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Malandragem, dá um tempo!

Filme retrata a trajetória de Bezerra da Silva, um dos mais importantes e irreverentes sambistas brasileiros

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postado em 09/11/2012 08:00 / atualizado em 08/11/2012 11:32

“Com ele não tinha muito disso de representar as idílicas relações sociais. As canções tinham algo de protesto, de revolta. A radicalidade era o que nos encantava, por sermos jovens”, sublinha Simplício Neto, codiretor do recém-lançado longa-metragem Onde a coruja dorme, gabaritado a reavivar a imagem do sambista Bezerra da Silva. Doze anos depois da primeira investida no universo da música de Bezerra, também ao lado da diretora Márcia Derraik, que desembocou no curta Coruja, Simplício lembra a época de estudante, na qual, pegou equipamento emprestado com a produtora TvZero, atual parceira na difusão do longa. “Com o curta, ganhamos o prêmio especial do júri, em Gramado (RS), e dois importantes prêmios do Festival do Rio. Usamos uma linguagem de resumo, para realizar 15 minutos de filme, a partir de mais de 60 horas de imagens e de rodarmos muitos morros e favelas”, conta.

Projeto ampliado, e vencidas problemáticas como a intrasigência das gravadoras na liberação dos direitos autorais, Onde a coruja dorme finalmente chega aos cinemas, depois de concebido em 2006. Num primeiro momento, não foi fácil convencer a adesão de Bezerra da Silva (morto aos 77 anos, em 2005, em complicações de uma pneumonia). “Ele falou que elogio não enchia barriga, com aquele jeito ácido dele. Mas, a gente disse que queria mais do que loa e elegia”, conta Simplício Neto. Para o afinamento de interesses, os realizadores sublinharam a vontade de enfocar os compositores dos sucessos de Bezerra — “queríamos reforçar eles como filósofos, pensadores da realidade brasileira”, diz. A sensibilidade de Bezerra foi acessada, na vontade de valorização de compositores anônimos como o bombeiro Pedro Butina e o carteiro Claudinho Inspiração.

“Ele garimpava, como um verdadeiro antropólogo, um pesquisador ou jornalista: garimpava essa produção anônima que poderia ter virado folclore sem a interferência dele”, observa Simplício. Ajudante de pedreiro, aos 15 anos, depois de versado em zabumba e coco, o pernambucano Bezerra, levado para o âmbito da relação profissional com a música, por empurrão do compositor Doca, sabia reconhecer esforços. “Já dava um épico contar a história de vida dele. A gente fez, na montagem do filme, uma articulação da visão que os compositores têm da música, da política e da poesia. A biografia deles transparece nas letras das músicas”, conta o diretor. No LP Alô malandragem, maloca o flagrante (1986), o sambista, por sinal, já havia reverenciado os parceiros.

Saídos da classe média, os diretores se embrenharam num mundo promissor. “Eu era mais do rock, do hip-hop. Aí, percebi algo degangsta rap no sambandido do Bezerra. Um samba mais urgente, que não se apoiava no pagode romântico. Muito de raiz, tem dose de virulência incrível que não embarca no alienante do pagode romântico”, detecta. Na investida pela trilha dos passos dos compositores, figuras raras como Embratel do Pandeiro e Alicate de Niterói ficaram de fora, mas quis o destino que os cineastas topassem com tipos como Gil de Carvalho, localizado por telegrama — “o sujeito não tinha nem telefone”, diverte-se Simplício. O caminho das pedras foi dado por Bezerra, que dizia: “O meu segredo é que eu vou onde a coruja dorme, aquele lugar difícil de ser localizado”.

Cotidiano cantado
Afundados em músicas como Candidato caô caô e Garrafada do Norte, os realizadores tiveram o privilégio da convivência com criadores do porte de Tião Miranda, Roxinho e 1000tinho, muitos dos quais formados na escola da vida. Bombeiro, militar, aposentado “por loucura ou efeitos do alcoolismo”, Popular P foi um dos integrantes da “boemia dionisíaca”.

“Popular P acabou destruído pela cachaça e pela falta de oportunidade. Um dos compositores de Malandragem dá um tempo! Era impressionante aquele conhecimento musical forte, comentando a obra de Eumir Deodato e do César Camargo Mariano. Até o raro primeiro LP do Roberto Carlos ele tinha. E ele lá, vendendo discos na região da Baixada Fluminense”, conta Simplício. O diretor ressalta que a música imprimiu o ritmo de Onde a coruja dorme. “Tem uma relação com o humor e com as letras cantadas pelo Bezerra que falam de superação, numa nota de autoironia. As pessoas se divertem vendo o filme, já que ele mostra o bem brasileiro no jeito de ser do malandro carioca. Entram assuntos sérios, como a ação de bandidos e do narcotráfico, mas em tom engraçado. É um pouco daquilo que o hip-hop fala de maneira magoada”, avalia o cineasta.

Vencida a etapa “dos sem-tela”, como chegaram a se considerar os cineastas, dadas problemáticas no trâmite de emplacar o filme — “quase inviabilizado, pelas dezenas de milhares de reais dos direitos autorais, por causa da quantidade de música” —, Simplício comemora avanços como ter visto o Escritório Central de Diretos Autorais (Ecad) ser objeto de CPI e perceber mudanças na repercussão de documentários com pano de fundo musical, como foi o caso de Simonal — Ninguém sabe o duro que dei e Herbert de perto. “Com esses sucessos, as gravadoras viram que não vale muito a pena cercear a criação, cobrando caro. Pudemos negociar melhor. Em tempos de decadência, as gravadoras poderiam perceber o potencial promocional dessas obras. Bezerra gostava de nunca ser obrigado a pagar jabá pra tocar na rádio. Bezerra vendia pelo boca a boca, pelo natural sucesso popular”, conclui.


Onde a coruja dorme
(Brasil, 72min). Documentário de Márcia Derraik e Simplício Neto. No Espaço Itaú CasaPark 7, às 18h. Ingressos, R$ 17 (inteira). Não recomendado para menores de 12 anos.***


“Ele garimpava (a  produção popular), como um verdadeiro  antropólogo, um  pesquisador ou jornalista”
Simplício Neto, cineasta

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