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As coisas comuns da juventude

Livros que narram dramas, paixões e situações do cotidiano de jovens adultos ganham leitores e mais espaço nas estantes e nas telas de cinema

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postado em 07/12/2012 08:00 / atualizado em 06/12/2012 12:54

Nem sempre mundos de mentirinha e heróis ou vilões fantásticos habitam as páginas mais consumidas por jovens leitores. Dois dos livros young adult (para “jovens adultos”) que chamaram a atenção este ano são, na verdade, “bem deste planeta”. Lidam com medos, dilemas, amores e vontades da adolescência e desenvolvem narrativas escritas do ponto de vista dos próprios personagens. Títulos capazes de gerar essa intimidade com os leitores não são novidade desde que O apanhador no campo de centeio (1951), de J.D. Salinger, é o que é: um clássico sem faixa etária. A culpa é das estrelas (Intrínseca), lançado no Brasil este ano, e As vantagens de ser invisível (Rocco), prensado lá fora em 1999, traduzido aqui em 2007 e reeditado em 2012 por conta da adaptação ao cinema, seguem o mesmo caminho: falam de coisas comuns, das dores de crescer, amar e querer ser alguém. E, por parecerem autênticos, são caros, queridos, próximos como amigos de quem os lê.

O romance do norte-americano John Green (leia entrevista), A culpa é das estrelas, é um dos livros de cabeceira da estudante Bárbara Morais. Ela já era fã do escritor desde 2010, quando conheceu Quem é você, Alasca? Depois, entrou de cabeça na história de Hazel Grace, uma garota de 16 anos portadora de câncer terminal, deprimida e isolada de todos. No grupo de apoio aos doentes, ela conhece Augustus e apresenta a ele o seu livro favorito, Uma aflição imperial, ficção inventada por Green especialmente para sua protagonista.

Os dois, apesar das dificuldades e limitações, juntam forças — e o que sentem um pelo outro — para ir à Holanda e obter respostas do autor, Peter Van Houten, sobre o fim do livro, terminado no meio de uma frase, que nem O castelo, um dos escritos inacabados de Franz Kafka. “A abordagem engraçada e tocante sobre o câncer com certeza foi uma das coisas que me marcaram”, diz Bárbara, de 22 anos, que estuda economia na Universidade de Brasília (UnB) e escreve em blog sobre literatura (nemumpoucoepico.com). “O câncer não é o centro da história. Ele aborda questões típicas da adolescência, como baixa autoestima, primeiros relacionamentos, amigos. Hazel, apesar de tudo, ainda é uma adolescente e ela não se priva dos seus sentimentos e dilemas só porque é doente. Ela só ganha alguns adicionais”, completa.

Amigo imaginário

As vantagens de ser invisível, até pouco tempo atrás em cartaz nos cinemas, é um dos raros casos em que o livro chegou às telas com roteiro e direção do próprio escritor. Em estrutura epistolar, com cartas endereçadas a um amigo anônimo, e ambientação no início dos anos 1990, Stephen Chbosky desfia a vida de Charlie, um adolescente de 15 para 16 anos amedrontado com o início do ensino médio. Apesar da timidez, ele faz dois grandes amigos: Sam, por quem se apaixona, e Patrick, veteranos do colégio. E com eles têm as experiências mais profundas da adolescência. Melissa Kobori, fã da história, topou com As vantagens por acaso numa livraria em 2007, atraída pela capa. Hoje, a edição revela os desgastes de cinco anos de uso — e de pelo menos três releituras em cada um deles.

“Tenho até certo ciúme, porque aprecio muito o livro”, diz ela, que de início desconfiou da exposição em torno do filme, mas aprovou a adaptação. “É um dos meus favoritos. Cada vez que leio, ele me revela mais coisas”, completa Melissa, que atualmente estuda para concursos públicos. A simplicidade da narrativa — Charlie escreve como fala — é o aspecto que mais a encanta. “O autor entra no pensamento dele, na rotina. É a descoberta de outra pessoa”, acrescenta.



 (Editora Rocco/Divulgação) 

As vantagens de ser invisível

De Stephen Chbosky. Tradução: Ryta Vinagre. Rocco, 224 páginas. R$ 29,50.



 (Editora Intrínseca/Divulgação) 

A culpa é das estrelas

De John Green. Tradução: Renata Pettengill. Intrínseca, 288 páginas. Preço: R$ 29,90 (papel), R$ 19,90 (e-book).




 (Tom Koene/Divulgação) 

Escritor multimídia


John Green, 35 anos, é desses jovens escritores intensamente ligados ao espírito dos tempos atuais: o best-seller mantém conta sempre atualizada no Twitter (@realjohngreen) e um endereço muito popular no YouTube, o VlogBrothers, que divide com o irmão, Hank. Em conversa com o Correio, o autor de A culpa é das estrelas fala sobre literatura, a experiência com pessoas em estado terminal, com quem conviveu na época em que trabalhou num hospital de crianças, em Chicago, os desafios de escrever com a mente de uma adolescente e até sobre futebol — ele promete torcer para que o hexa da Amarelinha saia no Mundial de 2014.

Como foi tentar contar uma história de amor entre dois jovens que batalham contra o câncer?
Nós veneramos o amor romântico e o vemos como a cura para tudo o que nos perturba, e romanceamos a morte para evitar ter de enfrentar sua realidade e inevitabilidade. Queria contar uma história de amor distante desse tipo de sentimento, e inerente a isso estava criar a relação de Hazel e Gus, de amor e doença, tão honesta e visceral quanto possível. Mas também não queria escrever um livro choroso, triste. Não gosto de ler esse tipo de livro. Acredito que todas as histórias verdadeiras são, em última instância, esperançosas.

Há um humor sombrio em Hazel, mas ela não deixa de sofrer com a doença. De que maneira você trabalhou esse elemento sem soar meramente mórbido?
A experiência que tive com pessoas em estado terminal me mostrou que eles são seres humanos como todo mundo, e que isso inclui ser engraçado. Para mim, o oposto de engraçado não é sério. O oposto de engraçado é chato. Queria que Hazel tivesse a atitude raivosa e incisiva que meus amigos favoritos têm. (E devo acrescentar que minha amiga Esther Earl, que morreu de câncer aos 16 anos e a quem o livro é dedicado, era uma pessoa extremamente divertida, dona uma sagacidade intensa e ágil mesmo perto de morrer.)

Um aspecto interessante do livro é a paixão de Hazel e Gus pelo livro Uma aflição imperial. Algum título real serviu de inspiração?
Acho que, provavelmente, fiquei mais seduzido pela oportunidade de escrever sobre o relacionamento entre livros e seus autores, e a maneira como os leitores (particularmente os leitores contemporâneos e jovens) assumem que o livro é uma extensão de seu autor. Em alguns pontos, A culpa é das estrelas é um livro sobre como os livros podem nos mudar e nos revelar coisas, mas eu acredito que o poder dos livros é dado a eles pelos leitores, e não pelos autores. Dito isso, quando pensei em Uma aflição imperial, me vieram à mente dois livros que eu amo: Infinite jest, de David Foster Wallace (tradução brasileira prevista para início de 2013), e The blood of the lamb, de Peter de Vries. São bem diferentes, mas imagino Uma aflição imperial como uma mistura perfeita dos dois.

Você é fã de futebol, certo? Vai torcer pelo Brasil  na próxima Copa, que será realizada aqui?
Obviamente, devo primeiro apoiar os Estados Unidos. Ainda que eu tenha sentimentos conflitantes sobre o meu país, ele ainda é meu, e adoraria vê-los jogar bem. (Dito isso, no momento não está muito certo que vamos sequer nos classificar). Mas vou torcer pelo Brasil. Imagine este cenário. Digamos que os EUA milagrosamente cheguem às quartas de final. Será um grande resultado, mas enfrentaremos a Alemanha, e eles acabarão com a gente. Enquanto isso, o Brasil passará às semifinais eliminando Gana e Inglaterra. Nas semis, então, teremos Espanha, Brasil, Alemanha e Uruguai. Até lá, serei 100% Brasil. A final será entre Espanha e Brasil. Vou ver a final vestindo minha camisa do Lucas Leiva, do Liverpool — 2 a 2 depois da prorrogação. Vai para os pênaltis. Lucas marca o gol decisivo. Essa vitória desemboca na temporada de 2014/2015 no futebol inglês, em que Lucas vai liderar o Liverpool ao título nacional. É isso o que eu espero.
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