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Literatura

Janelas abertas de um criador

A partir da vivência numa claustrofóbica São Paulo, Juliano Cazarré lança o primeiro livro de poesia

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postado em 13/12/2012 12:37 / atualizado em 13/12/2012 11:41

Nahima Maciel

O ator Juliano Cazarré exibe poesias e suas diversas influências, de Luis Borges a Mario Quintana: processo maduro de concepção   (Diego Bresani/Divulgação) 
O ator Juliano Cazarré exibe poesias e suas diversas influências, de Luis Borges a Mario Quintana: processo maduro de concepção

Recentemente, durante entrevista no programa de Jô Soares, Juliano Cazarré precisou desfiar explicações sobre sua, digamos, maturidade e felicidade. O ator foi convidado para falar sobre Pelas janelas, a estreia na poesia. O livro recém-lançado pela editora gaúcha Dublinense contém 53 poemas escritos entre 2007 e 2008 e duramente trabalhados e burilados. Não, esclareceu Cazarré durante o programa global, eles não foram escritos por um adolescente e reunidos em um volume nostálgico. São fruto de um momento maduro, uma observação do mundo aperfeiçoada pela condição cênica da vida do autor. E não, eles não tratam de dores profundas. Cazarré não é um beatnik, não gosta de beber até tarde, pratica esportes e tem muito cuidado com a alimentação. “Às vezes, penso que sou muito feliz para ser artista porque não tenho essa dor do mundo”, repara. “Foi um livro pensado, não é um apanhado de poemas de adolescente.”

Em Brasília para passar as festas de fim de ano e descansar dos meses de gravação de Avenida Brasil e do longa Serra pelada (dirigido por Heitor Dhalia), Cazarré vai aproveitar para lançar o livro hoje à noite na Livraria Cultura (Iguatemi). Será o primeiro passo brasiliense dessa coletânea nascida em São Paulo e ancorada no desejo de enxergar o mundo para além do próprio umbigo. “Depois que defini o tema das janelas, foi muito bom, ele guiou minha busca. Mas também acho que observo bastante o mundo e observar é uma coisa que a gente faz pela janela”, conta. “Escrevi os poemas numa época em que eu morava em São Paulo, uma época em que estava pobre de janelas e isso sensibilizou meu olhar. Lembro que saía na rua e o olho nunca fazia foco em uma coisa longe porque logo tinha uma coisa perto, uma parede, uma obra.”

Como o livro é uma estreia, Cazarré não se pressionou na busca de um estilo e permitiu a intromissão de todas as influências cultivadas por anos de leitura de poesia. Pelas janelas tem poemas para Jorge Luis Borges, Mario Quintana, João Cabral de Melo Neto e Augusto dos Anjos, este último, como explica o autor, escrito “à maneira de”. “Por ser meu primeiro livro, achei que não podia negar minhas influências”, avisa. No conto de abertura, a única prosa do livro, e em uma série de poeminhas “infames”, Borges se faz presente como referência de tema e linguagem. Cazarré buscou luz em História universal da infâmia, do autor argentino, para escrever as 15 quadrinhas espalhadas pelo livro. “Tentei usar a linguagem meio borgeana, uma cara de pau de um garoto brasileiro.”

Palco inspirador
A poesia de Cazarré não nasce da dor nem do excesso. Ao contrário, ela fecunda na observação e no planejamento. E nisso, o palco até ajuda. “Depois que comecei a estudar artes cênicas meu olhar foi ficando mais curioso e isso reflete muito na minha poesia”, garante. “O meu olhar de ator está lá. O mundo é meu material de pesquisa.” Pelas janelas, ele acredita, tem algo do processo experimentado em Adubo ou a sutil arte de escorrer pelo ralo, a montagem que ganhou destaque nacional e deu início à carreira do ator em 2005. “O livro tem algo da linguagem da peça que é essa coisa de esgotar um tema, de trazer referências, porque nem tudo precisa ser reinventado.” Para ilustrar o livro, ele convidou o fotógrafo Diego Bresani, que divide as páginas com as ilustrações de Samir Machado de Machado.

Aliviado por estar de volta a Brasília e junto da mulher e dos filhos, Cazarré está em dúvida se vai começar a trabalhar em um novo livro de poesias ou se embarca nos dois roteiros que pretende finalizar. Um deles está em fase de amadurecimento e trata de idosos no Rio de Janeiro, mas o autor pensa em deslocar a trama para Brasília. O outro está praticamente pronto e narra a história de dois amigos universitários que partem em uma viagem de carona até a Bahia. Cazarré quer questionar se ainda há espaço para atitudes hippies no Brasil de 2012. Se ainda existe a vila de pescadores na qual se consegue hospedagem por quase nada. Ou se o Brasil contemporâneo é também um tanto hostil.

 

Pelas janelas
De Juliano Cazarré. Dublinense, 80 páginas. R$ 29,50. Lançamento hoje, às 19h30, na Livraria Cultura (Iguatemi).

    Poema // Bestiário

    A janela do metrô em movimento
    É uma janela de ação.
    Porque é janela que passa.
    Rápida. Janela de furacão.

    A janela do metrô em movimento
    É janela de escuridão,
    Por onde não se vê nada
    Ou, quando se vê, é borrão.
    E o borrão entrevisto
    Precisa da imaginação
    Que lhe dê contorno, linha,
    Enfim, significação.

    Janela de fundo plúmbeo
    Que não se abre em paisagem
    Tornando-se, assim, um espelho
    Dos passageiros da viagem,
    Que ficam a olhar seus reflexos
    E evitam encarar os estranhos
    Que dividem com ele as entranhas,
    Da besta de colossal tamanho.

    As janelas do metrô são também
    Sua exterior proteção.
    São a pele desse monstro.
    São as escamas desse dragão.
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