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Gonzagão, meu padrinho

Primeiro afilhado do Rei do Baião e filho da cantora Marinês, o músico Marcos Farias, morador de Taguatinga Norte, fala ao Correio sobre a "família" ilustre e a cinebiografia que está em cartaz

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postado em 14/11/2012 08:00 / atualizado em 13/11/2012 10:48

Marcos Farias é considerado por seus colegas,ao lado do mestre Dominguinhos, um dos melhores sanfoneiros do país  ( Luis Xavier de França/Esp. CB/D.A Press) 
Marcos Farias é considerado por seus colegas,ao lado do mestre Dominguinhos, um dos melhores sanfoneiros do país

 

 

Batismo: no colo de Dona Helena, mulher de Gonzaga, em 1960 (Arquivo Pessoal) 
Batismo: no colo de Dona Helena, mulher de Gonzaga, em 1960


Para o sanfoneiro, maestro e produtor musical Marcos Farias, o sucesso de público da cinebiografia de Luiz Gonzaga, desde 26 de outubro nos cinemas, tem um motivo certo: “O Brasil está querendo se conhecer mais, descobrir seus ídolos e seus heróis”, assegura. “Nossos superpoderes são mais simples do que os dos estrangeiros, mas são mais reais”, compara. Ele, contudo, não precisou recorrer à tela grande para se aproximar de seu mestre. Marcos é afilhado do Rei do Baião. Houve cerimônia na igreja e tudo, conforme manda o figurino.

Marcos é filho da cantora Marinês, a Rainha do Xaxado, e de Abdias, mestre do acordeon e ex-diretor da gravadora Columbia (atual Sony Music) — e grandes amigos de Gonzagão. O ambiente musical familiar fez com que esse carioca, hoje com 50 e tantos anos (“já passei bastante dos 50”, limitou-se a dizer), se tornasse ele próprio uma lenda. Além de exímio sanfoneiro, tocou e produziu muita gente grande da MPB, fez arranjos para Chico Buarque, Gilberto Gil e Tim Maia, trilhas sonoras para novelas e foi diretor musical de Elba Ramalho por anos. Hoje, vive em Taguatinga Norte.

O músico havia assistido ao filme Gonzaga — De pai para filho, de Breno Silveira, no dia anterior à conversa com o Correio, e se mostrou animado para fazer suas observações sobre a trajetória do Rei e do filho, Gonzaguinha. “Gostei”, iniciou, “mas senti falta dos detalhes. É um filme em formato hollywoodiano, muito lúdico”. Marcos acredita que a película cumpre bem o papel de retratar um pouco do que Gonzaga representou para a cultura brasileira, e principalmente a nordestina. “O grande poder dele foi ter dado voz a um povo mudo, do qual ninguém havia levantado a bandeira até então”, ponderou. O longa levou, até ontem, mais de 850 mil brasileiros aos cinemas.  

Munido de uma sanfona da marca Leticce, feita na Paraíba e avaliada em R$ 18 mil, ele aproveitou para tocar canções emblemáticas do padrinho enquanto relembrava a amizade de Gonzaga com o casal Marinês e Abdias, já falecidos. Nos anos 1950, os dois faziam apresentações pelo Nordeste quando foram descobertos pelo Rei, que se impressionou com tanto talento e os colocou para tocarem com ele. Logo Marinês começou a se destacar no grupo e, em 1957, lançou seu disco de estreia, com canções do até então desconhecido João do Vale: Peba na pimenta e Pisa na fulô. E causou estrondo. Pouco depois, a cantora estaria comprando uma casa próxima ao apartamento de Seu Lua, na Ilha do Governador.

“Gonzaga já havia dado o título de Rainha do Baião para a cantora Carmélia Alves, como forma de se aproximar da elite a qual ela pertencia”, ressalta Marcos. Portanto, acabou coroando Marinês como a Rainha do Xaxado, já que ela dançava muito bem o ritmo.

Boa convivência
O batismo de Marcos aconteceu em 1960, na Igreja do Menino Jesus de Praga, na Ilha do Governador. O sanfoneiro ouviu dizer na família que a esposa de Gonzaga, dona Helena — “uma pessoa muito complicada” —, chegou a desconfiar de que o garoto seria filho do mestre. Mas, obviamente, não era. O assunto traz à tona a questão da paternidade de Gonzaguinha, abordada no filme, mas não esclarecida totalmente. Marcos garante que o Rei do Baião não podia ter filhos, por conta de uma doença venérea contraída na época em que serviu o Exército.

O músico e produtor teve boa convivência com seu padrinho e chegou a tocar em um disco dele quando adolescente, substituindo Dominguinhos. A relação não era mais próxima porque, segundo ele, Gonzaga era artista 24 horas por dia. Foi em uma fazenda do Rei, inclusive, que ele se meteu a tocar instrumentos pela primeira vez, aos 5 anos, e impressionou a todos pela musicalidade fora do comum. “Ele mandou fazer um chapeuzinho de couro e uma zabumbinha para mim. Me apresentei com ele algumas vezes”, revela. Com 12 anos, o precoce Marcos já tocava em cabarés na cidade do Rio de Janeiro e gravou com Dominguinhos, de quem até hoje é muito amigo, e Jackson do Pandeiro.

O filho de Marinês morou no Rio a maior parte da vida, mas vivia pelo mundo “fazendo o apurado” (como dizia o velho Gonzaga). Morou nos Estados Unidos e em Fortaleza, sempre trabalhando com música, esteve em Brasília e optou definidamente pelo DF há pouco mais de uma década. É casado com Sheilami — que é cantora e filha de Zé do Norte, um dos primeiros forrozeiros da cidade — e os filhos também enveredaram pela música. Davi, 18 anos, é baterista; Emmanuel, 12, toca guitarra. Com um histórico desses, não tinha para onde os garotos fugirem.


 (Ed Alves/CB/D.A Press) 

 

O amigo do Rei
Sinval Sá teve a honra de escrever a primeira biografia sobre Gonzagão. O sanfoneiro do Riacho da Brígida — Vida e andanças de Luiz Gonzaga foi lançado em 1966. Agora, por conta do centenário de nascimento do mestre, a ser comemorado em 13 de dezembro, o livro chega à 9ª edição. Sá estará presente na solenidade comemorativa, em Recife, apresentando a nova versão de seu rebento. “Na época, o lançamento em Fortaleza teve a presença do próprio Luiz”, relembra o escritor, orgulhoso, aos 90 anos. Sinval vive em Brasília há 46 anos e já publicou outros dois romances e dois livros de contos.

Segundo o autor, foi o próprio Gonzaga quem tratou de divulgar a biografia: levava para os shows Brasil afora e a vendia em suas andanças. Na época, os 10 mil exemplares se esgotaram rapidamente. Paraibano de Conceição, filho de pais pernambucanos, Sá morava no Ceará quando escreveu o retrato do sanfoneiro, no começo dos anos 1960. “Eu ia ao Rio, onde ele morava, e passava algumas temporadas na casa dele. A convivência era muito boa. Era uma pessoa maravilhosa, bem educada. Vinha à minha casa quando estava em Brasília. Me chamava de ‘doutorzão do Ceará’”, diverte-se.

O sanfoneiro... é contado de forma fiel aos relatos de Gonzaga, com pitadas de ficção. Sá até tentou romancear um pouco, mas o biografado não aprovou e pediu que o escritor se ativesse ao que haviam conversado. Ele assistiu à cinebiografia que está nos cinemas e notou que algumas passagens são parecidas com as retratadas em seu livro. “Sei que eles se basearam no Gonzaguinha e Gonzagão, da Regina Echeverria, mas ela me consultou para fazer o livro dela e, inclusive, me cita”, destaca. Na película de Silveira, entretanto, Sinval não teve nenhuma participação — pelo menos não diretamente. (GS)

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