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Correio Braziliense

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Brincadeira séria

Maurício de Sousa cria dois personagens da Turma da Mônica que, além de divertir, ajudam a combater o preconceito. Igor e Vitória são soropositivos e ensinam à meninada que é possível conviver com eles sem problemas. O cartunista esteve em Brasília para lançar o gibi, que já é distribuído nas escolas públicas

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postado em 30/11/2012 13:31

Maurício de Sousa com os alunos do Centro de Ensino Infantil n°2 de Brazlândia, onde foi lançado o projeto: curiosidade e encanto  (Monique Renne/CB/D.A Press) 
Maurício de Sousa com os alunos do Centro de Ensino Infantil n°2 de Brazlândia, onde foi lançado o projeto: curiosidade e encanto
 

Do traço brincalhão do cartunista Maurício de Sousa, 77 anos, saem histórias que há mais de cinco décadas divertem gerações. Mas, agora, no novo gibi do artista, lançado em parceria com a Associação dos Amigos da Vida e as secretarias da Criança e de Educação do Distrito Federal, o assunto é sério. Intitulados Turma da Mônica em Amiguinhos da vida, os quadrinhos serão utilizados nas escolas públicas locais para combater o preconceito contra crianças soropositivas. Atualmente, há 280 meninos e meninas nessa condição na capital federal.

A primeira leva das revistinhas saiu em setembro deste ano e foi utilizada em escolas particulares do DF. Mas, este mês, a nova história chega também à rede pública, onde serão distribuídos 10 mil exemplares. Para celebrar o início do projeto, Maurício de Sousa veio a Brasília e conheceu estudantes do Centro de Ensino Infantil n°2 de Brazlândia, na manhã de ontem, durante o lançamento oficial do projeto. “A criança pode ajudar a combater o preconceito dos pais. Ela é patrulheira”, comentou o cartunista sobre a iniciativa.

Na história de Maurício de Sousa, Mônica, Magali, Cascão e Cebolinha recebem dois novos colegas na Escola do Limoeiro: Igor e Vitória, ambos portadores do vírus HIV. Os personagens explicam, por meio de uma trama leve e divertida, que também podem brincar, correr, abraçar os amigos, enfim, fazer tudo como outra criança qualquer.

Professora de educação infantil há cerca de 20 anos, Cláudia Simone Gomes, 42, teve a oportunidade de trabalhar o novo gibi em sala de aula esta semana. O resultado, segundo ela, foi surpreendente. “Os alunos (na faixa dos 5 anos) receberam super bem. Entenderam que todas as crianças são iguais. Não identifiquei nenhuma reação de preconceito”, conta.

Aos 4 anos, Victor Hugo Almeida ficou empolgado ao receber o gibi e conhecer o cartunista. Fã de Mônica e companhia, o garoto é muito jovem para entender até mesmo o significado da palavra soropositivo, assim como Viviane Cristina da Silva, da mesma idade. A menina, porém, mostra que compreendeu o mais importante. “Eles são legais e pode brincar todo mundo junto”, disse a garota, que se encantou pela nova personagem do cartunista, a animada Vitória.

Experiência

Na primeira etapa do projeto, escolas de ensino infantil de três regiões administrativas do DF receberão os exemplares dos gibis. As instituições ficam no Núcleo Bandeirante, no Plano Piloto e em Taguatinga. A ideia é, posteriormente, ampliar a distribuição para todas as unidades de ensino do país, atingindo a tiragem de 200 mil revistas. As tirinhas não serão comercializadas, mas podem ser obtidas, gratuitamente, nos postos do laboratório Sabin.

Além de receber as revistas, os professores dos colégios contemplados serão capacitados para melhor trabalhar o material em classe. Segundo a secretária da Criança, Rejane Pitanga, levar essa discussão para o ambiente escolar é uma boa alternativa para atingir não só a meninada, como toda a família. “É bem importante levar esse trabalho para dentro da escola, porque isso repercute também em casa”, comenta Rejane.

A iniciativa surgiu a partir da experiência do presidente da Amigos da Vida, Christiano Ramos, com o tema e contou com recursos da Petrobras, da Embaixada da Austrália e do laboratório brasiliense. “Percebi, nas brinquedotecas Renato Russo, construídas em hospitais da rede pública do DF que atendem pessoas com Aids, que os pais de crianças sem o vírus não queriam ver os filhos brincando com os soropositivos”, lembra.

O ativista, então, entrou em contato com o pai da Turma da Mônica, que recebeu com prazer o desafio de levar uma temática tão complexa para o mundo infantil. “Sempre faço parte dessas campanhas de conscientização. É ótimo lidar com criança, elas são uma excelente porta de entrada”, disse Maurício de Sousa, acostumado a levar a questão da inserção social para os quadrinhos (leia Para saber mais).

Três perguntas para

Maurício de Sousa, cartunista

Como é trabalhar um tema tão delicado com as crianças?
Não é difícil. É só você contar a história com honestidade. A criança não tem preconceito. Ela é muito curiosa, está sempre querendo aprender alguma coisa. Quando você ensina, ela recebe com naturalidade. Para eles, é normal conviver com crianças de todo tipo. Os pais é que às vezes atrapalham um pouco.

Se a criança não é preconceituosa e isso vem da família, como o gibi pode ajudar a combater a raiz do problema?
A criança é patrulheira. Ela briga com o pai quando está fumando, pede para apagar a luz, para fechar a torneira. Então, esse produto repercute nas famílias, nas casas, e assim conseguimos alcançar nosso objetivo de tirar o preconceito e o medo das pessoas mal informadas.

Como foi fazer esse lançamento aqui no DF? Como é sua relação com Brasília?
Venho muito aqui, tenho sobrinhos candangos. Gosto muito da cidade. Tem um lado diferente. É uma cidade laboratório, que está se humanizando agora. Brasília está deixando de ser uma cidade fria, sem esquina, e penso que as (cidades) satélites ajudam muito nisso, a colocar um sangue mais brasileirão, mais misturado aqui.

Trabalho voluntário
Fundada em dezembro de 2000, a Associação dos Amigos da Vida é uma organização sem fins lucrativos que atua na prevenção do HIV/Aids e na promoção dos direitos humanos no Distrito Federal. Conta com médicos, enfermeiros, psicólogos, advogados e assistentes sociais voluntários para prestar atendimento a portadores do vírus e familiares.

Para saber mais

Inclusão social

Não é a primeira vez que o cartunista Maurício de Sousa leva para os quadrinhos o problema do preconceito. Entre seus personagens, estão uma garota deficiente visual, a Dorinha; um cadeirante, o Luca, carinhosamente conhecido pelos amiguinhos como “Da roda”; uma menina com Síndrome de Down, a Tati; e um autista, o André.

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