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No fio da navalha

Direção da Faculdade Dulcina argumenta que herdou milhões em dívidas e enfrenta a evasão de alunos

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postado em 19/11/2012 13:05

Teatro Dulcina de Moraes em tempos de ocupação no palco: equipamentos sem investimentos   (Daniel Ferreira/CB/D.A Press - 17/5/10 ) 
Teatro Dulcina de Moraes em tempos de ocupação no palco: equipamentos sem investimentos


Quando assumiu a direção da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, Augusto Brandão encontrou um passivo de R$ 4 milhões, entre fundos de garantia a salários atrasados, e cerca de R$ 7 milhões de dívidas trabalhistas. “Nos concentramos em quitar a dívida aos poucos e investir no espaço, achamos que fortalecendo a faculdade ela geraria novas matrículas e se tornaria sustentável”, relata. A previsão de procura, no entanto, não se confirmou.

 Com a demanda escassa, tomou-se a decisão de suspender os dois últimos vestibulares. “Queríamos arrumar a casa e reprimir a demanda”, conta. Na última tentativa de realizar o certame, apenas 100 pessoas se candidataram às turmas de artes cênicas e plásticas (bacharelado e licenciatura). O pouco poder aquisitivo dos estudantes também pressiona para baixo o preço das mensalidades. Atualmente, o valor pago varia de R$ 199, no caso dos convênios mais baratos, a R$ 370, sem descontos.

 Nos tempos áureos, antes da greve histórica dos anos 1980, a instituição teve mais de 1.500 alunos. Há um ano e meio, contava com 490. Atualmente, são 275 matriculados. Com a diminuição da procura, que ele atribui a uma crise geral no ensino das artes, foi preciso fundir turmas e demitir professores. Os que não tinham a titulação necessária para lecionar também foram dispensados. “Já tivemos uma média de quatro professores por alunos. Mas demissão gera gastos com rescisão. Só neste mês, gastei R$ 26 mil com essa dívida e precisa desembolsar mais R$ 20 mil neste mês.
 
Conta-gotas

As dívidas são sanadas aos poucos. As pendências trabalhistas serão parceladas em breve, para que a instituição consiga as certidões junto negativas junto aos órgãos públicos de fiscalização. Sem esses documentos, nem sequer pode se beneficiar de leis de incentivo à cultura e editais. No ano passado, a instituição ganhou kits novos de iluminação, mas não pôde recebê-lo por não estar com a documentação em dia. A principal fonte de sobrevivência, hoje, são os aportes de dinheiro feitos pelos conselheiros.

 Tentando se adaptar aos novos tempos, a faculdade pretende apertar o cerco aos devedores, fazendo cobranças efetivas. O aluguel de salas ociosas a parceiros também começa a render dividendos. Mesmo em condições precárias, o teatro é alugado para eventos corporativos e apresentações de escolas. “Talvez o tipo de serviço educacional que prestamos tenha que se adaptar. Pensamos em oferecer curso de tecnólogo, com duração reduzida, e isso poderia atrair mais interessados”, afirma Brandão, que ainda planeja abrir os cursos superiores de música e design, caso sejam economicamente viáveis.

Memória

 

Empreendedora, atriz exibe a planta que viraria o sonho em Brasília  (Arquivo CB/D.A Press ) 
Empreendedora, atriz exibe a planta que viraria o sonho em Brasília

 

Dulcina, uma mulher de fibra
Nascida em Valença, em fevereiro de 1908, a filha de um clã de artistas deixou sua marca na história artística do Brasil (a mãe, Conchita, era uma comediante premiadíssima). Atriz, diretora, professora e produtora, encenou mais de 100 peças e foi pioneira na luta pelos direitos da classe. Ajudou a regulamentar o registro profissional, instituiu a folga semanal dos artistas às segundas-feiras e acabou com a figura ultrapassada do ponto (aquele profissional que soprava falas aos atores, num alçapão escondido no palco, numa época em que o texto era trabalhado em fragmentos, sem discussão com o todo, feito do teatro moderno.

Depois de construir um império artístico ao lado do marido, Odilon Azevedo (dramaturgo e ator), mudou-se para Brasília, transferindo para a cidade sua Fundação Brasileira de Teatro, inaugurada em 1955. Alguns dos professores dessa primeira fase estão na base da modernização dos palcos nacionais, a exemplo de Adolfo Celi, Ziembinski, Henriette Morineau, Cacilda Becker e Bibi Ferreira.

Dulcina assegurou direitos profissionais da classe artística e consolidou sua instituição de ensino, formando nomes consagrados do mundo cênico, como Rubens Correa, Suely Franco, Ivan Albuquerque, Irene Ravache, Isolda Cresta, Nildo Parente, Marcelo Saback, Yan Michalski. Em Brasília, uma longa greve dos professores nos anos 1980 foi apontada como o começo da decadência da instituição. Dulcina morreu em agosto de 1996, aos 88 anos, com dificuldades financeiras.

 

Os Irmãos Guimarães construíram carreira no Dulcina: amor absoluto   (João P. Teles/Divulgação ) 
Os Irmãos Guimarães construíram carreira no Dulcina: amor absoluto
 


A culpa é do cristal?

Na contramão de quem admite derrota, há quem insista em sonhar com o legado da diva em seu estado puro. “Torcemos muito para que não fechem. Temos um amor absoluto por aquele lugar. Nossa carreira foi construída ali”, destaca o diretor Fernando Guimarães, em coro com o irmão, Adriano. De alunos, eles passaram a professores em 1996. “O mais complicado é ver que não se encontrou uma forma sustentável de manter o espaço. É preciso vontade dos alunos, dos professores e uma mobilização política muito forte para resolver o caso”, afirma Adriano.

Como Dulcina era mística, há quem diga que o perrengue está ligado a questões energéticas. Quem conta essa versão metafísica é André Amaro. “Havia um cristal na sala de Dulcina que estava conectado com outro debaixo do teatro. Quando esse segundo foi retirado para decorar o túmulo dela, a energia se desalinhou.”

 

Peças raras do acervo estão ameaçadas pela ação do tempo  (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 9/6/11 ) 
Peças raras do acervo estão ameaçadas pela ação do tempo
 


Estudantes desolados

A fachada inconfundível continua em destaque no Conic, mas com novo visual. As fotos de Dulcina que enfeitam o corredor externo da Fundação Brasileira de Teatro foram pichadas e rabiscadas por vândalos. Em um dos painéis, lê-se a palavra crise. A frequência de alunos é mínima. As turmas nem sequer começam com toda a sua capacidade e chegam ao fim do semestre ainda mais vazias. “A gente vai se arrastando como pode. Gostaria de poder olhar para trás e ver tudo isso aqui ainda vivo”, afirmou uma estudante, que preferiu não se identificar. Sua turma, afirma, fica mais vazia a cada tempo e a sensação é de que as portas podem se fechar a qualquer momento.

A impressão de decadência não é exclusividade de quem frequenta a faculdade atualmente. Há quase 10 anos, quando o ator Vinícius Ferreira estudava na instituição, o contexto não era muito diferente. “Muitas disciplinas ricas foram se perdendo. Uma vez, fui me matricular em esgrima, a disciplina constava na grade, mas já não havia professor”, conta ele, que já em seu tempo, ouvia a explicação de inadimplência dos alunos como argumento para o estabelecimento andar mal das pernas.

Uma deficiência que ele nota em sua formação é a ausência de qualquer preparação para as atividades paralelas que envolvem a carreira do ator. “A gente saía preparado para o palco, mas muito perdido em relação a como se colocar no mercado, como produzir, com pouca ou nenhuma visão empreendedora”, reconhece.

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