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Ziraldo, o superpoderoso

Incansável aos 80 anos, o cartunista e escritor mineiro reúne em livro os super-heróis cheios de problemas humanos,VDcriados por ele desde a década de 1960

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postado em 17/11/2012 08:00 / atualizado em 16/11/2012 09:20

No desenho O super asilo, desenvolvido por Ziraldo primeiramente em preto e branco e depois transformado em um quadro colorido, os famosos heróis dos quadrinhos americanos — Super-Homem, Batman, Fantasma, Capitão América e Tarzan — repousam enrugados e grisalhos em sua velhice, ancorados por bengalas, penicos e dentaduras. Mas estaria Ziraldo, agora que virou oitentão (a festa foi em 24 de outubro), se sentindo dessa forma?

“Não, eu estava gozando deles. Não sou um supervelho”, brinca o cartunista, em entrevista ao Correio. Parafraseando o amigo Tom Jobim, que certa vez mandou a pérola “que país é este em que os mitos somos nós?”, Ziraldo zomba: “Que país é este em que os anciãos somos nós?”. A palavra velho realmente não combina com ele, apesar de os cabelos brancos já terem aparecido há algumas décadas. Incansável e em constante atividade, o multiartista tem disposição de sobra, de dar inveja a muito super-herói.

E como foi chegar aos 80? “Foi uma perplexidade, levei um susto. ‘Ó, cheguei aos 80’”, conta, remendando a situação. “É muito maluco, ninguém se prepara para a velhice e para a morte. A natureza seria realmente sábia se a cabeça envelhecesse juntamente com o corpo. Eu mesmo já fui muito mais velho do que sou hoje”, filosofou, logo mandando um de seus ensinamentos: “Uma coisa que os jovens não sabem é que não tem o menor problema ser velho se você estiver saudável”.

De volta a O super asilo, a obra faz parte da compilação Os Zeróis, recém-lançada pela Globo Livros. Lá estão os esboços e desenhos dos heróis criados por Ziraldo e publicados originalmente em O Pasquim, no Jornal do Brasil e na revista Fatos e Fotos desde os anos 1960. Os personagens, contudo, apesar de inspirados nos americanos, deixam de lado a invencibilidade, o vigor e a virilidade para aparecerem em situações não muito confortáveis, mostrando-se humanos demais, risíveis e falíveis, cheios de dúvidas e defeitos.

Visconde e Tarzan
Quando criança, na pequena Caratinga (MG), Ziraldo era leitor de Monteiro Lobato. Ele já gostava de desenhar, e seus conhecidos sabiam disso. No início dos anos 1940, em um domingo, indo para a missa, o garoto foi interpelado pelo jornaleiro, que jogou um gibi em sua mão. “Não tenho dinheiro para pagar”, gritou o menino. “Seu pai me paga depois”, respondeu o vendedor. Aos 9 anos, Ziraldo descobrira ali o motivo de ter vindo ao mundo. A história, salvo engano, era do Super-Homem. “Meus amigos de infância não foram Emília e Visconde de Sabugosa — eles foram logo abandonados—, e sim Capitão América e Tarzan”, recorda o desenhista.

Os heróis que permearam os primeiros anos de Ziraldo tornaram-se os protagonistas dos cartuns que ele produziu quando trabalhou em publicações conceituadas. Agora, contudo, eles seriam os Zeróis — com “z” de Ziraldo, sim, mas também com um desconcertante “zero” no começo, para mostrar que a história era outra. “Eram heróis de merda”, frisa o autor. Os anos eram de ditadura, e os personagens traziam consigo uma enorme carga de ironia e crítica ao regime, mas por debaixo dos panos.

Enquanto Batman e sua turma representavam os colonizadores, nossos paladinos subdesenvolvidos tropeçavam no meio do caminho. Sexualidade, religião e preconceito racial estavam no balaio temático de Ziraldo, tudo com altas doses de humor, claro — uma das marcas do criador de O menino maluquinho. “Tendo um tema, fica mais fácil fazer charges”, fundamenta ele. “O principal tema do cartum é a falibilidade humana”.

Da revista à galeria

Alguns dos desenhos, como O super asilo, viraram quadros em 2010, quando o cartunista pôde mostrar sua verve de pintor e montar a exposição Zeróis: Ziraldo na tela grande. A mostra esteve em Brasília entre março e abril deste ano, no Museu Nacional, e trouxe 44 quadros para a cidade, agora reproduzidos no livro. Alguns foram criados para a exposição, e Ziraldo propôs um diálogo com mestres da pintura, como Picasso, Velázquez e Goya. O livro faz parte da comemoração dos 80 anos de Ziraldo, que deve lançar no ano que vem uma publicação só com cartuns — “nada de política”—, os quais ele acredita ter feito por volta de 50 mil. “Comecei como cartunista em 1954, na Folha de Minas”, relata. Em outubro, houve um “tsunami” de celebrações, com direito a baile no Rio de Janeiro, onde ele vive, e festa em Caratinga, com show do conterrâneo Agnaldo Timóteo e desfile de 5 mil crianças. “Eu não paro”, acentua. A gente sabe, Ziraldo.

 

OS ZeRóIS
De Ziraldo, com textos de Maria Gessy. Globo Livros Graphics, 256 páginas. R$ 59,90.

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