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O pesadelo de Dulcina

Referência na história das artes cênicas nacionais, Fundação Brasileira de Teatro afunda em dívidas e corre risco de fechamento

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postado em 20/11/2012 08:00 / atualizado em 19/11/2012 13:07

Fachada da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes pichada traduz o estado de abandono da instituição     (Luis Xavier de França/Esp. CB/D.A Press - 9/11/12 ) 
Fachada da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes pichada traduz o estado de abandono da instituição
 (Acervo / Fundação Brasileira de Teatro  ) 



Artista de primeira grandeza, Dulcina de Moraes promoveu uma revolução no universo cênico do país, a ponto de ser apontada por Fernanda Montenegro como a mais importante personalidade do teatro brasileiro do século 20. Quando já havia sido alçada ao posto de diva, transferiu seu império para Brasília na década de 1970, trazendo para cá a primeira instituição de ensino superior de teatro do Brasil. O legado, no entanto, agora agoniza diante dos olhos tristes da cidade. Afundada em dívidas, a Fundação de Teatro Brasileiro (FTB), que mantém a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, corre o risco, mais uma vez, de encerrar as atividades. A situação se agrava quando se coloca em questão o estado físico do patrimônio: o Teatro Dulcina, projetado por Oscar Niemeyer, e a Sala Conchita de Moraes, em estado degradante, estão fora do circuito de pautas da cidade. Além disso, o acervo pessoal da Companhia Dulcina-Odilon, uma joia incalculável, está ameaçado de deterioração.

 Hoje, há menos alunos e professores dedicados ao espaço. Já faz um ano que a faculdade não realiza um vestibular. Nomes de peso da dramaturgia e dos palcos de Brasília foram, pouco a pouco, desligando-se (ou sendo desligados) do projeto. As instalações se deterioram a cada dia. Remontar essa sucessão de equívocos que culminaram com a morte anunciada da instituição não é fácil.

“Enquanto houver alunos, a faculdade estará aberta”, garante o advogado Augusto Brandão, diretor da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Há quatro anos à frente do manancial de problemas herdados das gestões anteriores, ele gasta, hoje, 99% do seu tempo, tentando pagar os salários de seus 30 professores e 18 funcionários. Outro desafio diário é equacionar quanto investir em gastos mensais e quanto usar para quitar as pendências do passado, enfrentando uma inadimplência de cerca de 40% dos R$ 82 mil que compõem, hoje, sua folha de pagamento.

Má administração? Desorganização financeira? Atitude paternalista em relação aos devedores? Inchaço no quadro de professores? As hipóteses são muitas e o Correio ouviu a direção da casa, professores e alunos de diferentes gerações para encontrar pistas que indiquem o porquê da derrocada para a qual se encaminha o projeto da diva. Depois de ter aulas no local (com a própria mentora da fundação e da faculdade) e de seguir em uma trajetória que o fez ser dono do Teatro Caleidoscópio, o ator, diretor e dramaturgo André Amaro consegue ver a situação com olhos de empresário. Para ele, é óbvio que a Fundação não tem mais fôlego financeiro para sustentar o sonho de Dulcina.

Em sua fase de aluno, no entanto, André Amaro notava que já havia um público de baixo poder aquisitivo na instituição, o que aumentava a quantidade de bolsas distribuídas e a concessão de descontos. “Também havia mais solidez administrativa e professores de alto quilate. Essa renovação de quadro não foi feita”, reconhece.

Elefante branco

André Amaro lembra que as dificuldades financeiras surgiram antes da morte da atriz, em 1996. Com o tempo, no entanto, a situação foi ficando “criminosa”, nas palavras dele: “As instalações foram dilapidadas. As cortinas e as cadeiras estão péssimas, falta segurança elétrica para operar as luzes do palco. Está tudo sucateado”, lamenta. A solução possível, acredita, é o desapego. “O sonho de Dulcina respingou em nós, que os alimentamos por outras vias. Ele é etéreo e pode ser construído de outra forma, em outro lugar”, afirma, acrescentando que o prédio do Conic, onde a FBT está sediada, tornou-se um elefante branco.

 Ex-aluna e ex-professora da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, a atriz e radialista Sheila Campos vai além em sua análise do problema: “Não se pode mais confundir o sonho de Dulcina com a manutenção de uma instituição de ensino falida, mal gerida, que não é fiscalizada e que não forma minimamente a contento seus alunos. Da forma como está, ela trai o sonho de Dulcina”, defende.

 Como professora, ela sentiu na pele o atraso constante nos pagamentos e o descumprimento dos acordos entre a direção e o corpo docente. “Nós nunca tínhamos perspectiva de receber, não sabíamos quanto custava a nossa hora/aula nem como éramos pagos por atividades de orientação de aluno e participação em bancas de formatura”, destaca. Segundo ela, não é incomum que ex-professores processem a casa em busca dos direitos que ficaram pra trás.

 No período em que foi desligada da equipe de professores, Sheila Campos matriculou-se em uma pós-graduação de direção teatral oferecida pela faculdade e começou a sofrer com a escassez de aulas. Aos trancos e barrancos, cumpriu as exigências do curso e pagou todas as mensalidades, mas não consegue retirar o diploma até hoje, um ano depois do término. “Não consigo ter acesso à página de aprovação da banca, não encontram meus documentos, sempre existe uma desculpa”, afirma Sheila.

 

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