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"Solto a voz nas estradas..."

Milton Nascimento chega aos 70 anos em um 2012 repleto de comemorações e trilhas sonoras que marcaram gerações inteiras

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postado em 27/10/2012 08:00 / atualizado em 26/10/2012 09:05

Milton Nascimento é o autor da trilha sonora do povo brasileiro nas últimas cinco décadas. De seu cancioneiro, surgiram não apenas músicas marcantes, mas hinos essenciais. Ao se pensar em amizade, por exemplo, como não recorrer a Canção da América? E o reflexo da guerreira Maria, Maria que se esconde em cada mulher? Milton exalta a negritude, canta o homem trabalhador, sonda a solidão e a morte, o credo e a repressão. Coração de estudante é um emblema da abertura política ocorrida no país nos anos 1980. Trens de ferro, bicas nos quintais e oratórios fazem parte dos infindos passeios do menino deslumbrado pelos sons de sua Minas Gerais, da África e da América Latina. No dia em que ele completa 70 anos — mesmo ano em que comemora meio século de trajetória artística —, voltar-se para sua obra, de mais 400 canções, é perceber que existe um pouco dele em cada um de seus admiradores.

Milton fez algumas de suas músicas sozinho. Contudo, encontrou em nomes como Fernando Brant, Márcio Borges e Ronaldo Bastos — para citar os mais constantes — os parceiros ideais, aqueles que conseguiam traduzir em palavras os múltiplos sentimentos que suas melodias insinuavam. “Essas canções contam também as histórias da minha vida e as da dele. Nos fez colocar o pé na profissão e nos tornaram as pessoas que somos hoje”, analisa o amigo Márcio Borges, coautor de Vera cruz e Clube da esquina 1 e 2. “Foram músicas feitas por amigos, sem pensar no retorno, mas que acabaram batendo no coração dos brasileiros”, reforça Brant, que escreveu os versos de San Vicente e Maria, Maria.

Márcio observa que a política, mesmo que subliminarmente, pontuou as composições do artista e de seu grupo de amigos. “Ele sempre foi engajado, participou de movimentos diversos, como o a favor da anistia. Procuramos reproduzir a verdade”, afirma. “Nossas músicas sempre foram temas do movimento estudantil. Eles foram o nosso primeiro público e permaneceram fiéis a vida toda”. Para Brant, a música da turma de Minas dialogou sem intermediários com o povo por conta de seus próprios criadores se assumirem também como povo. “Ao longo desse tempo, a gente acompanhou o que os brasileiros estavam fazendo, por que a gente estava no meio deles”, fundamenta.

Esquinas do mundo
Milton levou o som das Gerais para o Brasil e a música do Brasil para o mundo. A partir de 1968, com o disco Courage lançado no exterior, ele deu o pontapé em uma carreira internacional sólida. Do lado de lá, tornou-se amigo de ícones do calibre de Wayne Shorter, Herbie Hancock e Ron Carter. “Os caras do jazz, que a gente sempre admirou, passaram a ser admiradores dele”, observa Márcio. “A originalidade dele, em suas harmonias e interpretações, causaram uma sensação de novidade muito grande”.

Brant diz que as pessoas — gringos e brazucas — se assustavam com aquela sonoridade inédita, ao mesmo tempo que ficavam maravilhadas. “Não era bossa, não era samba, era um negócio que a gente foi inventando. A turma toda era muito inovadora”, realça ele. “Ele é um compositor sem precedentes, não veio de nenhuma corrente específica”, reforça o parceiro e amigo Lô Borges, irmão de Márcio. “É um dos maiores criadores e cantores que pude conhecer em minha vida”. Em novembro, Milton será homenageado pelo Grammy Latino com o Prêmio à Excelência Musical por sua contribuição à música.

No palco
Em duas das canções mais emblemáticas de sua obra, Nos bailes da vida e Travessia, parcerias com Brant, o canto de Milton explicita um ponto recorrente. Na primeira, entoa que “todo artista tem de ir aonde o povo está”. Já na outra, diz: “Solto a voz nas estradas, já não quero parar”. A plateia parece mesmo nortear a trajetória do músico. Milton passou este ano em cima do palco. Percorreu diversas cidades com um show comemorativo que irá culminar na gravação de um DVD no dia 25 de novembro, no Rio de Janeiro, com a participação de Lô Borges e outros amigos.

Lô, inclusive, foi o único artista a compartilhar de todos os shows da turnê, que revisitou os maiores sucessos de Bituca, apelido do artista. “Nosso primeiro encontro foi casual e mágico. Conheci inicialmente a voz dele”, recorda Lô. Ambos moravam no mesmo prédio de uma Belo Horizonte sessentista. Lô tinha 10 anos; Milton, o dobro. Anos mais tardes, tornaram-se parceiros a gravaram juntos o essencial álbum duplo Clube da esquina, que completa quatro décadas também em 2012. “Milton está cantando cada vez melhor, como se tivesse 20 anos, e não 70”, elogia o parceiro.


Musical
A principal homenagem que Bituca recebeu neste ano foi um musical baseado em sua obra, criado pela dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, em cartaz desde agosto no Rio de Janeiro. Milton Nascimento — Nada será como antes conta com um elenco afinado e recria 50 canções do artista e de seus parceiros.



Quatro perguntas // Milton Nascimento


IRLAM ROCHA LIMA

Travessia pode ser considerada a canção símbolo/síntese de sua trajetória?
Pode ser considerada uma canção símbolo. Agora, síntese, acho que não. Considero essa música como símbolo por tudo que aconteceu naquele Festival Internacional da Canção de 1967. Travessia não ganhou, mas hoje em dia isso já não faz diferença nenhuma. Foi depois de aparecer com essa canção que gravei meu primeiro disco no Brasil e, poucos meses depois, nos EUA, com um time incrível de músicos e técnicos sob a batuta do Eumir Deodato.

Nesses 50 anos de carreira, há momentos que você destaca como os mais marcantes?
Os dois primeiros anos depois do FIC foram bastante intensos, shows, gravações... Agora, pensando bem, considero todos os 37 discos gravados, as trilhas que eu fiz para cinema, teatro e, até as participações como ator em diversos filmes, todas muito marcantes. E, como estamos em meio a todas essas comemorações, a imprensa tem feito muitas retrospectivas sobre minha carreira, e eu sempre me deparo com uma coisa muito legal e penso: “Nossa, que coisa bonita, nem lembrava que tinha vivido isso”. Enfim, me considero um sortudo por todas essas coisas que estou vivendo.

Lô Borges participou de todos os shows da turnê de 50 anos. Por que ele foi o escolhido?
Foi uma escolha simples e direta. Lô Borges dividiu comigo os créditos do primeiro Clube da esquina e esteve comigo em vários momentos importantes na minha vida, até hoje. Além disso, há muito tempo não fazíamos uma turnê juntos, então eu senti que a hora tinha chegado.

O Clube da Esquina até hoje reverbera e é tido como referência para novas gerações. Que importância você atribui ao movimento?
Eu sou péssimo em analisar qualquer coisa. Nunca fui de dar muita importância e nem de encher com méritos meus trabalhos, prefiro a opinião dos outros. Faço música naturalmente, e quando termino uma canção nunca fui daqueles de ficar pensando: “Essa vai ser um grande sucesso”. Em relação ao Clube, acredito que deve ter marcado a vida de algumas pessoas, já que até hoje muita gente comenta sobre os dois discos.


Bituca em 2012

70 Anos de idade
Milton nasceu no Rio de Janeiro. Adotado pelo casal Lilia e Josino (ela, filha da dona da casa onde a mãe de Milton trabalhava), foi morar em Três Pontas (MG), aos 2 anos. Criança, já impressionava com a musicalidade incomum.

50 Anos de carreira
A chegada a Belo Horizonte, após deixar Três Pontas, marca o início da trajetória profissional de Milton. O reencontro com o amigo de infância Wagner Tiso, a participação em conjuntos da noite e a aproximação de Fernando Brant e a família Borges remontam a essa época.

45 Anos de Travessia
Em 1967, Milton classificou três composições no Festival Internacional da Canção, inscritas pelo amigo e cantor Agostinho dos Santos sem que ele soubesse. Travessia, primeira parceria de Milton e Fernando Brant, ficou em 2º lugar e revelou o artista ao país.

40 Anos de Clube da esquina
O álbum duplo de 1972, creditado a Milton e ao então novato Lô Borges, batiza um movimento não proposital que coloca a música feita em Belo Horizonte (com nomes como Tavinho Moura, Beto Guedes e Toninho Horta, entre outros) na linha de frente da cultura nacional.

 

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