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O grand finale dos vampiros

Produto do estúdio independente mais lucrativo de Hollywood, A saga Crepúsculo encerra uma série de cinco filmes com uma aventura de moldes épicos

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postado em 14/11/2012 10:51 / atualizado em 14/11/2012 10:59

Felipe Moraes

 




Um grand finale deve motivar uma peregrinação de fãs aos cinemas em A saga Crepúsculo: Amanhecer — Parte 2, que entra em cartaz no Brasil neste feriado. Generoso até na quantidade de caracteres escritos no título, o filme encerra a agonia de fanáticos, a curiosidade de fãs que nunca leram os livros de Stephenie Meyer e, por que não, a hostilidade de quem, desde 2008, nunca viu muita graça no trio romântico entre Bella, o pálido Edward e o raivoso Jacob e nas briguinhas entre lobisomens e vampiros.

A exemplo de Harry Potter, que teve o final dividido em dois capítulos — com intenções de lucrar em dobro, é claro —, a saga Crepúsculo fez o mesmo. E chega à segunda metade de Amanhecer prometendo uma sessão extasiante para os aficionados. A compra da Summit, casa da franquia, pela Lions Gate (de Jogos vorazes), o estúdio independente mais lucrativo de Hollywood, incrementou o orçamento, estimado em US$ 131 milhões (superior aos US$ 110 da Parte 1). Afinal, a trama, que pela primeira vez repete o diretor — no caso, Bill Condon —, é uma aventura de exigências épicas.

Contra o mundo
Bella não é mais a estudante que parecia frágil em meio a vampiros supervelozes e lobisomens do tamanho de ursos. Agora, ela pode se defender — e resguardar, principalmente, a vida da filha Renesmee, interpretada por uma porção de atrizes em várias idades. Os incansáveis Volturi prometem punir os Cullen por traição, já que a existência da menina é um ultraje à nobreza dos vampiros.

Edward, Bella e família precisam de aliados. A alcateia já não pode ferir os Cullen, pois Jacob tem um carinho sobrenatural por Renesmee (o tal “imprinting”), e os Quileute estão impedidos, quase que por decreto, de encostar um dedo — ou uma pata, que seja — nos habitantes mais sem vida de Forks. Aos dois clãs, juntam-se sociedades vampirescas de praticamente todas as partes do globo. Será o mundo inteiro, reforçado por legiões de fãs, contra os Volturi.


Nos capítulos anteriores…

 

 

2008 Crepúsculo
Emperrada na Paramount, a série literária encontrou fôlego três anos depois na Summit, selo independente que fez sucesso com American Pie e abrigou o oscarizado Guerra ao terror (2008). O primeiro episódio é um conto de fadas colegial centrado nas descobertas de Bella, que se muda para a casa do pai, em Forks, cidadezinha perto de Washington. Lá, mesmo diferente dos outros — ela não se importa muito com a aparência e anda emburrada —, faz amigos, incluindo o então cabeludo Jacob, conhece o estranho Edward Cullen numa aula de biologia, é salva por ele de um acidente e logo se mete na rivalidade entre os Cullen e vampiros rivais. Começo inocente, ingênuo, e de metáforas bem puritanas. O desejo de Bella sair da casa dos pais, se tornar vampira e ter a vida dos sonhos ao lado de um príncipe não simboliza outra coisa senão a perda da virgindade e a entrada na vida adulta pelo casamento.

O melhor: No fim, Bella é mordida no pulso por James, que não consegue aceitar que um dos seus goste de uma humana. Edward, então, suga o veneno de volta. Suspense. Bella ainda vive.

O pior: A mudança de tom do meio para o fim — de um romance em formação para um corre-corre envolvendo não-vivos, os Cullen e o pescocinho de Bella. As cenas da floresta deixam a desejar nos efeitos digitais.


Bilheteria: US$ 392 milhões

 

 

2009 A saga Crepúsculo: Lua nova
Elo frouxo da história e mais alongado da franquia — 2h10 de duração, contando os créditos finais. Apesar da inconsistência dramática, a expectativa em torno da continuação gerou a bilheteria mais parruda. Bella fez 18 anos e seus dilemas sobre ter um namorado que nunca vai envelhecer se intensificam. Os Cullen deixam Forks. Bella, sempre tendo visões (ou conselhos) sobrenaturais de Edward, cria fortes laços com Jacob, agora um garotão que adora andar por aí sem camisa ou explorar a floresta na forma de um lobo gigante. A angústia de Ed o faz ir até a Itália enfrentar os Volturi, a realeza vampira. É feito um acordo: Bella deve escolher entre morrer ou tornar-se vampira. Edward promete transformá-la — desde que, primeiro, ela aceite se casar.

O melhor: As sequências tensas no grande salão dos Volturi, em que Aro (Michael Sheen), o líder dos nobres, deixa as primeiras pistas sobre a guerra que explodirá no quinto e último filme.

O pior: A pouco convincente amizade de Jacob e Bella, fragilizada sobretudo pela má atuação de Taylor Lautner. Bella descobre que ele é um lobisomem — e inimigo milenar de vampiros.

Bilheteria: US$ 709 milhões

 

 

2010 A saga Crepúsculo: Eclipse
A série dá um salto de qualidade, com mais dinheiro no orçamento (US$ 68 milhões contra US$ 37 mi do primeiro) e bons acréscimos de vilania no script. Victoria (Bryce Dallas Howard), uma das comparsas do falecido (e carbonizado) James no primeiro filme, arquiteta a formação de um exército de novos vampiros para, desta vez, esmagar Edward, Bella e os Cullen. Enquanto isso, o melodrama segue adiante. Após uma feliz aliança entre os Cullen e os Quileute — a alcateia —, Bella toma uma decisão definitiva sobre o que quer de Jacob e Edward. Ser a melhor amiga do lobisomem. E, por fim, colocar uma aliança no dedo, ir para a cama com Edward e ter 18 anos para sempre.

O melhor: David Slade, o britânico que fez 30 dias de noite (2007) e Menina má.com (2005), consegue instaurar uma atmosfera de horror — ainda que suave o suficiente para tirar o sono de poucos.

O pior: O didatismo, presente desde a mudança de Bella para Forks, ganha contornos ainda mais ób vios quando ela se diz deslocada de tudo e de todos, sonhando com uma vida eterna ao lado de Ed. Adendo desnecessário.

Bilheteria: US$ 698 milhões

 

 

2011 A saga Crepúsculo: Amanhecer — Parte 1
A guinada rumo às considerações finais é iniciada no casamento de Edward e Bella. Jacob, desenganado, dá no pé. O clímax da série — com o perdão do trocadilho — acontece na primeira noite de amor dos jovens apaixonados. Bella, feliz por passar a lua de mel numa ilha da costa brasileira, nem se importa com as escoriações no corpo, mas nota uma protuberância no ventre. Um filho vem por aí. De volta a Forks, a situação exige cuidados, e Jacob esquece a inimizade com Ed por um momento, para proteger uma Bella grávida, mas raquítica, dos Quileute. Nasce Renesmee, Jacob tem um “imprinting” por ela — leia-se: ligação emocional e espiritual involuntária — e sabe que agora terá de protegê-la até a morte. Vendo Bella à beira da morte, Edward morde-a no pescoço — e também nos braços e nas pernas e onde mais for preciso para revivê-la. Ela acorda. De olhos vermelhos.

O melhor: Apesar do tour de force de Kristen, o melhor do filme está no casório. A estrutura de vinhetas e depoimentos evidencia o passado musical do diretor Bill Condon (Dreamgirls), que também comanda a Parte 2.

O pior: O tempo de tela dado ao começo da vida a dois e à gravidez de risco não deixa espaço para mais nada. Aro, o antagonista, só aparece numa cena depois dos créditos, inventando um gancho para o novo filme

Bilheteria: US$ 705 milhões

Sucesso também nas livrarias
O sucesso na vendagem dos quatro livros da série Crepúsculo não deixa dúvida sobre o poder de mulheres no universo literário da primeira década do século 21. Por 10 anos, a britânica J.K. Rowling, mãe de Harry Potter, e a norte-americana Stephenie Meyer dividiram as atenções dos adolescentes ligados às tramas narradas especificamente para agradar a esse público. As duas escritoras atuam no campo da literatura de fantasia. Essa é a única semelhança entre ambas. Stephenie foi responsável por impor metamorfoses inacreditáveis a um gênero literário secular — sedimentado pela pena sagaz do mestre Bram Stoker — em adaptação contemporânea.

Para Juliana Cirne, gerente de comunicação da Intrínseca, editora responsável pelas publicações relacionadas à saga, o segredo para a marca impressionante de 116 milhões vendidos no mundo todo está na linguagem acessível redigida por Stephenie. “Crepúsculo trata do amor impossível e incondicional entre uma menina normal e um belíssimo rapaz — que depois se descobre ser um vampiro. O fato de a narrativa ter linguagem simples em primeira pessoa facilita no processo de identificação com a protagonista”, acredita.

No país, o primeiro livro chegou em edição em português ao mesmo tempo que o primeiro filme era lançado. Claro, o sucesso na vendagem dos quatro livros está diretamente relacionado ao lançamento cinematográfico e à popularização dos personagens. Com o lançamento do último filme, manter o desempenho dos produtos da série nas livrarias deverá ser mais difícil (existem boatos de que ela continua abordando o tema e alguns personagens em outros livros). “A série de livros ainda vende muito bem, mas está em uma curva descendente — lá se vão quatro anos do lançamento do primeiro título no Brasil e sete desde a publicação nos EUA”, resume Juliana.

 

Teses e mais teses

Crepúsculo agradou milhares de fãs em idade escolar pelo mundo tanto quanto causou desconfiança entre estudiosos. O assombro diante do fenômeno cultural de grande porte transformou os livros e os filmes em objeto de estudo acadêmico.
O vampiro, na literatura, já serviu como exemplo de seres deslocados para as margens da civilização reagindo diante da exclusão ao transformar a necessidade de sangue pela matança humana. Nada disso parece afligir os personagens crepusculares. As criaturas das trevas criadas por Stephenie Meyer representam o ideal de beleza e sucesso vendidos por Hollywood: são brancos, heterossexuais, ricos e bonitos. Os sugadores de sangue opõem-se ao núcleo dos lobisomens, descendentes indígenas excluídos da sociedade bem nascida de Forks.

 

Crepúsculo (2005)
Escrito espretensiosamente de madrugada por Stephenie Meyer quando ainda era uma dona de casa dedicada e mãe de três filhos. Nos EUA, figurava na seleção de livros mais vendidos do The New York Times um mês depois do lançamento.
 “Quando a vida lhe oferece um sonho muito além de todas as suas expectativas, é irracional se lamentar quando isso chega ao fim” (Bella)

 

Lua nova (2006)
Declaradamente inspirado em Romeu e Julieta, de William Shakespeare, é marcado pela separação do casal romântico e pelo aprofundamento da relação entre Bella e Jacob Black, o lobisomem.
“A morte, que sugou todo o mel do teu doce hálito, não teve poder nenhum sobre a tua beleza” (Edward)

 

Eclipse (2009)
A inspiração vem de O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë. Marcado por uma guerra entre a família Cullen e um exército de vampiros jovens.
“A minha idade realmente não é tão importante. Edward, eu estou preparada. Eu escolhi a minha vida — agora eu quero começar a vivê-la” (Bella)

 

Amanhecer (2010)
Épico marcado por batalhas campais. Claro, o amor eterno entre os protagonistas viverá pela eternidade.
 “Eu olhei para Edward e por um momento senti que consegui ler a mente dele. Eu podia ver que ele se sentia da mesma forma. Pronto para um pouco de paz” (Bella)

 



 

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