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Danado de bom

Livro "O fole roncou!" faz levantamento minucioso sobre gênero musical que elevou Luiz Gonzaga à posição de rei

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postado em 09/11/2012 13:47 / atualizado em 09/11/2012 14:48

A música que saía do rádio anunciava um outro tempo. Sob o som contagiante da sanfona, a canção falava de um Rio modificado, onde as noites de são-joão não eram mais as mesmas. “Em vez de polca e rancheira/ O povo só pede e dança o baião…” A voz que proclamava a transformação se tornaria soberana. Era a de Luiz Gonzaga—devidamente celebrado neste 2012, ano do centenário de nascimento. Lá, na pequenina cidade araibana de Taperoá, o menino José Abdias de Farias ouvia aquele movimento diferente e despertava o desejo de remexer no fole de oito baixos do sisudo pai.

— Se eu te pegar tocando os meus oito baixos, vou te dar uma coça, rapaz, dizia o patriarca, também de nome Abdias.

O comichão nas mãos foi mais forte que a intimidação do chefe da família e o menino buliçoso deu para esmerilhar o fole às escondidas.Um dia foi descoberto, mas a cara do pai não enfezou.Ao contrário, abriu-se em felicidade.O garoto era bom. Estava fadado a virar o mestre Abdias, que, na sina da vida,umdia se apaixonou por uma moça chamada Marinês, num esbarrão na escadaria de uma emissora de rádio. Influenciado pelo visual Lampião de Luiz Gonzaga, ele mudou o estilo da namorada e ela ficou parecida com Maria Bonita. Formaram trio com umcolega de rádio Cacau—chamado de Patrulha de Choque do Forró.

Juntos, eles professaram o forró de Luiz Gonzaga por todos os cantos. Feiras, cinemas, circos e teatros.Trocavam, por vezes, o cachê mirrado por lugar para dormir. Ganharam fama por esse Nordeste com dimensão de um país.Um dia, no ano de 1955,Marinês, no triângulo; Abdias, na sanfona; e Cacau, na zabumba; tocaram para Luiz Gonzaga em carne e osso.O cabra ficou tão impressionado com o que viu e ouviu que, depois do show, entregou um pacote nas mãos de Abdias.

— Enfia a mão nesse saco, hômi! Mas abra a mão com vontade antes de fechar, disse.

Era dinheiro vivo para os três migrarem rumo ao Rio de Janeiro. Assim foram todos trabalhar com o mestre, morando nos fundos da casa dele, em Santa Cruz da Serra (bairro de Duque de Caxias). Nascia aí, sob as bênçãos de um rei, a rainha do xaxado. A original música nordestina abria caminhos, com mais intensidade, para conquistar o Brasil.

O encontro de Marinês, Abdias e Gonzagão é esmiuçado no livro O fole roncou! Uma história do forró (Zahar), dos jornalistas paraibanos Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues, que chega às livrarias de todo o país na quarta-feira, com o mérito de, a partir da figura central de Rei do Baião, desdobrar em muitas vozes o diverso e rico entorno de personagens e de causos.

— Não haveria como contar a história do forró sem colocar Luiz Gonzaga em primeiro plano. Ele está no início de tudo e foi, enquanto esteve vivo, o fio condutor dessa história, que começa justamente quando ele vai para o Rio de Janeiro e apresenta ao Brasil os ritmos nordestinos que conhecia desde a infância, argumenta Rosualdo.

— E esse é o primeiro livro a reunir as histórias desses autênticos gigantes do forró. Como numa quadrilha junina, “comandados” por Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, cantores e músicos se alternam na narrativa para dar seus testemunhos, temperados pelo humor, teatralidade e astúcia típicos do nordestino. No fundo, essa é uma história não só de música, mas de migração— e superação, defende Carlos Marcelo.

Genealogia do arrasta-pé

Assim, num extenso processo de pesquisa em arquivos e em registros memoriais, o autores fazem uma detalhada genealogia sobre a evolução da música nordestina a partir do autêntico arrasta-pé. Recheado de histórias, o livro traz depoimentos fundamentais como o do músico e produtor Marcos Farias, filho de Abdias eMarinês e o da dupla de compositores Antônio Barros e Ceceu. O lançamento em Brasília será amanhã, 10 de novembro, no Casa-Park. O livro recompõe o preconceito contra o forró, sobretudo, nos primeiros tempos, quando Luiz Gonzaga era associado à figura marginal de um cangaceiro. Ao acompanhar as mais de 470 páginas, o leitor ganha um outro olhar sobre a evolução do discriminado gênero musical.

—Forró era música de nordestino, e nordestino, no Sudeste, eram os porteiros, as empregadas, os pedreiros… O primeiro olhar diferente do “Sul” sobre essa música nordestina se deu, no início dos anos 1970, quando os tropicalistas chamaram a atenção para a importância de Luiz Gonzaga, resgataram a sanfona, relegada depois do surgimento da bossa nova e da popularização do violão, destaca Rosualdo.

— Uma das descobertas mais valiosas dessa pesquisa foi a comprovação, por meio de documentos da Polícia Federal localizados no Arquivo Nacional, que os forrozeiros também estiveram no alvo da censura, em especial na primeira metade dos anos 1970. Compositores nordestinos tiveram músicas proibidas de serem executadas publicamente por causa do duplo sentido das letras. As músicas foram avaliadas como "pornofônicas” porque, segundo os censores, continham “frases contra o decoro público", emenda Carlos Marcelo.

A deliciosa Munguzá de coco, de Genival Lacerda, foi “proibida de tocar em qualquer lugar, inclusive em casas de vendas de discos, só por conta desses versos: “A filha de seu Malaquias/O dono de um bar no mercado/ Atende a freguesia/ Num desmantelo danado/ Pra todo mundo que chega/ Ela grita, tá raspado/ Tá raspado, tá raspado/ Tá raspado, pode entrar.” Hoje, contado pela dupla de autores, o episódio soa como uma grande piada.

Três perguntas - Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues

Foi difícil optar pela escolha narrativa que conduz o livro?
Rosualdo —A narrativa é conduzida pela trajetória dos personagens. Juntando as histórias de cada um deles, determinamos, quase naturalmente, o que entendemos como uma possível história do forró.

Carlos— Acredito que há diversas formas de contar a história do forró. Escolhemos uma delas, que nos pareceu ainda inexplorada: a junção de depoimentos de quem participou e presenciou fases cruciais do gênero com a contextualização histórica e geográfica, que ajuda a entender o porquê da temática das letras.

Qual a maior contribuição desse livro para a história da música brasileira?
Carlos —Trata-se de uma história de um dos gêneros musicais mais populares do Brasil. Ao contrário de outros estilos, há pouca bibliografia sobre o forró. Espero que o livro contribua para estimular o surgimento de outras visões dessa música tão contagiante quanto representativa dos sentimentos e vivências de uma parte expressiva do Brasil — o povo nordestino.

Rosualdo — E há mais uma coisa: a “música brasileira” tem sido registrada muito do ponto de vista do Sudeste. Acho que o livro traz essa perspectiva diferente.

É possível eleger o depoimentomais emocionante desse processo?
Rosualdo — Curiosamente, foi o de um personagem que aparece quase nada no livro, o zabumbeiro Chiquinho Queiróz, pernambucano de Exu, em São Paulo desde os anos 1950. Com mais de 80 anos, ele é o protótipo do nordestino que deixou sua terra e vive até hoje pelas beiradas da metrópole.

Carlos—Muitos depoimentos foram inesquecíveis. As sessões de entrevistas que realizei em Campina Grande, com nomes como o sanfoneiro Geraldo Correia e o compositor João Gonçalves foramparticularmente emocionantes.
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