reformulação: o financiamento para a produção está aí, mas o sistema de distribuição está gangrenado”, comenta. Movida pela vontade de ultrapassar a margem de 10 mil espectadores para o longa, Petra discorre sobre futuros instrumentos: das redes sociais a degustações de teasers, pretende ainda motivar público, entre universitários e grupos de dinâmica psicológica (em parte, foco de Elena).

Fatores nunca debelados agravam o cenário do fluxo de fitas nacionais, alguns notórios, como a deficiência na quantidade de salas e o modelo de exibição aglomerada em shoppings, um paraíso para empresas e produtos estrangeiros. Isso, sem levar em conta o poder de distribuidoras vinculadas aos grandes estúdios internacionais de produção. “A dinâmica do sistema ainda existe para favorecimento dos grandes filmes e grupos”, argumenta o produtor Pedro Severian, do também premiado Boa sorte, meu amor. Nas passagens do filme pernambucano por festivais de Locarno (Suíça) e Amsterdã (Holanda), Severian, ainda sem distribuidor, viu uma plataforma de transição tecnológica em evolução.

“Esse é o momento de o Brasil dar o pulo. Há facilidades em curso que requerem menor investimento, se compararmos aos custos exigidos pelas projeções de 35mm. Precisamos distribuir e ocupar salas, sem estarmos presos ao sistema”, diz o produtor. “As salas servem ao cinema hegemônico, sobretudo norte-americano”, emenda Vinícius Reis, diretor do drama Noites de reis. “O cinema brasileiro não é só comédia. Um cinema se faz com públicos, no plural”, completa, numa crítica ao espaço cavado por blockbusters brazucas como E aí, comeu?.

“Funcionando, só de forma independente”, o multipremiado Cao Guimarães (de Otto) é quem habitualmente não consegue espaço no circuito exibidor convencional. “Tenho filmes feitos sem verba ou produtor, então, arco com gastos”, comenta ele, que já viu as obras projetadas em galerias de arte, como Nara Roesler, e circuitos alternativos, como o do MoMa, de Nova York, o Museu da Imagem e do Som e a sala do Sesc (SP), além de presente em edições da Bienal do Mercosul. “Acho decepcionante. Não gosto de fazer cinema para ganhar dinheiro. Pão e biscoito têm na padaria”, sintetiza.

O francês Jean Thomas Bernardini, fundador da distribuidora Imovision, importante espelho de produções alternativas nacionais e estrangeiras, culpa o gargalo do circuito exibidor para justificar o percurso acidentado das fitas independentes. “São dificuldades crescentes, devido à falta de salas com esse perfil e, ainda, à descrença de parte dos programadores e grandes redes nesse tipo de filme”, conta. Uma das mais recentes produções nacionais adquirida pela Imovision é Era uma vez eu, Verônica, de Marcelo Gomes, bem premiado no festival brasiliense e previsto para estrear em 15 de novembro. Bernaridini lançará também A memória que me contam, de Lucia Murat, visto no festival. O critério de seleção do francês para a compra de títulos é simples. “O básico: bons roteiros e diretores, atores adequados aos papéis, uma equipe técnica competente e uma pitada de feeling”, enumera. Perguntado sobre retorno de público, ele explica. “Obviamente não há, devido aos motivos listados acima”.

Entraves
“A distribuição sempre foi tida, na lógica que estrutura o produto cinematográfico, como gargalo da produção audiovisual. A única forma de obter espaço, vinha pela cota de tela — deficitária, por atrelar o cumprimento à quantidade de dias de um filme nacional, e não à diversidade de títulos a serem exibidos”, sublinha a secretária do Audiovisual (MinC), Ana Paula Santana. Frente ao “crime que representa a pirataria” (meio de se chegar a alguns produtos nacionais), ela toma por exemplo a produção anual argentina, numa cadeia movida por metade dos custos gerados no Brasil. “A gente tem que desonerar a cadeia produtiva do audiovisual. É um setor estratégico e ter acesso aos filmes é direito de todos. Temos trabalhado frente à sensibilização da Receita Federal e do Ministério da Indústria e Comécio para redução de impostos”, diz ela.

Num processo de alargamento das exibições de filme nacional pelo interior do país, Ana Paula conta com meta do Plano Nacional de Cultura prevista para, até 2020, assegurar o fluxo de fitas na totalidade dos muncípios do país. Acredite.

O nascimento de distribuidoras brasileiras como a Downtown, a RioFilmes e a Nossa, todas com atenção para filmes brasileiros, foi produto de mecanismo de estímulo do Fundo Setorial do Audiovisual, que, na análise da secretária, extrapolou o escopo da produção e trouxe linhas especiais de distribuição. “Programas como o Cinema perto de Você e Cinema da Cidade — com reduções tributárias, no incentivo para empreendedores na construção de novas salas em municípios desprovidos — são induções de melhoria, implantadas no cenário do parque exibidor”, comenta Ana Paula Santana. As medidas são somadas à linha de empréstimos facilitados (a partir de R$ 1 milhão), via BNDES, num mecanismo criado há mais de oito anos. Na esteira de aprendizados a serem absorvidos de modelos coreanos, chineses, norte-americanos e canadenses, na visão de Ana Paula, “o Brasil ainda vive o dilema de encarar a digitalização das salas”. “Temos à mão, por exemplo, o video on demand — que leva à casa do espectador filmes que não terão grande impacto nas salas de cinema, a partir de vendas por internet e negócios envolvendo tevê a cabo”, observa.

Boca, de Flávio Frederico, é exemplo de angústia e solução no escoar de cinema independente. Finalizado em 2010, o filme revisita trajetória de Hiroito de Moraes, tornado criminoso nos anos de 1950. Com poucas cópias (25, em 35mm), a estratégia da distribuidora Nossa, comandada por Marco Aurélio Marcondes, foi segmentar a viagem do filme pelo país. Depois da estreia em 15 países, finalmente, será mostrado no Brasil. Marcondes, nome por trás do sucesso de Tropa de elite 2, maior bilheteria conquistada por um filme brasileiro (R$ 102,6 milhões), revela trâmites do negócio. Segundo ele, o produtor recebe imediatamente o dinheiro que investiu. “Há total transparência. Cobramos apenas por serviço e não temos comissão, o que faz com que a renda líquida do produtor seja superior. Há, no mínimo, ganho de 20% em relação à distribuição tradicional. Sem determos demais direitos, há facilidade nas vendas para o exterior.”

 

“O financiamento para a produção está aí, mas o sistema de distribuição está gangrenado”


Petra Costa, cineast


O Brasil tem 2.273 salas de cinema para 5.563 municípios


Concentração em shoppings


Com 2,6 milhões de habitantes, Brasília acata um modelo nocivo de aglomeração de salas:14 complexos de exibição estão concentrados em shoppings. São 82 salas encadeadas em realidade padronizada, com preponderância de filmes voltados ao modelo estabelecido de consumo fácil: os ditos blockbusters. As únicas exceções estão no Drive-in e no Cine Brasília (desativado, temporariamente, para reformas). Além da região do Entorno, Brazlândia, Gama, Sobradinho são alguns exemplos de desigualdades, sem nenhuma sala que abrigue programação regular de cinema.

Luta para formar plateia

Muita gente fala do gargalo na distribuição, mas esquece os problemas ligados à exibição”, observa a empreendedora Sílvia Cruz que, por meio da Vitrine Filmes, já levou 100 mil espectadores para ver 24 filmes nacionais distribuídos nos últimos 30 meses. Hoje, no Centro Cultural Banco do Brasil, às 20h30, será possível conferir a estratégia da empresária, num debate promovido pela Associação das Distribuidoras Alternativas. O encontro faz parte da CCBB em Cartaz — Chegou a Brasília, mostra que reúne 14 filmes com exibição até domingo. “No começo, via vantagem de estar sozinha, desbravando terreno pouco explorado: mantinha, então, uma carteira de filmes muito bons. Mas  logo percebi o isolamento, sem forças para lutar. Eu até brincava que, pelos filmes, não corria o risco de dar certo”, conta.

Noutros tempos, Sílvia conta com a distribuição de preciosidades, como é o caso do premiado O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho. Pequenos milagres, como manter, por seis semanas, a exibição de um nacional (Além da estrada), no Cinemark de Aracaju, porém, não são constantes. “O Brasil carece muito de salas. Nem falo de cidades que ficam longe dos grandes centros ou que sejam pequenas: Brasília e Belo Horizonte, por exemplo, não absorvem nem metade dos produtos disponíveis. Muitos filmes estão sendo feitos: imagino mais salas com apoio do governo, que não dependam apenas de bilheteria. A premissa deveria ser a de formação de plateia”, opina Sílvia.

Ela sente falta de investimentos federais para a distribuição. “É desesperador: os maiores incentivadores, que sempre foram BNDES e Petrobras, assim como o MinC, não têm projetos voltados para a difusão dos nossos filmes. Criação de salas no interior, num primeiro momento, vai atender ao mero entretenimento, com os blockbusters. Depois, acho que virá a ênfase em cinema diferenciado”, opina.

Boca a boca
Há duas décadas, experimentado tanto na exibição quanto na distribuição (Pandora Filmes), André Sturm viu o encolhimento do circuito de arte paulistano, em que havia 35 salas de nicho, há três anos. “É um mercado em que filmes como Além da estrada e Vou rifar meu coração são, literalmente, rifados. Eles não fazem 10 mil pessoas no primeiro fim de semana em cartaz. Precisariam de mais tempo para o público gerar um boca a boca. Já não há mais essa possibilidade. O trabalho de distribuição funciona na base de percentagem de bilheteria. Num filme que faz 4.000 de bilheteria, quanto ganha um distribuidor? Nada. Um produtor faz o filme com algum edital ganho, ou incentivo fiscal. O distribuidor tem que lançar o filme com o dinheiro dele. É quase militância lançar filme brasileiro que não seja blockbuster”, explica.

A ocupação “de maneira selvagem”, pelos grandes lançamentos, desmerece fitas menores, como observa Sturm. “Os grandes lançamentos atingem entre 800 e mil telas —, num país que tem 2,2 mil telas, é um despropósito. As cidades médias e pequenas têm muito poucas salas. Não se trata de o público não ver filme nacional por não querer: não vai ver porque não consegue”, argumenta.

Uma injeção de investimentos, na visão de Sturm, poderia render cenário esperançoso. “No ano de 2011, se você somar verbas estaduais, com montantes do Fundo Setorial e investimentos com as leis de incentivo fiscal, chegamos a uns R$ 450 milhões investidos na produção de cinema no Brasil. Daí, R$ 30 milhões seriam suficientes para a criação de um circuito punjante, forte e dedicado a um cinema extra-hollywoodiano”, comenta. Um programa de apoio a exibidores que projetassem produções diferenciadas seria outra ferramenta. “É como acontece na França: filmes iranianos, gregos, holandeses contam com apoio —, assim é mantido o espaço da diversidade”, aponta.

 

 

 

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